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INTOLERÂNCIA E CRIME

Lola sofreu preconceito e violência antes de morrer no próprio apartamento

"Se acontecer alguma coisa comigo, você corre atrás", disse Lola Santos à presidente do Fórum Mogiano LGBT, que denuncia outros homicídios contra mulheres transexuais

Heitor HerrusoPublicado em 30/08/2021 às 19:02Atualizado há 23 dias
Encontrada morta no último sábado, Lola Santos vivia com o irmão em um apartamento na Vila Cléo / Reprodução - Facebook
Encontrada morta no último sábado, Lola Santos vivia com o irmão em um apartamento na Vila Cléo / Reprodução - Facebook

“Você é minha única família. Se acontecer alguma coisa comigo, você corre atrás”. Essas foram as últimas palavras de Lola Santos- mulher transexual que foi encontrada morta no próprio apartamento no último sábado, na vila Cléo, em Mogi das Cruzes- para Regina Maria Tavares, fundadora e presidente do Fórum Mogiano LGBT.

A reportagem de O Diário não conseguiu novas informações sobre as investigações do caso com o Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP). Também acionada, a Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) não enviou uma nova nota. No entanto, Regina forneceu informações sobre Lola, sua amiga “desde a década de 90”.

Encontrada já em estado de decomposição, Lola, de 51 anos, morava em um apartamento com um dos irmãos, Jeferson, que trabalha em Campinas e por isso fica dias fora de casa. Ela tinha uma série de problemas familiares e também financeiros, a maioria motivados pelo o que Regina chama de “transfobia institucionalizada”.

A intolerância representa um perigo às pessoas LGBTQIA+.  Como Regina afirma, “a vulnerabilidade das mulheres trans” é alta e o preconceito levou à morte de Danielly Barbie, em 2016, e também ao desaparecimento de Nataly Lily, em 2020, ambos casos de Mogi.

“Ela não tinha renda. Trabalhou como cabeleireira em um salão de beleza e como auxiliar de cozinha, mas isso no período em que não tinha feito totalmente a transição de gênero”, conta. Há alguns anos, Lola passou a fazer programas para sobreviver. Em um deles, se machucou. “Ela me ligou, dizendo que foi fazer um programa e caiu de um muro e quebrou o pé”. O episódio nunca foi totalmente esclarecido.

Segundo o relato de Regina, a vítima estava inscrita no programa Bolsa Família, mas este recurso só permitia o pagamento de água e luz, não sobrando nada para o condomínio. “Quando não tinha dinheiro, ela fazia troca”.

Como distribuía currículos e não conseguia uma oportunidade formal de trabalho, uma rede de apoio a ajudava. Um dos nomes desta rede é o Fórum Mogiano LGBT, que conseguiu uma doação fixa de cesta básica para ela, e outro é justamente Regina Maria Tavares, que deu suporte à amiga quando na ocasião do pé quebrado. 

“Depois que ela voltou andar, vinha em casa, uma ou duas vezes por semana. Como estava com pouco dinheiro, eu sempre fornecia mistura e pão. Ela gostava de pão amanhecido. Eu comprava leite, produto de limpeza e tudo que fosse necessário, como remédio”, lembra Regina.

A amiga mostra que a vítima de assassinato se afiliou ao Fórum Mogiano LGBT em busca de orientações sobre a hormonioterapia. Lola começou a fazer o tratamento, mas teve que parar, devido a um problema de tireoide. Uma consulta estava marcada para os próximos dias, em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) da cidade. Agora Regina, que chegou a receber Lola em um Natal, quando a amiga “não tinha com quem passar” esta data, precisará cancelar o agendamento.

Além dos clientes que muitas vezes não pagavam os programas, Lola Santos se relacionava com outros homens. Alguns de seus namorados chegaram a morar em seu apartamento. “Ela morou com um cara que conheceu na rua e era alcoólatra; uma vez ficou com um rapaz que usava cadeira de rodas, mas o negócio dele era ficar na rua; namorou um usuário de drogas;  há pouco tempo conheceu um garoto, de 18, 19 anos, mas viu que era só amizade e decidiu manter só amizade”, lista Regina.

Lola estava, em seus últimos momentos, preocupada com este último jovem, que precisou deixar Mogi devido ao trabalho e parou de respondê-la. Poucos dias antes de ser assassinada, pedia para Regina tentar encontrá-lo, por telefone.

Embora “não se saiba o motivo”, Lola Santos já sofreu, no passado, outra agressão. Foi atropelada e ficou muito tempo de cama. Mas agora, como conta Regina, ela não parecia receosa.

“Ela veio no domingo (22), pegar umas coisas. Tomou café, tinha bebido um pouco. Pediu R$ 5 para meu irmão, pegou um cigarro com ele. E falou: ‘você é minha única família. Se acontecer alguma coisa comigo, você corre atrás”.

Depois disso, as amigas se falaram pouco, apenas por mensagem, sobre o tal rapaz que não mais atendeu o celular. “No dia 24 de agosto, terça, mandei mensagem e ela não respondeu mais. Desconfio que ela faleceu de segunda para terça, pois sábado encontraram o corpo, em decomposição”. 

O corpo de Lola Santos, enterrado às 17 horas deste domingo, no Cemitério da Saudade, não teve direito a velório, por já estar em decomposição. Aos 51 anos, ela, uma mulher transexual, morreu sem poder o nome social em seu documento. Regina conta que ela tentou fazer isso via Defensoria Pública, mas não teve sucesso. “Ela arrumou toda documentação, e na última instância o juiz indeferiu. Foi justo na época que os cartórios passaram a poder alterar nomes. Ela desistiu, não tinha dinheiro para pagar o cartório, e acabou não recorrendo da decisão”.

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