Revelações de Padre Melo

Dois momentos de Padre Melo: ladeado, em 1963, pelos casais Maurício e Helena Chermann e Isaac e Didita Grinberg, pioneiros do ensino superior em Mogi. E, abraçado à esposa Maria Coeli e a filha Regina, com o cunhado, a mãe, o pai e uma irmã / Fotos: Arquivo Pessoal
Dois momentos de Padre Melo: ladeado, em 1963, pelos casais Maurício e Helena Chermann e Isaac e Didita Grinberg, pioneiros do ensino superior em Mogi. E, abraçado à esposa Maria Coeli e a filha Regina, com o cunhado, a mãe, o pai e uma irmã / Fotos: Arquivo Pessoal
Revelações de Padre Melo

Uma das figuras mais intrigantes que já passou por esta Cidade, personagem de destaque na história local por toda a segunda metade do século passado, infelizmente Manoel Bezerra de Melo, o Padre Melo, não tem o registro que merece na historiografia local. O pouco que existe deve-se à produção da Universidade de Mogi das Cruzes, que ele próprio fundou, mas à qual falta a isenção da análise. Hoje, aos 89 anos, em exílio voluntário em Fortaleza, tem mantido poucos contatos com gente da terra, exceção feita à filha e netos que aqui vivem. Pois há alguns anos concordou em dar seu depoimento a um projeto da Fundação Getúlio Vargas que idealizava reconstruir a trajetória das universidades brasileiras. Falou por duas horas às pesquisadoras Luciana Heymann e Verena Alberti.

A seguir, extratos desse depoimento.

A CHEGADA A MOGI – Tinha 36 anos o sacerdote cearense que há pouco havia deixado a Ordem dos Jesuítas, quando chegou a Mogi. Já havia atuado no Recife, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Veio para cá por indicação do arcebispo dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, que viu nele a solução para a falta de padres na Matriz de Santana. Era 10 de março de 1962 quando ele chegou à Cidade. Diz Padre Melo: “Eu vinha como padre, mas não tinha experiência de paróquia. Me apresentei ao vigário e logo de cara perguntei quanto ele ia me pagar, porque eu estava saindo da ordem e sem um tostão no bolso! ‘Você nem começou a trabalhar e já está querendo saber quanto é que vai ganhar?’ Eu disse: ‘Monsenhor, é porque estou realmente sem reserva nenhuma, e como eu sou fumante, preciso comprar pelo menos cigarros. O senhor me dá alguma coisa de entrada.’ ‘Não senhor! Só vou lhe dar a sua mesada no fim do mês, só no dia 31.’ Eu aí me virei para conseguir cigarro, evidentemente; a gente tem que se virar muitas vezes na vida, até para alimentar um vício! Isso foi interessante.”

O COMEÇO DA EMPREITADA – Em paralelo às atividades religiosas, Padre Melo dava aulas no Instituto de Educação Dr. Washington Luiz. Dois meses após sua chegada, fundou a Organização Mogiana de Educação e Cultura: “Tenho aqui o livro com a ata da criação da organização, datada de 28 de maio de 1962. Havia um prédio na Rua Senador Dantas, aqui em Mogi, onde hoje funciona um colégio também, mas de outra entidade, e esse prédio era a escola do Senai, Serviço Nacional de Aprendizado Industrial, que estava terminando de construir um prédio novo, mais acima, perto do Instituto de Educação. Muito bem. Conversei a respeito com o cônego, que me disse: ‘Olha, o prédio é da Fundação Ana de Moura.’ Essa fundação é a mantenedora das irmãs que têm um colégio aqui em Mogi das Cruzes. Encaminhei à diretoria da Fundação Ana de Moura solicitação para ocupar o prédio com uma escola. O vigário, que era o presidente da Fundação, estava de acordo, mas eu precisava consultar a diretoria, que também concordou. No dia 3 de setembro de 1962 fundei um curso de admissão ao ginásio. Comecei a dar aulas com 73 alunos. Eu mesmo era professor de história, geografia, português e matemática, e diretor, secretário, funcionário e limpador de privada. Eu era tudo lá dentro. Como eu estava começando, não podia colocar ninguém. E ao mesmo tempo trabalhando na igreja e dando aula no Instituto de Educação, o que não foi empecilho. No final do ano fizemos o exame de admissão, foi uma concorrência enorme. Vieram muitos alunos, muitos clientes de Mogi. Porque Mogi só tinha dois estabelecimentos de ensino de ginásio e colégio: o Instituto de Educação e a Sociedade Civil Braz Cubas. Eu chegava como terceiro. Era um padre novo, tinha 36 anos. Em 1963 começamos então com o ginásio, que foi a base de tudo.

INGRESSO NA POLÍTICA – Em 1966 Padre Melo teve sua iniciação política: “Me candidatei a deputado federal porque achava, como realmente aconteceu, que minha presença junto às autoridades ia dar mais velocidade às autorizações e aos reconhecimentos dos institutos e faculdades que eu precisava criar aqui em Mogi das Cruzes. Eu ainda era padre e me candidatei com o nome de Padre Melo. Para entrar na política eu precisava de licença do bispo diocesano que, nessa ocasião, estava em Roma, participando do Concílio Vaticano II. Escrevi então uma carta bem longa para o bispo, expondo toda a minha solicitação: que eu precisava me candidatar mas tinha impedimento pelo direito canônico etc e tal. Ele respondeu me dispensando daquele regulamento do direito canônico e dando autorização para me candidatar. O registro da minha candidatura foi engraçado. Em 1966, o presidente da Arena, Aliança Renovadora Nacional (no bipartidarismo do regime militar, Arena era o partido da situação e MDB da oposição), era o deputado Arnaldo Cerdeira, que era muito votado aqui. Eu era um desconhecido, tinha chegado há dois, três anos, como ia fazer para ganhar uma eleição? Não desisti, como não costumo desistir de nada do que planejo. O que planejo tem de acontecer, como até hoje aconteceu, graças a Deus. O presidente Castelo Branco na época veio a Mogi das Cruzes inaugurar uma indústria de metal que existe até hoje (Aços Anhanguera, 10/06/1966). Nós já tínhamos o ginásio e a Faculdade de Filosofia funcionando, então nos inserimos na programação do presidente da República e fizemos uma homenagem. Pensei: ‘O único jeito que tenho de falar com esse homem é me intrometer no meio do programa.’ Tínhamos uma fanfarra muito boa no ginásio e oferecemos a ele vários números de fanfarra, tocados na praça da Catedral pelos alunos, meninos todos fardados, bonitinhos e tal. Na ocasião fiz um discurso apresentando os colégios e a Faculdade de Filosofia, e já vinha no bolso com um ofício para o presidente da República, pedindo a ele que me ajudasse a obter o registro da minha candidatura a deputado federal e relatando que dificuldades estava encontrando. O presidente me recebeu na frente da Catedral e eu entreguei em mãos o ofício, que ele pediu ao ajudante de ordens que guardasse, mas o lembrasse do assunto em Brasília. Uma semana depois recebi um telegrama do presidente dizendo que os problemas já estavam sanados e que eu podia procurar o presidente nacional da Arena para me registrar”.

NA LISTA DOS CASSADOS – “Sempre fui meio rebelde dentro da Arena, apesar de a minha rebeldia ter sido muito cautelosa por causa do que eu estava pedindo nos ministérios. Mas eu fiz alguns discursos na Câmara que estarreceram. E quase fui cassado naquele episódio da cassação do Márcio Moreira Alves, em 1968 (deputado carioca pelo MDB, fez um discurso no Congresso conclamando o povo a boicotar as comemorações do 7 de Setembro, em 1968). O ministro da Justiça naquele tempo era o Luís Antônio da Gama e Silva, muito meu amigo. Em 1967, quando tomei posse na Câmara, ele veio a Mogi, foi lá em casa. Ele tinha sido reitor da Universidade de São Paulo e eu tinha muito entrosamento com ele já antes de ser ministro. Então houve aquele episódio do Márcio Moreira Alves. Eu me revoltei, achei que o Márcio tinha razão, eu era muito amigo dele, e votei contra o governo. O meu líder na Câmara era o Geraldo Freire da Silva, mineiro a quem entreguei um memorando dizendo que ia votar a favor do Márcio Moreira Alves por uma questão de consciência, e que aquilo era apenas um aviso para ele não se estarrecer depois. Porque, sendo da Arena, eu não podia votar contra o governo, tinha que votar com o governo, era como vaca em presépio. Quando aconteceu a votação, o ministro Gama e Silva me chamou. A votação foi numa quinta-feira, ele chegou na sexta, telefonou para minha casa, aqui em Mogi, e me pediu para ir à residência dele em São Paulo. Pensei: ‘Vem bomba por aí, e é por causa do voto.’ Fui à residência dele logo de manhã. Ele já trazia a relação do pessoal que ia ser cassado, e eu constava da relação. Disse ao ministro: ‘Bom, não vou lhe pedir para o governo não me cassar. O senhor tem todo o direito: estou no partido e tenho de ser fiel a ele. Mas eu achei por isso, por isso, por isso’. Levei a cópia do bilhete que eu tinha entregue para o Geraldo e disse: ‘Antes de votar, eu escrevi isso aqui para o meu líder.’ Ele disse: ‘É por isso que o chamei aqui: porque tenho o bilhete que você mandou para ele. Está aqui.’ Tirou da pasta e me deu, dizendo que combinavam exatamente a minha assinatura e a minha letra, eu tinha escrito à mão. E ele me disse: ‘Eu o chamei porque nós discutimos o problema lá em Brasília, numa reunião com o presidente, e achamos que você não precisava ser cassado. Você continua deputado.’ ‘Muito obrigado e tudo mais!’ Fiquei, almoçamos juntos e tal. São essas coisas que acontecem.”

O CASAMENTO – Eu me ordenei padre com 33 anos e 3 anos depois passei para padre secular, vindo parar em Mogi das Cruzes. Acho que a vida da gente tem um destino, ou nós temos uma missão a cumprir. Sempre me senti muito bem depois que deixei a ordem e depois que deixei também, não digo a Igreja, mas deixei de ser padre no sentido estrito da palavra e me casei, com autorização do papa Paulo VI. O bispo escreveu uma carta e ele me deu autorização para casar. Casei no Rio de Janeiro, na igreja de São José da Lagoa, com a presença apenas da minha família e da família da noiva. O cardeal dom Eugênio Sales, e que eu já conhecia, me chamou na ocasião e me pediu que não chamasse a mídia, não fizesse nenhuma divulgação. Eu já era deputado federal. Naquele tempo, padre casar era um escândalo, aquela coisa toda, então ele queria que ficasse escondidinho. E na ocasião, de acordo com as normas que vinham de Roma, o padre que fosse vigário numa cidade e se casasse tinha que sair da cidade. Por normas da Igreja, eu teria de sair de Mogi das Cruzes, deixando toda a obra que estava começando. Pedi então uma audiência ao cardeal de São Paulo, dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, expus a ele o que estava se passando, e ele disse: ‘Não, meu filho, fique tranquilo, você vai continuar em Mogi das Cruzes.’ Até hoje o pessoal me chama de Padre Melo, continuo como Padre Melo para todos os efeitos. Fui candidato como Padre Melo, já fui prefeito dessa Cidade como Padre Melo, tudo aconteceu com o Padre Melo.”


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