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EDITORIAL

Na força bruta e cruel

Mesmo sob o olhar da sociedade e do Comphap, a busca por cumprir a lei não aplacou arranjos denunciados, como a retirada de parte do telhado e incêndios, no Casarão dos Duque

O Diário
18/06/2022 às 08:00.
Atualizado em 18/06/2022 às 08:11

Casarão dos Duque está prestes a desabar (Arquivo O Diário)

São assuntos distintos, em escala e reflexos. Porém, em certo sentido, com um mesmo fio condutor: a força do desamparo institucional e os interesses próprios e financeiros ditando arranjos, desrespeitos e crimes à mercê da lei, da moral e ética. Prevalece o valor dado por alguns a um bem de consumo ou pessoal não importando se, do outro lado, estão a vida humana, a história, o senso da coletividade. 

Na Amazônia, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips foram covarde, fria e brutalmente assassinados por defenderem a proteção dos povos indígenas e dos recursos naturais finitos do meio ambiente, como tão duramente o mundo confirma nesse cataclisma climático. 

Ainda não se sabe o motivo, mas o contexto desse assassinato e das ameaças a outros defensores da Amazônia está dado. Infelizmente, com um aval governamental que nega o inegável, como o aumento das queimadas, do garimpo e outras explorações ilegais.

Em Mogi das Cruzes, há alguns anos, uma queda de braço está muito prestes a terminar com o fim de um registro histórico de interesse para a preservação como patrimônio municipal.

O duro veredicto dado pela Prefeitura - sobre a iminência de o Casarão dos Duque, no Mogi Moderno, perecer, ruir, desabar, assim como os demais exemplares arquitetônicos e culturais recentes será uma derrota, tão sofrida como as demais, porém, com um ingrediente mais severo.
Mesmo sob o olhar e a ação da sociedade e dos conselheiros do Comphap, o órgão municipal de preservação do patrimônio histórico, a busca pelo cumprimento da lei não conseguiu aplacar, nem mesmo, arranjos denunciados por vizinhos, como a ação proposital por meio de incêndios e desmanche de paredes e telhado, com o intuito de acelerar o processo de deterioração das estruturas do que foi, no passado, um registro do período do café, na região do Alto Tietê. Essa luta teve, ora mais flagrante, ora visivelmente desconsiderado, o apoio do poder público, na figura de quem tem o poder de decisão, o prefeito da vez.

Tudo isso há de se considerado diante da reportagem publicada por O Diário sobre a sentença do fim próximo desse casario antigo. 
Para além das leis, a mobilização dos cidadãos e da sociedade organizada, neste caso, não concorreu para garantir o cumprimento da letra legal.

Tanto aqui, quanto na Amazônia, sem fiscais e órgãos específicos para acompanhar e apressar decisões judiciais e inibir riscos de tragédias como assassinatos ou a derrubada do que cala de vez a história de uma cidade, esse estado do “tudo pode” acentua esse colapso, a barbárie.

Um telhado de um casarão antigo de interesse é retirado. Um jornalista, silenciado. Morre um indigenista, considerado pai por povos ameaçados de sumirem do mapa do mundo. Como dissemos, a diferença em escala e a gravidade desses dois fatos é cabal. Porém, ambos os fatos, nessa mesma semana, são peças desse recorte de tempo tão triste, difícil e incerto. Por mais que a eleição se avizinhe, e programas e promessas tendem a esperançar as pessoas sobre a redução dos malfeitos e injustiças, sabemos que a cura para tanta coisa errada e monstruosa levará mais do que quatro anos. É uma hora sombria e de luto.

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