MÚSICA

Um ritmo que une artistas de Mogi das Cruzes e Suécia

SOCIAL Depois de cantar críticas ao racismo e levantar bandeiras como o veganismo e o direito dos animais, Marcos Favela agora rima sobre a liberdade e o alcance da periferia. (Foto: divulgação - Danilo Duviliers)

Um rap feito por um mogiano e um sueco, à distância. Uma música internacional, mas ao mesmo tempo muito brasileira, e também com forte influência do gênero reggaeton. Disponível nas plataformas digitais, ‘Jet na Suécia’, de Marcos Favela em parceria com o beat maker Adri Beatz, é tudo isso e muito mais. A música mostra “que um artista de periferia” pode sim “entrar em território estrangeiro”. E dá pra fazer isso sem falar inglês.

É isso mesmo: Marcos Favela, rapper há 25 anos, não fala inglês, mas lançou uma parceria musical com alguém que está do outro lado do mundo. “Conversamos através de um app de tradução”, diverte-se ele, que conta que até chegou a falar por telefone com o colega, cada um no seu idioma. “Mas ninguém se entendeu e a conversa terminou em risadas”.

SOCIAL Depois de cantar críticas ao racismo e levantar bandeiras como o veganismo e o direito dos animais, Marcos Favela agora rima sobre a liberdade e o alcance da periferia. (Foto: divulgação – Danilo Duviliers)

As rimas são de Favela, mas o refrão foi feito em parceria com Cachildo, outro artista mogiano. São palavras que despertam o ouvinte para desmistificar a marginalização da periferia, da comunidade, da favela: “Nóis tamo entrando na Suécia / Não vão parar a nossa festa / Nóis aproveita cada brecha / Pra mostrar que aqui não tem comédia”.

O conjunto desse protesto em forma de rap descontraído com as batidas envolventes da canção tem provocado boas reações, segundo Favela. “As pessoas já gostam logo de cara por conta da harmonia da música. O Adri Beatz acertou em cheio na escolha do beat em estilo reggaeton, que é muito envolvente e cativante e consegue unir a vontade de dançar com a informação da letra”, diz.

‘Jet na Suécia’ não poderia ter vindo em outro momento. Isso porque os últimos dois anos foram decisivos para a carreira de Marcos Favela. Foi em 2018, quando ele já colecionava uma demo tape e outros cinco CD’s de estúdio, que lançou o álbum ‘Veganize-se’, com rimas que fazem críticas sociais e levantam bandeiras como o vegetarianismo e os direitos dos animais.

E foi em 2019 que lançou ‘Amizades, Rimas e Heresias’, trabalho que “veio para confrontar diversos pensamentos e vivências, tanto coletivas, quanto pessoais, trazendo de forma explícita o abismo social em questões de gênero e também racismo e religiosidades”.

As músicas destes discos foram ouvidas por Adri Beatz pela internet. Interessado pelo som do mogiano, o sueco mandou mensagens pelas redes sociais, sugerindo a parceria que não apenas coloca “Mogi no mapa” como promete ser longa.

“Posso dizer que vem muita coisa boa por aí”, adianta Favela. “Já fui convidado para somar em outra música, ‘Terra de Gigantes’, e desta vez estou levando mais dois nomes da cidade: o jovem artista Cachildo, que vem se destacando pela versatilidade no rap, R&B, rock e blues; e o Paulo MC, também conhecido como 2P, que me arrisco a dizer que é um dos melhores letristas de rap que temos”.

O objetivo de Marcos Favela é continuar a lançar luz sobre o movimento cultural mogiano. “Temos uma cena pulsante. O rap está na cidade desde o final dos anos 80 e se reinventa constantemente. Nasceu nas ruas em meio à discriminação social e racial e mesmo assim se faz presente, sempre aparecendo de formas novas”, finaliza ele, que conclui dizendo, por experiência própria, que “o rap salva e resgata”.

Fomentando cultura pela internet

Para o rapper Marcos Favela, um dos maiores desafios impostos pela pandemia é o exercício de continuar, pela internet, a fomentar atividades culturais. Contemplado pela segunda etapa da Mostra Virtual: A Arte Não Esqueceu de Você (‘Movi.Ar’), ele tem se dedicado, além da própria produção, à manutenção dos trabalhos de outros artistas.

Desde março, Favela já pôde ser visto em entrevistas, bate-papos, reuniões, lives, podcasts. E também tem acompanhado o que os colegas da música produzem. “Esse mundo virtual é novo, porém tento ao máximo acompanhar e me manter dentro dele, e tenho gostado bastante”.

Não à vontade para cantar via transmissão de vídeo, por sentir falta do “contato, olhares e reações do público”, pela programação da Secretaria Municipal de Cultura o mogiano tem contado a “história do hip hop em Mogi”, por meio do ‘Programa Favela Indica’.

Com informações e curiosidades, a atração é transmitida do ‘Home Estúdio Popular’, instalado na casa de Favela. “É aqui que desenvolvo todos os meus projetos e também gravo artistas independentes. É um local de fomento a cultura, um espaço livre de preconceitos, onde há diálogo com jovens e adultos, onde aprendo e ensino, onde desconstruo muitos dos meus pensamentos”, afirma.


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