SOCIAL

Saúde dos idosos é desafio para autoridades

Idosos recebem tratamento especial quando conseguem vagas em asilos bem estruturados. (Foto: Arquivo)
Idosos recebem tratamento especial quando conseguem vagas em asilos bem estruturados. (Foto: Arquivo)

Um desafio para as famílias e poder público neste momento de pandemia é conseguir estabelecer um isolamento seguro, que possa manter a saúde física e mental dos idosos, diante do prolongamento da quarentena. O confinamento pode gerar problemas emocionais, a falta de interação social causa ansiedade e agravam-se casos de depressão. O medo faz com que muitos abandonem os tratamentos médicos, o que pode interferir na expectativa de vida, entre outros fatores que desencadeiam diversos problemas. Os mais impactados são os vulneráveis, que precisam de assistência e qualidade de vida, como aponta a vice- presidente do Conselho Municipal do Idoso, Juraci Fernandes, que cobra mais atenção da Prefeitura para a necessidade de ampliar a rede de acolhimento no município.

Mogi das Cruzes possui hoje uma população estimada em 60 mil idosos, segundo dados o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A vice-presidente do Conselho observa que dados levantados em 2017 mostram que 10% deles moram sozinhos. As quatro entidades filantrópicas instaladas na cidade atendem a 98 pessoas da terceira e quarta idades. Outros 105 são atendidos em oito casas de repouso particulares do município. O número não é suficiente. As instituições de acolhimento, segundo ela, estão lotadas e atendem no limite da capacidade, enquanto crescem os números de pessoas da terceira idade em situação de rua, motivo de maior preocupação nesse momento de pandemia.

“O município aumentou as vagas para acolhimento dos moradores de rua, e entre eles temos muitos idosos, mas não conseguiu ainda ampliar o número de vagas para institucionalização desses idosos e de outros que estão sozinhos, vivendo em nossa cidade, sem um mínimo de dignidade e totalmente vulneráveis a contrair a Covid-19”, critica. Ela observa, no entanto, que a Prefeitura está cumprindo com a lei 7.568/2020, designando através da Secretaria de Assistência Social, parte da verba do Fundo Municipal do Idoso, que hoje está com R$800 mil, para as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIS) filantrópicas, de acordo com as necessidades.

Ao ser questionada sobre o que Mogi precisa para atender melhor os idosos, Juraci insiste: “Se você buscar nos arquivos do jornal O Diário de 15 anos atrás, vamos encontrar a mesma resposta: precisamos de mais casas de repouso públicas”. Ela lembra também que o prefeito (Marcus Melo-PSDB) fez a doação, em 2018 de um terreno em Braz Cubas, lançou o projeto da ” Casa do Idoso”, com 32 vagas, “na presença de autoridades e com todas as pompas que o projeto merecia, mas, infelizmente, pelo andar da carruagem, ele o esqueceu na gaveta”, lamenta a vice.

Segundo ela, Mogi precisa da Residência Geriátrica para atendimento aos idosos acamados e atendimento psicológico, especialmente nesse momento de pandemia. “Necessitamos de um programa de apoio às famílias de baixa renda, que cuidam de seu familiar idoso. Precisamos avançar nos serviços de saúde mental com a implantação de um Centro Dia para Idosos com transtornos mentais, que vivem em total isolamento social e trazem muito transtorno na vida familiar, por não estarem preparados para os cuidados necessários”, reforça Juraci. Ela cobra ainda uma casa de retaguarda temporária para idosos que sofrem violência familiar; e centros de convivência nos bairros mais distantes

Lado B

Para uma grande parte da população idosa, a quarentena tem um fator positivo, na avaliação da vice-presidente do Conselho. Juraci observa essa mudança repentina promoveu um avanço de no mínimo três anos na vida dos idosos que foram estimulados a sair da zona de conforto, enfrentar as inseguranças para entrar no mundo digital. “Foi um ganho real, que ajudou muito a diminuir o isolamento, além dos benefícios cognitivos e emocionais associados a esse novo aprendizado. As pessoas mais velhas, que relutavam em usar o celular , notebook ou tablet, hoje estão super conectadas com a internet, fazendo uso dela para bater papo, fazer compras, pagar contas, fazer cursos à distância, participar reuniões online etc”, pontua.

Geriatra alerta para a necessidade de monitorar as mudanças de comportamento dos idosos

Isolados por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus, as famílias dos idosos precisam estar atentas e monitorar qualquer tipo de mudança de comportamento, garantir que essas pessoas tenham uma boa alimentação, sigam os tratamentos de saúde e se sintam valorizados. Essas atitudes podem evitar sentimento de solidão, depressão e até mesmo ideias suicidas nesse período de mudança drástica na rotina dessa população considerada grupo de risco para a Covid-19.

As orientações são da geriatra Fabiana Santos Fonseca, ao destacar os impactos ruins da pandemia que afetou a vida de toda população. “É preciso estar atento quanto ao isolamento necessário para proteger os idosos, verificar se o idoso está reduzindo a ingestão de alimento ou líquidos, choro fácil, tristeza e sensação de angústia. É importante que a família mantenha um bom contato, para não deixar que ele se sinta abandonado e esquecido pelos demais”, alega. Explica que a ideação suicida já era muito falada e discutida na Geriatria, mas se torna cada vez mais prevalente nessa faixa etária. “Infelizmente mesmo com o contato telefônico ou até mesmo por videochamada, o problema torna-se inevitável”, declara.

A médica notou que muitos pacientes abandonaram os seus tratamentos, muitas das vezes porque não entendem a necessidade ou até mesmo porque não conseguirem lidar com as orientações médicas sobre os remédios. “A responsabilidade das famílias é muito importante neste momento, já que podem auxiliar na tomada das medicações e até mesmo a melhor forma realizar. É necessário que fiquemos atentos às medicações e tratamentos que já haviam sido iniciados antes da pandemia, para que ocorram de forma organizada e adequada.

Além de problemas de depressão pelo isolamento, existe ainda a questão do medo de sair de casa e pegar o vírus. Porém, Fabiana esclarece que é necessário haver um policiamento quanto aos exageros, até mesmo fobias, com a assepsia necessária contra o vírus. Ela observa, por exemplo, que a lavagem das mãos é o item principal, não há necessidade de lavar as mãos e a passagem de álcool em gel em seguida.

Para evitar a depressão nesse período, a médica diz que muitos centros de convivência, estão realizando chamadas telefônicas ou vídeo, para que sejam realizadas terapias em grupo e até mesmo atividades físicas entre as pessoas da terceira idade. Ela conta que acompanha alguns desses grupos, que recebem dicas quinzenais de filmes e livros para que sejam realizadas posteriormente discussões sobre diversos assuntos. Conta que indicou o filme “Um senhor estagiário”, e percebeu o quanto de informações privilegiadas podemos obter através dessa população de idosos fantástica.

Nesse período, ela a realização de atividades físicas em domicílio com auxílio por vídeos, lembrando que a dieta e as atividades religiosas que também fazem parte de atividades preventivas a saúde, podem ser realizadas mesmo sob o isolamento social.

Na avaliação dela, o maior desafio nessa pandemia é garantir que os idosos se sintam confiantes novamente para sair de suas casas, serem atendidos sem medo dos que o cercam e até mesmo deles e que possam ter certeza de que é possível a retomada de sua vida independente.

Veni busca a superação com otimismo

Encontros com os irmãos ajudam a enfrentar a solidão. (Foto: Divulgação)

A quarentena promoveu uma mudança brusca na rotina da aposentada Veni Andrade, de 68 anos, considerada do grupo de risco para a Covid-19, por causa da idade. Membro de uma grande família, envolvida com os eventos religiosos e comunitários do seu bairro, ela tenta manter o otimismo para superar esse momento. A casa dela, ponto de encontro de filhos, sobrinhos, netos, bisnetos, em Braz Cubas, está vazia. O encontro de todos nos almoços de domingos não acontece mais, nem as reuniões ou comemorações de aniversários. Ela disse que muitas as vezes se sente só, mas se apega a religião e não se deixa abater.

Atualmente, os momentos de alegria e descontração se resumem nas reuniões diárias entre os sete irmãos, quase todos acima de 60, que se juntam para cuidar de um deles – José Gabriel -, acamado por causa de uma doença degenerativa. O encontro entre Dora, Valda, Odilon, Mariana e Dario, acontece todas as manhãs, às 8 horas. Depois disso, cada um para o seu canto.

Os contatos com os três filhos, seis netos e dois bisnetos acontecem de forma virtual, com raros encontros rápidos presenciais. Para passar o tempo, ela disse que faz palavras-cruzadas, assiste as missas virtuais e navega pelas redes sociais. “As vezes sinto um pouco de solidão.Tenho saudades do movimento das pessoas, do entra e sai de gente, do barulho das crianças e da alegria que sempre teve nessa casa”, comenta.

Ela disse que também sente falta de eventos religiosos do distrito, nos quais ela sempre atua como voluntária. Mas, revela que a primeira coisa que ela quer fazer quando acabar a pandemia é ir até Aparecida, um lugar que faz questão de visitar várias vezes por ano.


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