PREOCUPAÇÃO

Poluído, rio Tietê ainda aguarda limpeza

No ponto de captação da Pedra de Afiar, no Cocuera, a situação do rio já não é considerada boa. (Foto: Eisner Soares)

O contrato de financiamento com o Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro) para início do processo de licitação que definirá a empresa responsável pelo desassoreamento de trecho do rio Tietê – entre a foz do Córrego Sabino e a travessia da ponte da avenida João XXIII – deve ser assinado até o final deste ano.

O Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) aguarda esta formalização para dar andamento ao projeto que prevê a remoção de 52,5 mil metros cúbicos de sedimentos depositados no fundo do canal e 24,7 mil metros cúbicos de macrófitas (plantas aquáticas) em apenas 4.950 metros do manancial, no sentido da jusante para montante – começando na altura da avenida João XXIII em César de Souza, e seguindo em direção ao bairro do Cocuera.

No ponto de captação da Pedra de Afiar, no Cocuera, a situação do rio já não é considerada boa. (Foto: Eisner Soares)

Portanto, a maior parte do trecho urbano do manancial, que vai de César até o distrito de Jundiapeba, não será contemplado pelo trabalho de desassoreamento, embora apresente vários pontos com bancos de areia, vegetação cobrindo grande parte do rio, despejo irregular de lixo, descarte de esgoto e outros resíduos que pioram ainda mais a poluição do manancial.

O investimento é de R$ 11,8 milhões – sendo R$ 10,5 milhões do Fehidro e R$ 1,3 milhão do Tesouro do Estado – e os trabalhos têm previsão de término nove meses após a assinatura da ordem de serviço.

Mas enquanto aguarda pelos trâmites burocráticos, o Tietê que nasce em Salesópolis e chega em boas condições a Biritiba Mirim, já fica na classe 4 (segundo resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama), com baixa concentração de oxigênio, no trecho da Estação de Captação e Recalque (ECR) Pedra de Afiar, do Serviço Municipal de Águas e Esgotos (Semae), no Cocuera, situação que piora nas proximidades da ponte da avenida João XXIII, em César de Souza.

O cenário de precariedade se mantém em todo o percurso mogiano, atingindo condições de anaerobiose, com borbulhamento no corpo d’água e liberação dos gases metano e sulfrídico na altura da ponte da avenida Valentina Mello Freire Borenstein, perto do parque Leon Feffer, em Braz Cubas. Além deste, outros pontos críticos também não contemplados com a limpeza estão localizados nas proximidades das pontes da avenida Prefeito Carlos Ferreira Lopes e da rua Cabo Diogo Oliver, ambas no Mogilar.

Segundo o engenheiro civil e sanitarista José Roberto Kachel dos Santos, o desassoreamento é necessário e precisa ser realizado com maior frequência, contemplando não apenas um trecho do manancial, mas todo o seu percurso. Porém, ele alerta que o trabalho não é suficiente para garantir melhora na qualidade da água.

SITUAÇÃO José Roberto Kachel aponta pontos críticos do Tietê. (Foto: arquivo)

“O desassoreamento tem seu mérito e deve ser feito mais vezes porque senão, quando chega o verão, muitas áreas são alagadas no período de chuvas, principalmente por causa da ocupação irregular na área de várzea, como é o caso do Mogilar, onde jamais poderia ter sido autorizado loteamento. Mas o Tietê é um rio lodoso e mole, então, quando chove, ele muda, por isso é como enxugar gelo. Isso não resolve o problema. E há ainda a poluição causada pelo esgoto, que se não for retirado do rio, não adianta. Os fertilizantes também vêm do esgoto, fornecendo nutrientes para os aguapés, que vão crescendo e tomando conta do rio”, explica Kachel.

Na avaliação do engenheiro, o trecho do rio que passa por Mogi está completamente poluído e morto. “O Tietê chega à cidade já na classe 4, quando deveria estar na classe 2 e, atravessando a cidade, até Suzano, passar para a classe 3. Mas, apenas no trecho de cinco quilômetros, entre a captação do Semae, na Pedra de Afiar, no Cocuera, até a ponte da avenida João XIII, em César de Souza, a situação já cai para 4 e assim segue por toda a cidade, até o interior do Estado”, analisa.

o entanto, ele destaca que o rio é muito bem aproveitado e considerado o segundo principal manancial da Grande São Paulo para o abastecimento da população, com cinco barragens que compõem o Sistema Produtor Alto Tietê (Spat) – Ponte Nova, Paraitinga, Biritiba Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba -, e 15 metros cúbicos por segundo (m3/s), ficando atrás apenas do Cantareira, que tem 33 m3/s.

“Mas o Tietê perdeu a capacidade de autodepuração porque toda a água limpa (16 m3/s) é captada para abastecimento público acima de Mogi, restando apenas 1,0 m3/s, quando seriam necessários 200 m3/s a 350 m3/s. Portanto, falta água limpa para autodepuração, o que detona o Tietê na sua passagem pela cidade. Por isso, mesmo que se trate 100% do esgoto da Região Metropolitana de São Paulo, o Tietê continuará classe 4”, completa Kachel.

Projeto evita despejo de 8 toneladas de óleo

O projeto Renove, da Organização Não Governamental (ONG) Bio-Bras, colabora com a recuperação do Tietê evitando que uma média de 8 toneladas de óleo de cozinha seja despejada irregularmente no rio todos os meses. A iniciativa que existe desde 2008 conta com 450 ecopostos de coleta do produto instalados em condomínios, comércios, escolas e locais públicos da região do Alto Tietê – 120 deles em Mogi das Cruzes.

Segundo a bióloga Nadja Soares de Moraes, diretora-presidente da Bio-Bras, a ação ajuda a evitar maior poluição no Tietê, mas cada residência da cidade é responsável pelo descarte de meio litro de óleo de cozinha mensalmente, o que equivale a 45 toneladas. “Como coletamos 8 mil litros, ainda há um grande volume sendo despejado no rio, porém, quando começamos o projeto, em 2008, trabalhando a conscientização ambiental para que a população pudesse colaborar com esta despoluição, ações como estas foram se expandindo e outros grupos e pequenas empresas também passaram a fazer a coleta do óleo, que se tornou uma oportunidade de negócio e geração de renda”, explica.

ALERTA Nadja destaca que há 450 pontos de coleta na região. (Foto: arquivo)

O projeto, que é uma alternativa para reciclagem do óleo de cozinha, leva informação às pessoas, busca sensibilizar moradores e também comerciantes sobre a poluição dos rios, trazendo solução eficaz para o resíduo, que não deve ser descartado na pia e ralos. “O correto é armazenar este óleo usado nas residências em garrafas ou vasilhas com tampa e levá-lo ao ecoposto para que seja destinado a empresas e transformado em subproduto para a produção de biodiesel. Os estabelecimentos comerciais, como bares e restaurantes, têm recipientes específicos para este material, dentro das normas da Vigilância Sanitária”, conta Nadja, alertando sobre os riscos da antiga prática de confecção de sabão com o material. “Isso é errado porque o sabão derrete e contamina as águas dos rios”, frisa.

Os danos do óleo para os mananciais são inúmeros, já que, de acordo com levantamento da Bio- -Bras sobre os impactos do descarte irregular do produto para os recursos hídricos, um litro do produto é capaz de contaminar 20 mil litros de água. “Além disso, ele forma uma película impedindo a entrada de raios solares, impregna nas raízes das plantas e atinge as brânquias dos peixes, os matando por asfixia”, completa Nadja.

Os interessados em participar do projeto Renove devem procurar os ecopostos distribuídos pela cidade ou entrar em contato com a Bio-Bras pelo telefone 4799-8199.


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