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Universidade Cruzeiro do Sul tem plano para expandir o Centro Universitário Braz Cubas, em Mogi

NOVOS TEMPOS Campus da Braz Cubas, no bairro do Mogilar, que abriga atualmente 7 mil alunos na graduação presencial e outros 9 mil em educação a distância. (Foto: arquivo)

A notícia da aquisição do Centro Universitário Braz Cubas pela Cruzeiro do Sul Educacional foi recebida com surpresa na cidade. A informação impactou alunos e colaboradores. As negociações, iniciadas há dois anos, se mantiveram em sigilo. Não foi divulgado o valor da transação, mas há comentários de que o negócio foi fechado por R$ 150 milhões.

Os detalhes da venda de uma das mais antigas instituições de ensino da cidade não foram divulgados pela diretoria, que prefere não se pronunciar sobre as negociações e o futuro da Braz Cubas. Os funcionários ficaram sabendo das mudanças durante reunião realizada na manhã desta quarta-feira, 04. Há informações de que pouca coisa deve mudar na parte administrativa e de que o quadro deve ser mantido.

Em nota enviada à imprensa, a Braz Cubas explica que a operação “é o início de uma nova etapa com grandes perspectivas positivas para a instituição e para seus alunos, professores e profissionais, além de reunir empresas com um mesmo DNA – promover a transformação de vidas por meio da educação”.

O acordo foi formalizado anteontem. Porém, a finalização da transação está sujeita à análise dos órgãos reguladores e ao cumprimento de condições precedentes de praxe. Somente depois disso é que a Cruzeiro do Sul assumirá a operação da Braz Cubas.

A nova proprietária informa que a integração da Braz Cubas seguirá a mesma estratégia de processos anteriores com a expansão de cursos e incremento dos investimentos para modernização da infraestrutura e dos recursos tecnológicos. A expectativa é trabalhar inicialmente na modernização da infraestrutura e dos recursos tecnológicos para aumentar o número de alunos tanto presenciais, quanto da educação à distância.

Não foi confirmado formalmente, mas tudo indica que o nome também pode ser mantido, já que a Cruzeiro do Sul Educacional quer “preservar a marca regional, respeitando os valores da instituição adquirida e potencializando a força dela como polo estudantil de referência na região”.

O quinto maior grupo de educação do Brasil é composto por 11 instituições de ensino superior, além de cinco colégios, atendendo a mais de 316 mil alunos entre ensino básico, ensino técnico, graduação, pós e extensão nas modalidades presencial e à distância, com o qual opera por meio de mais de 900 polos no Brasil e também no Japão. Conta ainda com 7,5 mil professores e funcionários administrativos.

Além da tradição de 79 anos de atividades em Mogi, a Cruzeiro destaca seu interesse pela Braz Cubas por se tratar de importante polo de educação na Grande São Paulo, que mantém 23 cursos de graduação presencial e 28 de graduação à distância, além de mais de 150 cursos de pós-graduação. São 16 mil alunos matriculados, sendo 9 mil em cursos à distância e 7 mil na graduação presencial.

“Nosso plano de expansão prevê a aquisição de instituições conceituadas e que compactuem com a excelência de ensino que aplicamos em todas as marcas da Cruzeiro do Sul Educacional. A aquisição da Braz Cubas chega após recentes investimentos na cidade de São Paulo, onde já atuamos com fortes marcas e concretizamos uma expansão orgânica com novos campi para as marcas Cruzeiro do Sul”, declara Fábio Ferreira Figueiredo, diretor de Planejamento da Cruzeiro do Sul Educacional.

Trajetória

Os problemas enfrentados pela Braz Cubas para manter atividades já vinham sendo comentados há algum tempo nos meios educacionais, tanto que no ano passado, o Ministério de Educação mudou sua denominação para centro universitária. Com quase oito décadas de atuação na cidade, a instituição mogiana era administrada por seis famílias e passou por reestruturação há alguns anos, com objetivo de profissionalizar a gestão, mas não resistiu aos problemas e conflitos internos, agravados pelo aumento da concorrência no setor. A venda do centro universitário não envolve o Liceu, que passará a ser administrado pelo economista Iram Alves dos Santos.

As informações sobre os valores estimados na transação foram divulgadas pelo Valor Econômico. A receita líquida, segundo o jornal, é estimada para este ano é de R$ 1,5 bilhão, o que representará um crescimento de 25% em relação a 2018. Esse valor não inclui a receita líquida da Braz Cubas, que foi de R$ 96 milhões no ano passado. O lucro do grupo projetado para 2019 é de cerca de R$ 400 milhões.

História na educação teve início em 1940

CHICO ORNELLAS

NO CENTRO Antigo campus da Braz Cubas na rua Francisco Franco foi construído na década de 50. (Foto: arquivo)

Tudo começou em 1940, quando o advogado Plínio Boucault não passou no vestibular da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (que ele frequentaria mais tarde – gradou-se em 1947, na 116º turma) e seu pai, o dentista Isidoro Boucault, decidiu que ele deveria trabalhar. Comprou-lhe, do professor Castorino França, um pequeno curso de admissão ao ginásio no Largo da Matriz e, a partir dele, criou a Escola de Comércio, levando-a para uma casa que havia na esquina das ruas Flaviano de Melo e Moreira da Glória. Em seguida, transferiu o Liceu Braz Cubas para a Rua Isabel de Bragança, no espaço hoje ocupado pelo Edifício Helbor Tower.

Foi nessa época que, visionário, Plínio Boucault fez o que, só 30 anos depois, fariam as empresas que se pretendem eternizar: compartilhou cotas com os colaboradores mais destacados. Mantendo o cargo de presidente e a condição de sócio majoritário, ele constitui, com 10 de seus professores, a Sociedade Civil de Educação Braz Cubas.

O projeto do novo prédio da rua Francisco Franco surgiu em meados dos anos 50. Era um terreno amplo, bem no meio do quarteirão. Havia um bloco de frente, com entrada triunfal, à direita da qual ficava a biblioteca; à frente o auditório e, à esquerda, secretaria e diretoria. No pavimento superior desse bloco ele instalou os laboratórios.

Um amplo corredor, que passava ao lado do auditório, conduzia ao segundo bloco, com três pavimentos. No inferior, aproveitando o declive do terreno, instalou a cantina, almoxarifado, a sala da fanfarra e a quadra de esportes. No pavimento térreo e no superior ficavam as salas de aula. Amplas, arejadas, pensadas segundo as técnicas pedagógicas da época.

O auditório do Liceu Braz Cubas é um caso à parte. Durante muitos anos foi o espaço de grandes acontecimentos na Cidade. Foi nele, por exemplo, que o então secretário de Educação do Estado, Januário Baleeiro de Jesus e Silva, tentou, sem sucesso, dar a primeira aula inaugural da Faculdade de Filosofia, daquilo que é hoje a Universidade de Mogi das Cruzes. Foi impedido, em 1964, por estudantes mogianos que protestavam contra o golpe militar de março.

No mesmo auditório, o Teatro Experimental Mogiano teve apresentações de sucesso. E, ao tempo em que era prefeito, Waldemar Costa Filho recusava, sistematicamente, a cessão do Teatro Vasques para apresentações que considerava indevidas, as companhias teatrais buscavam o auditório da rua Francisco Franco, que jamais lhes foi negado. Assim foi com “Confidências de um Espermatozoide Careca” e “Hair”. Nestes casos, a única exigência era que 30% da bilheteria fossem doados à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Mogi. Em 2014, este prédio foi transferido para a Prefeitura de Mogi, em pagamento de dívidas fiscais.

A partir de 1966, o espaço passou a abrigar também o curso de Direito, embrião da futura Universidade Braz Cubas. Hoje, todas as faculdades do Centro Universitário estão no campus do Mogilar. Foi a segunda incursão de Mogi no boom universitário incentivado pelo governo – a primeira foi de Filosofia, da UMC. Em meados da década de 1970 um novo incentivo, desta vez concedido pela Prefeitura de Mogi: o município havia desapropriado terras da antiga Chácara da Yayá e decidiu vender, a preço simbólico, quinhão dela para a instalação dos campi universitários.

A instalação da primeira faculdade Direito foi viabilizada por um rearranjo, entre os cotistas da Sociedade Civil de Educação Braz Cubas: respeitando o direito dos antigos professores, foram admitidos novos sócios. Ao longo dos anos houve decantação e, finalmente, a controladora passou a ser gerida por seis famílias, encabeçadas por Benedicto Laporte Vieira da Motta, Boris Grinberg, Ismael Alves dos Santos, os irmãos Isaac e Jayme Grinberg, Jacks Grinberg e Mauricio Chermann.

Plínio Boucault morreu em dezembro 1996, já afastado da sociedade.


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