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OPINIÃO

O sucesso de Tia Gê, a merendeira que representou Mogi

Repercussão de prêmio recebido por auxiliar de desenvolvimento que trabalha na merenda de Mogi das Cruzes valoriza a ganhadora e toda a categoria por ela representada

O Diário
04/07/2022 às 16:06.
Atualizado em 04/07/2022 às 19:01

Destaque em competição nacional, Tia Gê, de Mogi, representou o Estado de São Paulo (Divulgação/PMMC)

No final de semana, a notícia com um maior número de comentários e audiência do site de O Diário surgiu de um post da Prefeitura de Mogi, sobre a entrega de um prêmio recebido pela auxiliar de desenvolvimento de Educação, Geralda de Oliveira Leite Silva, a Tia Gê, pelo quarto lugar obtido na disputa Merendeiras do Brasil, realizado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, do Ministério da Educação.

Tia Gê esteve ao lado de outras merendeiras brasileiras em um reality show que reuniu 15 profissionais de diversas regiões deste Brasil, país que tem  como é sabido, a merenda como um dos gatilhos para combater a pobreza e atrair o aluno para dentro da escola. O prato de comida, o suco ou a fruta servida na cantina são ferramentas para o combate à desigualdade social e do desenvolvimento escolar aceleradas nos últimos dois anos por causa da pandemia.

O reconhecimento, em forma de elogios no site, faz parte do que governo algum consegue fazer por mais que se esforçasse sem um olhar adequado para a base, o funcionalismo público. Os aplausos se devem ao fato de as merendeiras terem um papel de ponta na construção de uma escola mais humana, sociável e agradável para fidelizar o estudante no ambiente de ensino.

Em 2020, ano inicial da pandemia, indicadores apontavam para números extremamente insuportáveis sobre a falência das políticas para ensino público - mais da metade, seis em cada grupo de dez brasileiros não terminavam o Ensino Médio. Qualquer esforço que se faça para mudar essa dramática realidade parte da melhoria e da valorização dos profissionais da escola pública. Sem isso, vai demorar mais tempo para quebrar o ciclo de  gerações que seguem a vida e vão (se derem sorte) para o mercado de trabalho com gravíssimas falhas nas operação básicas de matemática, na escrita e na leitura de textos. Na cozinha das escolas, profissionais que abraçam o trabalho na educação como um projeto de vida, podem ajudar a tecer, na escola, um ambiente propício para o aluno se conectar com os estudos.

A fala de Tia Gê, sobre o prêmio, explica por si. No balanço da participação do programa, ela conta que ela escolheu ser merendeira. Ao encontrou seus pares, disse, percebeu que  não se sente sozinha nesse caminho, "tem muitas que fazem por amor mesmo e pela criança. Como é bom saber que no Brasil inteiro tem pessoas que gostam de trabalhar na merenda escolar, sabem que a criança necessita deste carinho e do alimento".

Ha 15 anos atuando na escola Professora Florinda Faustino Pinto, no bairro do Oropó, a vencedora do programa dá impulso a um sentimento de esperança. Independente do governo da vez, no estado, há muitos representantes cientes do papel a exercer para mudar o que não vai bem. Quando questionados sobre os motivos de deixar a escola, integrantes do que se denominou chamar "geração nem, nem", que não estuda e nem trabalha, consideram a escola chata, dissociada dos interesses e das expectativas que têm a criança e jovem, o foco e sentido da educação.

O exemplo de Tia Gê pode servir de ponto de reflexão sobre como mudar essa relação que exige outro olhar dos governos, sobretudo o federal, que ordena os caminhos da educação. Há muita gente, na base, na cantina, interessado em fazer a educação dar certo. 

Por outro lado, a audiência da reportagem sobre o feito de uma mogiana faz lembrar a poesia de Alberto Caieiro/Fernando Pessoa, em O Guardador de Rebanhos, quando o poeta compara o rio de sua aldeia com o portentoso Tejo. As pessoas estão ávidas por iniciativas que celebram o sentido de comunidade, gente da própria cidade (por isso, há de se lugar para que outros projetos, como o do Mogi Basquete, não se percam).

Um prêmio de primeiro lugar seria igualmente festejado. Porém, a participação de quem é de casa, da escola pública da cidade em um evento nacional, transcente a isso.

É a mesma simbologia encontrada em Fernando Pessoa, quando ele exalta, em sua poesia, o elo indestrutível criado entre o morador e a terra onde vive:

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia"

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