João Anatalino

Em um debate entre candidatos à presidência da República, realizado em 1989, um jornalista perguntou ao candidato Lula se ele era leninista, trotskista, maoísta, castrista ou qualquer outra linha ideológica de esquerda então em voga. Lula respondeu que ele era torneiro mecânico.

E era verdade. Pelo menos naquele momento ele era apenas e tão somente um líder sindical disputando um cargo político. Era um operário autêntico, embora já tivesse boa experiência política. Perderia depois mais duas eleições para Fernando Henrique Cardoso e só ganharia mais tarde, depois de trocar o macacão de operário pelo terno e gravata do deputado. E também a pinguinha no barzinho da esquina pelo uísque 12 anos nos gabinetes atapetados de Brasília.

Lula e as principais lideranças petistas pegaram a doença denunciada por George Orwel no seu famoso conto “Animal Farm”, cá entre nós intitulado “A Revolução dos Bichos”. Nesse conto, os porcos de uma fazenda lideram e vencem uma revolução contra os seus donos e implantam um regime comunista, no qual acabam escravizando os demais animais. Por fim, mudam até de postura, deixando de andar nas quatro patas, para caminharem nas duas pernas, como fazem os homens.

Lula perdeu sua identidade com o povo quando deixou de ser um trabalhador para se tornar um político como a grande maioria que foi picada pela mosca azul. Ao invés de fazer modelagem em Fidel Castro, ou algo mais palatável para o gosto brasileiro, como Lech Wallesa ou José Mujica, preferiu se tornar uma espécie de Getúlio Vargas misturado com Juscelino. De um lado procurou adoçar a boca do povo com programas sociais e de outro estimulou a sanha dos empreiteiros com grandes obras públicas. Deu no que deu. Lula interpretou mal a filosofia do pragmatismo e acabou enredado nas velhas práticas políticas de seus antecessores. Acabou mal.

Pragmatismo, em política, não é sinônimo de conformidade. Ser pragmático é saber escolher, com ética e dentro das leis vigentes, as ações que possam trazer o melhor resultado para o povo que o escolheu. Lula se esqueceu disso e se deu mal. Dilma também. Que Bolsonaro não siga o mesmo caminho, pois pior do que a postura de água que se conforma ao recipiente onde é posta, é a estratégia do camaleão, que assume a cor da planta onde se esconde para se defender dos predadores e acaba sendo atacado pela própria espécie.

João Anatalino é advogado e presidente da Apae de Mogi das Cruzes