Veterinário André Francisco Chaguri: Cães e gatos também podem desenvolver ansiedade e depressão

André Francisco Chaguri. (Foto: Eisner Soares)
André Francisco Chaguri. (Foto: Eisner Soares)

Médico veterinário e proprietário de uma clínica em Mogi das Cruzes, André Francisco Chaguri mostra nesta entrevista que, assim como os humanos, os animais também podem sentir os impactos da pandemia do novo coronavírus. Segundo ele, por ficarem confinados dentro de casa, cães e gatos podem desenvolver estresse, ansiedade e outras “consequências psicológicas”. Para combater estes comportamentos indesejáveis, André dá algumas dicas: estão liberados passeios na rua, desde que com os devidos cuidados de higiene, e prevalece o amor e o carinho entre tutores e pets. A convivência também pode ser aprimorada nestes tempos de isolamento social.

A pandemia e o isolamento social afetaram os pets? Se sim, de que maneira?

Os efeitos colaterais do afastamento social não afetam só os humanos. Assim como as pessoas, animais de estimação, como os cães, também podem sentir os impactos do confinamento devido o novo coronavírus, apresentando desde comportamentos erráticos até o possível desenvolvimento de ansiedade de separação. Eles também estão sujeitos a arcar com as consequências psicológicas que podem surgir durante a quarentena ou a partir do relaxamento das medidas de isolamento social.

Então cachorros, gatos e outros animais domésticos podem ficar estressados e ansiosos?

Sim. Muitos cães pararam de passear como de costume. Para eles, essa quebra de rotina pode ter pesado muito, a ponto de desenvolver problemas no aparelho urinário, já que estavam acostumados a fazer xixi na grama. Também há a questão da higienização. Alguns tutores refizeram cálculos e o “Totó” passou a tomar banho em casa. Essa alteração pode ter sido a glória para muitos animais, mas aqueles que apreciavam a rotina de petshops, seja por terem construído laços afetivos com o tosador ou pelo simples fato de dar uma voltinha de carro e trocar de ambiente, ficaram bem abalados.

O que mais mudou?

Outro ponto que pode ter mudado com o confinamento é a qualidade da comida. Houve quem cortasse a ração boa pela mais em conta ou até mesmo pelo básico arroz e feijão. E se esse aporte energético foi racionado, tudo ficou ainda pior. Cachorros e gatos não entendem nada de vírus, mas percebem as emoções que abalam a vida de seus tutores. Por isso, é preciso estar atento a possíveis comportamentos bizarros assumidos pelos pets, já que esse pode ser o primeiro sinal de insegurança e desequilíbrio nos animais de estimação. Esse estado, se prolongado, pode evoluir para quadros de ansiedade e depressão, a ponto de abalar seriamente a saúde do mascote.

Os animais podem tornar mais alegre o ambiente doméstico, não é? Pode dar dicas de como retribuir isso, distraindo-os enquanto estão “presos” em casa?

Se o cachorro passava o dia sozinho em casa e não saía para passear, ele provavelmente está muito feliz por ter o tutor o dia todo em casa com ele. A dica é aproveitar esse tempo para brincar e dar muito carinho enquanto o mima no sofá. Agora, se tutor e pet tinham o hábito de passear na rua todos os dias, ou se ele ia para uma creche, provavelmente ficará muito entediado em casa durante esse tempo de quarentena. Nesses casos, será preciso achar uma substituição para essa atividade física.

Pode dar algumas sugestões?

A melhor coisa a se fazer durante a quarentena é deixar a alimentação do cachorro bastante regrada e fazer brincadeiras diversas ao longo do dia, deixando o animal descansar depois de comer. Se a pessoa mora em um espaço amplo, pode brincar de bolinha algumas vezes por dia e inventar brincadeiras como pega-pega. Porém, se não tem um espaço amplo para brincar com o cachorro, dá para inventar brincadeiras de esconde-esconde com ele: o tutor se esconde atrás de uma porta, por exemplo, e o mascote vai procurar. Também vale aproveitar esse tempo para fazer enriquecimento ambiental com o animal, como caça ao tesouro, escondendo porções de rações ou petiscos pela casa e incentivando a procurar, ou em uma garrafa com furos ou até mesmo em brinquedos próprios para alimentação. Durante a quarentena, temos que curtir muito o pet, já que normalmente nas nossas rotinas não temos muito tempo para eles.

Qual é a relação dos animais com a Covid-19?

É sempre importante lembrar que os pets não são transmissores da Covid-19, então o abraço e o carinho são liberados, já que eles possuem um papel tão importante de nos transmitir amor incondicional independentemente da situação e especialmente em um momento tão difícil. Os cães e gatos têm seu próprio coronavírus, o alphacoronavírus, que causa sintomas gastroentéricos, como diarreia e vômito em cães. Já nos gatos, o vírus transmite a kryptonite infecciosa felina. Inclusive os cães são prevenidos com as vacinas V8 ou V10. Esse vírus nada tem a ver com a Covid-19 (betacoronavírus), que ataca as vias respiratórias de seres humanos. Resumindo: humanos não passam o betacoronavírus para animais, e animais não passam o alphacoronavírus para humanos.

Mas as normas mais rígidas de higiene se aplicam também aos pets?

Sim. É preciso estar atento aos cuidados com higiene também com os pets. O vírus sobrevive de quatro a seis horas, por exemplo, na coleira, nos objetos. Portanto, possivelmente é transmissível sim se a pessoa infectada colocar a mão no pelo do animal e em seguida uma pessoa saudável passar a mão na mesma região e levar a mão ao rosto. Apesar de todos os cuidados, passear com os cães sempre é importante.

Durante a pandemia o abandono de animais aumentou, atingindo até mesmo cavalos e coelhos. O que leva a este quadro?

Desde que a pandemia de coronavírus começou, muitos cães e gatos passaram a ser abandonados nas ruas das cidades brasileiras. Existem dois grandes motivos para que as famílias estejam desistindo dos animais de estimação: a dificuldade financeira e o medo de que os animais possam ser transmissores do vírus. Seja pela crise, por esse medo ou pela mudança de vida causada pela pandemia, mais donos de animais de estimação estão se desfazendo dos seus outrora melhores amigos. Entre os fatores que levam a isso estão a perda de emprego e gente que está indo morar de favor com algum parente e não tem como levar o animal. Há ainda o caso de animais de estimação cujos donos entraram na extensa lista de vítimas da Covid-19.

E quais são as orientações para quem encontra um animal abandonado?

Diante do conhecimento de um caso de crueldade contra animais domésticos ou silvestres, qualquer cidadão pode comunicá-lo à Polícia Militar por meio do telefone 190. A Polícia Ambiental também pode ser acionada. É importante dizer que, antes de fazer a denúncia, é preciso saber para onde o animal será destinado, uma vez que nem a polícia nem o governo o acolhem. O ideal é ter um lar temporário ou definitivo já engatilhado para abrigar este animal para que ele não acabe na rua. A denúncia de maus-tratos é legitimada pelo Art. 32, da Lei Federal nº. 9.605, de 12.02.1998 (Lei de Crimes Ambientais) e pela Constituição Federal Brasileira, de 05 de outubro de 1988. Fotografe e/ou filme os animais vítimas de maus-tratos e, se possível, reúna testemunhas; ao fazer a denúncia, procure uma cópia por escrito do artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais.


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