João Anatalino Rodrigues

Uma velha piada forense diz que o diabo foi levado às barras de um tribunal para ser julgado. Mas como era cidadão com passaporte de todas as nações da terra, ele invocou o direito de ser julgado no país de sua escolha, pois seus crimes eram contra a humanidade. Então ele pediu para ser julgado no Brasil. Além da proverbial bagunça do nosso sistema jurídico, se ele fosse condenado, a execução da pena poderia ser prolongada eternamente. Além do que, quando o processo fosse para o STF, sua absolvição estaria garantida.

Então o velho Sartrana, como o chamam os italianos, foi extraditado para o Brasil e aqui submetido a julgamento. Os advogados dele alegaram perseguição política por parte de Jeová, que condenava sem julgamento, prendia sem processo, censurava a imprensa, impunha um regime de terror ao seu povo; enfim, era um ditador de carteirinha. Por isso Satanás promovera uma rebelião com o objetivo de abrir os olhos do povo. Nessa condição foi preso e considerado subversivo. Portanto, seu crime era político.

Sua defesa citou exemplos nacionais e estrangeiros. William Wallace, Nelson Mandela, Che Guevara, Tiradentes e outros foram lembrados. O tribunal está discutindo o seu caso até hoje. Enquanto isso Satanás está solto. Trabalha livremente assessorando empreiteiros e políticos, cabalando muitas almas para o seu rebanho.

Sem dúvida, a estratégia do diabo em pedir para ser julgado no Brasil foi genial. Só não gostaria de servir como jurado nesse julgamento, pois depois de tudo que eu ouvi dso ministros Marco Aurélio e Gilmar Mendes a respeito do chamado garantismo constitucional que permite a libertação de criminosos perigosos e contumazes só por causa de uma filigrana jurídica, todos os meus valores seriam abalados. Para uma Corte Suprema que tem ministros como esses (incluindo Lewandowsky e Toffoli), eu posso acabar me convencendo de que o diabo realmente é inocente e Deus é mesmo um ditador impiedoso.

No Apocalipse, São João disse que Satanás ficou preso por mil anos. Se aconteceu, ou ainda está para acontecer, tenho certeza de que esse julgamento não foi feito, nem será, num tribunal brasileiro. Nem foi parar nas mãos de um dos ministros acima citados. De qualquer modo, o diabo, antecipadamente, agradece.

João Anatalino Rodrigues é advogado