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OPINIÃO

Um parque de quem muito pouco se fala

Ao sediar uma celebração religiosa nesta semana, o Parque Municipal Chiquinho Veríssimo provoca a lembrança do que essa reserva já foi um dia e o distanciamento do espaço, de maneira geral, das escolas, dos programas de educação ambiental e da sociedade mogiana

O Diário
21/06/2022 às 16:17.
Atualizado em 21/06/2022 às 18:43

O Parque Municipal Chiquinho Veríssimo está localizado na Serra do Itapeti e é uma reserva municipal (Arquivo O Diário)

Reserva municipal com laços afetivos preservados mais na lembrança dos moradores mais antigos, o Parque Municipal Chiquinho Verissimo abrirá as portas, neste sábado, para uma celebração religiosa promovida pela Pastoral da Ecologia e do Meio Ambiente, com direito a um outro ritual que faz parte do patrimônio cultural e histórico de Mogi das Cruzes - o café com pão distribuído durante as manhãs da alvorada, na Festa do Divino Espírito Santo será servido aos visitantes neste dia.

A ideia da pastoral católica que luta pela preservação do meio ambiente, em parceria com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente e o Instituto Embu de Sustentabilidade, vai tirar um pouco do esquecimento esse equipamento ambiental que muito representou a cidade em décadas passadas, e que possui dois acessos de entrada: mesma estrada que leva ao Pico do Urubu, e uma outra, fechada, que liga o local até o Rodeio (margeando sítios existentes naquele entorno, com entrada e saída pela via perimetral).

O Parque Municipal antecedeu os demais integrantes da rede composta hoje pelo Centenário, Leon Feffer, Cidade, Botyra Camorim e até o das Neblinas (esse último, mantido pelo Instituto Ecofuturo, da Suzano, de papel e celulose, no distrito de Taiaçupeba).

Ele possui um outro perfil e foi o pioneiro do município e até na região Metropolitana a oferecer um espaço de lazer e turismo em meio aos atrativos naturais do território do Itapeti de maneira, inicialmente, sem controle e com a atração de milhares de pessoas apenas nos finais de semana, o que concorreu, no decorrer de alguns anos, com a degradação desse miolo de serra caracterizado por ser um dos remanscentes da floresta da Mata Atlântica.

Moradores mais novos pouco ouvem falar do Parque Municipal, um empreendimento municipal que, na década de 1990, por força do Ministério Público e do forte aval dado por pesquisadores das duas universidades de Mogi das Cruzes e Braz Cubas, foi fechado ao público para o desenvolvimento de estudos e a preservação da fauna e flora que já havia se transformado, para pior, com a abertura de lagos, manutenção de um teleférico (que levava quem pagasse até um dos pontos mais altos da cidade) e outros reflexos da ampla visitação e circulação de veículos, como a produção do lixo e outros tipos de poluição, como a sonora.

O fechamento do parque ao público foi uma das primeiras reações mais firmes para o reconhecimento da Serra do Itapeti como um patrimônio ambiental - o que não correu sem muita polêmica e contrariedade. O fim do uso do Parque Municipal, como um lugar para o lazer, esporte e a contemplação da natureza, foi uma dura decisão bancada pela justiça e, aos poucos, assimilada pela sociedade mogiana.

Voltar àquele modelo é algo impensável diante de tamanha urgência ambiental criada pelo aquecimento dos oceanos e da terra. 

No entanto, ainda mais agora, nesse flerte com a volta às condições de atividades pouco menos desatreladas à pandemia, cabe provocações sobre o presente e o futuro desse espaço que, em 2020, foi contemplado com recursos para a realização de uma reforma que pretendia ampliar o poderio de atuação.

Uma sugestão seria trazer o parque mais perto da sociedade, promovendo apresentações públicas de pesquisas ou atividades regradas, de acordo com o plano de manejo do espaço, que poderiam ser experienciadas por coletivos como estudantes e professores de todos os níveis do ensino. Imagine uma aula de ecologia ou biologia ali, a todos os alunos das redes, três vezes por ano -e, isso, a unidades públicas e particulares.

Quando foi fechado, o Parque Municipal passou a cumprir um programa de uso e ocupação que previa a preservação, mas também, o uso de trilhas em programas de educação ambiental - o que, convenhamos, tem sito realizado, de maneira tímida, com poucos recursos e até visibilidade para que todos soubessem as riquezas e descobertas ali produzidas.

Os novos rumos dados por esse chacoalhão dado pela pandemia e confirmações sobre a importância da pesquisa científica e até do ensino presencial como norte para a formação das futuras gerações devem ser levados em conta. Será que, um dia, Parque Muncipal, será um espaço vigoroso, atuante e exemplar e poderá ser chamado de um centro de preservação de espécies da fauna e flora, mas também da promoção da ciência e da educação ambiental. Tudo isso, claro, dentro das condições de uso e ocupação apontadas por quem realmente entende desse assunto.

São questões que surgem ainda no decorrer deste mês de junho, quando o Meio Ambiente é pauta necessária para as cidades de todos os portes. Ter um parque tão distante da agenda do cidadão nos parece um pecado.

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