EDITORIAL

Somos gratos

Hospitais de campanha são fechados, as cidades se prepararam para ingressar na fase 4 do Plano São Paulo, a verde, que dobrará a possibilidade de ocupação de setores como o comércio, serviços e academias, de 30% para 60%, e há uma grande esperança de se conseguir a vacina para os grupos de risco para a Covid-19 nos próximos meses.

Ainda estamos longe da normalidade, uma condição que poderá levar anos para se concretizar. Citamos a educação e a própria saúde, para ficar em exemplos mais preocupantes porque dizem respeito ao futuro das novas gerações e a outras taxas de mortalidade.

Ainda não se sabe, com precisão, quando o ensino atingirá os picos anteriores de conclusão do ensino médio e superior, e nem quando a sempre crítica agenda do tratamento eletivo (doenças não urgentes) ou de vacinação de outros males será atualizada.

Aos poucos, no entanto, vamos virando algumas páginas da pandemia. Uma delas foi o fechamento do primeiro Hospital de Campanha construído porque, em março, os riscos de um colapso na rede hospitalar foram reais. Famílias brasileiras perderam pais, mães, avós, por não chegarem, a tempo, a um respirador.

Ali dentro, em um serviço improvisado e criticado, há um elemento que este jornal considera sagrado: as 200 pessoas que se expuseram ao coronavírus em cada turno de trabalho, durante quatro meses. A eles, somos gratos.

É importante agradecer, e também ouvir quem viveu, do lado de dentro, a pandemia da Covid-19 e enfrentou a “infodemia”, o fenômeno criado pela grande quantidade de informações verdadeiras e falsas sobre a doença.

Na linha de frente do atendimento ao público estavam médicos, enfermeiros, motoristas de ambulâncias, vigilantes, faxineiros, atendentes e etc. Pessoas que exerceram, de alguma forma, o que Hipócrates, no século IV a.C. e outros precursores da medicina estabeleceram: a divisão entre a ciência e a lógica, da religião, superstições e profecias.

A este jornal, a enfermeira Érica Cássia Laurinda, de 43 anos, falou sobre essa experiência e defendeu a proteção à vida. Válida, especialmente porque a incompreensão e interesses pessoais e políticos continuarão fazendo vítimas até a chegada de uma vacina segura.

“Trabalhar em um hospital de campanha é uma montanha-russa de sentimentos, que mistura desde angústia e estresse à alegria e gratidão. Nenhum profissional da saúde estava preparado para viver uma pandemia, com o mundo praticamente desabando, porém, saímos dessa mais fortes”, disse ela.

Também acreditamos nesse espírito, o da fortaleza. E encerramos, com um pedido feito pela enfermeira. A pandemia, agora, disse Érica, não deixou de ser perigosa, mas “pode ser controlada com a colaboração de todos”.


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