Tributo à memória de uma mulher inesquecível

Tributo: “Para você, Candida, eu sempre dedicarei meu grande e imorredouro amor...” (Wilmes Teixeira)
Tributo: “Para você, Candida, eu sempre dedicarei meu grande e imorredouro amor…” (Wilmes Teixeira)

 

WILMES ROBERTO 

GONÇALVES TEIXEIRA

Candida Maria Plaza Teixeira, 75, mogiana, cresceu como as meninas e mocinhas de sua época cursando o Grupo Escolar Coronel Almeida, depois o Ginasial, o Colegial e o Normal no Instituto Washington Luiz, enquanto estudava piano pelo Instituto de Música de São Paulo. Na juventude chegou a nadar no “cocho” do Clube Náutico Mogiano e a cruzar a nado o Tietê, então um rio limpo. E, como todas as moças, aos sábados à noite participava do footing no jardim central (Praça Oswaldo Cruz), as moças e os jovens circulando em sentido contrário em volta do coreto, cuja banda alegrava o ambiente. Nas noites de gala, quando já éramos namorados, ia buscá-la em sua casa na Moreira da Glória, e ela, de vestido de baile, eu a levava a pé para dançarmos no Clube Itapeti, em cima do então Cine Urupema.

Pedagoga e psicóloga de formação universitária, sempre se destacou entre as melhores da classe, não raro na primeira colocação. Professora nata, já aos 17 anos lecionou por meses em escola elementar rural, distante alguns quilômetros de Salesópolis, para aonde se deslocava todo início de semana. Sozinha, ia e retornava semanalmente da casa rústica no sítio onde então morava, em região hospitaleira, porém, sujeita aos inerentes riscos da mata virgem que cortava pela estrada afora montada a cavalo e abrindo as porteiras por onde passava. Conhecemo-nos em 1960 e foi o início de um grande amor. Casamos em 1962 e tivemos três filhos, Ricardo (físico), Renata (psicóloga e advogada) e Roberto (médico pediatra), todos doutorados pela Universidade de São Paulo (USP).

Dotada de invulgar inteligência e cultura, conquistou com grandes méritos os títulos de Mestra e Doutora pelo Instituto de Psicologia da USP. Foi introdutora do sistema de treinamento de conselheiros voluntários para atendimento a sobreviventes de crimes sexuais, serviço inédito no País e aos moldes do que melhor se faz neste campo nos EUA, pelo qual respondeu no Centro de Investigação de Crimes Sexuais da Universidade de Mogi das Cruzes (CICS-UMC), que teve repercussão nacional nos anos 1990, tendo previamente estagiado no Centro de Apoio às Sobreviventes de Estupro do internacionalmente famoso Mount Sinai Medical Center de Nova York. Foi coautora de vários trabalhos científicos publicados em periódicos brasileiros de circulação internacional, tanto no campo de proteção de bebês espancados como no de vítimas de crimes sexuais, entre outras publicações científicas tendo participado de um trabalho pôster sobre as atividades do CICS-UMC, que foi premiado na Faculdade de Justiça Criminal John Jay da Universidade da Cidade de Nova York (que tem 12 professores, ex-professores e ex-alunos laureados com o Prêmio Nobel) como a melhor contribuição no gênero entre 600 participantes de um congresso internacional da especialidade ali realizado em 1996.

Docente de Psicologia por mais de três décadas na Universidade Braz Cubas (UBC), ali chegou até o cargo de Coordenadora do Curso de Psicologia, tendo se conduzido em ambas as funções sempre com competência e generosidade, razões pelas quais se destacou pela habilidade com que resolvia os problemas do dia a dia. Era pessoa doce e extremamente amável no trato, desconhecendo-se que alguma vez tenha sido descortês com alunos, colegas e funcionários ou com quem quer que fosse.

Ávida por adquirir conhecimentos, viajou algumas vezes no Brasil e para o exterior, principalmente para travar contatos com outras culturas e conhecer célebres museus, desde o de História Natural de Nova York até o Hermitage na Rússia, inevitavelmente passando pelo de Florença. E locais de rara beleza ou históricos, como o Grand Canyon, as cataratas de Iguaçu e Niágara, as pirâmides dos astecas no México e a esfinge de Gizé e as pirâmides do Egito, os costumes na Índia e no Japão (onde completou pesquisas de caráter científico para sua dissertação de Mestrado), inclusive, acreditando eu que fomos dos raros felizardos a terem o gosto de dar uma volta completa no mundo. Fizemos lindas viagens de trem e, por ocasião dos 25 anos de casados, fomos de Veneza a Paris pelo Expresso Oriente. Esse gosto pelas viagens, pelo conhecimento de outras culturas, ela soube transmitir aos filhos juntamente com seus aprofundados conhecimentos em cultura geral, principalmente literatura, música e cinema, aos quais juntava dotes culinários aprimorados, mas, de haute cuisine: uma vez um grand chef de São Paulo, M. Michel Nouvion, que respondia pela “La Toque Blanche”, curioso pelos conhecimentos de Candida sobre um prato típico de Marselha (La Bouilleabaisse), veio jantar em nossa casa aqui em Mogi para ver como ela o preparava. Enfim, Candida, estava sempre informada de tudo, o dito na família era o seguinte: “A mamãe (ou a vovó) sabe tudo”!

Não obstante tamanha bagagem cultural e científica, era humilde e modesta a ponto de mesmo as pessoas que a conheciam mais de perto nem sempre avaliarem o grande cabedal de cultura que nela se concentrava. Reafirmamos nosso laço matrimonial também aos 25 anos de união casando formalmente em Las Vegas, com registro oficial daquela Cidade e a correspondente cerimônia religiosa. Mulher linda e culta, esposa e companheira incomparável, mãe carinhosa e avó dedicada, Candida fez de mim um homem muito feliz. Felicidade que se prolongou ao longo dos 53 anos de nosso casamento e que ela desfrutou até na noite que antecedeu seu passamento, quando participou de uma comemoração de duas aniversariantes suas colegas e ex-professoras da UBC. Na mesma noite, retornou feliz para casa, conversamos, assistimos ao telejornal e por volta de meia-noite adormecemos. Eu era um grande “sortudo”, como, às vezes, manifestei-me a amigos mais chegados ou em ocasiões especiais. Pois é: eu era. Na manhã seguinte tentei acordá-la em vão. Teve morte natural súbita enquanto estava dormindo, uma parada irreversível do coração, fenômeno elétrico que nós médicos chamamos de fibrilação ventricular, ou infarto fulminante. Não teve jeito de reanimá-la. Era tarde demais.

Reiterando agradecimentos aos nossos parentes e amigos pela ajuda nesta dificílima etapa de minha vida, pelas incontáveis manifestações de apoio e solidariedade, na tocante cerimônia de cremação recebi uma rosa branca para depositar junto ao seu corpo. Mirei derradeiramente seu lindo rosto e, arrasado, porém, tendo que suportar tal pesada carga emocional, em suas níveas mãos depositei aquela rosa com as seguintes palavras que tirei da longínqua memória de coisas que meu sábio pai me ensinava desde menino, em francês: “J´aime deux choses, vous et la rose. La rose pour un jour et vous pour toujours.” Ou, “Eu amo duas coisas, você e a rosa. A rosa por um dia, você, para sempre.” Para você, Candida, eu sempre dedicarei meu grande e imorredouro amor…

N. do E.: Texto publicado originalmente em rede social.

O espólio de Padre Roque

Padre Roque Pinto de Barros nasceu em São Carlos e veio ter a Mogi das Cruzes no início dos anos 50. Fez carreira na Paróquia Matriz de Santana, foi cônego e monsenhor. Era um entusiasta da Festa do Divino; inventou de colocar as fanfarras da Cidade na festa pelo Dia de Santana. Padre dos velhos tempos, envolvido com as questões espirituais sem dar trela às questões materiais.

Iniciou as obras da atual Catedral depois que uma reforma mal feita na velha Igreja Matriz acabou em um desmoronamento. Com as obras da nova igreja, sem ter onde guardar o antigo altar entalhado negociou-o com o vigário da Igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo. O altar está lá, na Avenida Brasil, até hoje. Serve de cenário para concorridos casamentos do jet set paulistano. Consta que também teria firmado acordo para a instalação de uma emissora de rádio em Mogi das Cruzes. Mas não ficou com a transmissora.

Padre Roque morreu monsenhor sem deixar nada material. Legou um agregado à senhora Alice de Souza Franco, filha do Coronel Souza Franco e cunhada de Deodato Wertheimer. Dona Alice era uma religiosa leiga. Solteira, viveu a vida de quase 90 anos na casa de seus pais, na Rua José Bonifácio, nº 418. A casa está lá até hoje, uma esquina antes do Largo do Carmo.

O endereço foi passagem obrigatória de quantos sacerdotes estiveram em Santana. Devota de São José, dona Alice mantinha uma capela dedicada ao santo em sua casa. E todo 19 de março era sagrado: amigos reuniam-se na capela para a missa em louvor ao Dia de São José, seguida do lauto café. À cabeceira da mesa de 20 lugares, a cadeira de espaldar alto era reservada ao celebrante. Quase sempre Padre Roque.

Mas, como dizia, Padre Roque morreu no final dos anos 60, início dos 70. Teve uma agonia difícil, na Santa Casa de Misericórdia de Caraguatatuba. Foi lá, em seu leito de morte, que ele legou o agregado Carmelino a dona Alice de Souza Franco. Recomendou-o com todo empenho. E dona Alice cumpriu até o fim o desígnio de Padre Roque.

Carmelino, órfão de seu padrinho, tinha de trabalhar. E foi nomeado auxiliar de obras do Semae. Incumbiram-no de cortar a água dos consumidores inadimplentes. Não deu certo: Carmelino não sabia andar de bicicleta; caiu algumas vezes e trocou de posto. Foi destacado para abrir valetas para instalação de novas redes. Ao final do primeiro dia, apresentou-se ao gerente de Operações do Semae, capitão Neves, com a mão escalavrada: seus companheiros haviam posto um prego no cabo da picareta. Carmelino então virou guarda noturno do Semae. Também não deu: na primeira noite, correu chamar os bombeiros. Alguém havia telefonema denunciando que iria colocar fogo na caixa d’água. Foi então que Carmelino assumiu funções de porteiro diurno e ali ficou algum tempo.

Quando dona Alice morreu, anos depois, deixou testamento a seus descendentes legando-lhes, além do patrimônio imobiliário, o próprio Carmelino. A este deveria se reservar recursos suficientes para acomodá-lo em conforto. E assim foi feito: a família de Carmelino tinha alguma terra no Itapety, onde se cuidou de construir sua casa.

Que descansem em paz Padre Roque e Dona Alice. Carmelino não foi abandonado.

Um abraço do

Chico

REGISTRO – Em 1961, comitiva de mogianos vai ao Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo paulista, entregar ao governador Carvalho Pinto o título de Cidadão Mogiano. Sentados: Rodopho Jungers, prefeito e Carvalho Pinto. De pé: deputado Francisco Franco, vereadores Carlos Alberto Willy Auerbach, Oswaldo Ornelas e Carlos Augusto Ferreira Alves; Carlos Garcia e Maurício Chermann. (Foto: Arquivo do Estado)
REGISTRO – Em 1961, comitiva de mogianos vai ao Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo paulista, entregar ao governador Carvalho Pinto o título de Cidadão Mogiano. Sentados: Rodopho Jungers, prefeito e Carvalho Pinto. De pé: deputado Francisco Franco, vereadores Carlos Alberto Willy Auerbach, Oswaldo Ornelas e Carlos Augusto Ferreira Alves; Carlos Garcia e Maurício Chermann. (Foto: Arquivo do Estado)

O melhor de Mogi

Merece registro o informe desta semana, segundo o qual a atual diretoria da Santa Casa, após longos anos, conseguiu fechar o primeiro semestre no azul, com todas as contas pagas, incluindo os parcelamentos fiscais.

O pior de Mogi

Vocês viram a inundação no entorno do Mercado Municipal? No primeiro teste o novo piso foi reprovado. Sei não, isso está cheirando a Avenida Miguel Gemma, aquela mesma feita como escravos faziam telhas.

Ser mogiano é…

… ter assistido carnaval de rua da sacada do Hotel Capri, na Avenida Pinheiro Franco.


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