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COMÉRCIO

Carros estacionados na rua Paulo Frontin alteram conceito de calçadão

Fim da proibição em trecho da Coronel Souza Franco atende pedido do comércio; a partir de hoje (5), começam outras mudanças

O Diário
05/12/2022 às 09:51.
Atualizado em 05/12/2022 às 09:54

Por volta das 11 horas de sábado último, carros estavam estacionados no ex-calçadão da Paulo Frontin (O Diário)

Desde a pandemia, a flexibilização da fiscalização do trânsito passou a ser observada por consumidores e comerciantes do "ex-calçadão" da rua Dr. Paulo Frontin. No último sábado, primeiro dia de compras após o pagamento da primeira parcela do 13º salário, carros estacionados na via confirmaram uma mudança no conceito da circulação de motoristas e pedestres neste corredor que concentra parte do comércio tradicional da região central de Mogi das Cruzes.

O mesmo ocorreu, já há mais tempo, com o trecho da rua Coronel Souza Franco, que passou oficialmente a receber o estacionamento de veículos, em atendimento a um pedido dos comerciantes. Ali, no entanto, nunca foi calçadão, embora, planos para isso já tenham existido e encontrado franca resistência do comércio.

O modelo dos calçadões tem como objetivo privilegiar a circulação dos pedestres, mas já não vale para a Paulo Frontin, ao contrário do que ocorre na rua Dr. Deodato entre a vias José Bonifácio e Barão de Jaceguai - ali, ainda é preservado o sistema adotado por grandes e pequenas cidades de todo o mundo.

Um calçadão é uma intervenção urbanística que visa privilegiar a pessoa, o convívio social, a segurança e o que tem sido muito comentado, uma experiência de compra diferenciada. Esse mobiliário dá ao consumidor o que um shopping faz, com diferença - na rua, isso ocorre a céu aberto, de maneira mais democrática.

No centro de compras, não - aliás, shoppings mais novos já levam para dentro de suas construções, amplos e belos jardins e outros elementos que remetem à liberdade de se estar fora de quatro paredes.

Desde fins dos anos 1980, o governo municipal vinha apostando no traçado dos calçadões, inclusive, com a adoção recente de um modelo intermediário, na rua Professor Flaviano de Melo, que, aos poucos, também é precarizado com o recebimento de mais carros do que anteriormente e alterações como o estacionamento de veículos ao lado do Mercadão (que foi liberado, a princípio, para idosos; o que acabou degringolando também).

Para usar um termo que tão bem identificou o derrame de crimes ambientais na Amazônia com o olhar complacente do governo federal, a porteira foi aberta.

Na realidade, o que se tem, hoje, é uma verdadeira confusão com o fim do que vinha valendo até aqui, e, o mais complicado, atendendo a apenas uma parte das pessoas e não a coletividade, e com o aval do poder público.

Essa política de privilegiar o carro poderá fazer mal aos pedestres e ao próprio comércio porque torna a ida ao centro mais dificultosa para o consumidor.

Ou seja, privilegia-se meia dúzia de motoristas e acaba-se com o sossego de milhares de pedestres que estão sendo obrigados a conviver, de novo, com os carros em ruas que, antes, eram somente deles. Em nossa opinião, essa história caminha para um retrocesso.

A liberação pontual e oficial de vagas para o estacionamento na rua Paulo Frontin foi solicitada pelo Sindicato do Comércio Varejista de Mogi das Cruzes, como divulgou O Diário. Os comerciantes estão defendendo uma visão que privilegia apenas uma parte das pessoas - até porque, o que está em jogo, são apenas algumas dezenas de vagas - ou seja, não resolve o problema de uma maioria. Esse parece ser o ponto que não está sendo levado em consideração.

Tráfego de veículos chama atenção no corredor comercial da rua Dr. Paulo Frontin (O Diário)

Há uma defesa de boa parte dos lojistas de que a medida atrai mais vendas embora, sem a rotatividade da zona controlada, no mais das vezes, a realidade é outra: vagas acabam beneficiando comerciantes, trabalhadores ou prestadores de serviços que chegam mais cedo na área central.

No final da semana, quando a Prefeitura divulgou o esquema para o trânsito, a partir desta segunda-feira (5) e até o dia 15 de janeiro, no entanto, a Paulo Frontin sequer foi citada porque, na prática, essa liberação já está ocorrendo.

Dinâmica, orgânica e dona do próprio destino, a cidade de ruas estreitas pode estar dando passos decisivos para fraturar o conceito dos calçadões. Em alguns trechos, como as proximidades da Catedral de Santana, esse status, em alguns horários, também já não vale mais.

Por mais que as centralidades defendidas no Plano Diretor de Mogi das Cruzes sejam concretas, com o engrandecimento de corredores comerciais e de serviços nos distritos e bairros - o centro antigo ainda pulsa e atrai grande parte da população. E o que está ocorrendo é o desmonte de algo construídos, ao longo das últimas décadas. Neste sentido, o que está acontecendo com a Flaviano de Melo, que toda hora tem carro passando, retirando a paz do pedestre, é exemplar sobre como se destrói investimentos públicos altos aportados ali.

Apenas o tempo confirmará se as movimentações dos comerciantes, com o aval da administração do prefeito Caio Cunha, tenderão a sepultar de vez o que vinha sendo considerado como ideal para a qualidade de vida e a valorização do pedestre no uso do espaço público comercial. 

Por hora, no entanto, chama atenção a maneira como isso tem sido feito. Na "miúda", quase surdina, com a eliminação, por exemplo, dessa opção de estacionamento no trecho da Paulo Frontin, da publicação oficial das vias que estão com as vagas livres para o motorista mogiano.

Esse, aliás, é um motivo de dúvida de comerciantes que não podem indicar a comodidade ao consumidor porque eles não sabem quais são os horários que a liberação vale - nos dias da semana, segundo apurou O Dário, os carros são mais vistos ali a partir do final da tarde. Mas, não há mais regra.

No último sábado, desde as primeiras horas, carros já estavam estacionados em grande parte da Paulo Frontin, confirmando o fim de ciclo de valorização dos calçadões. Será o fim da era dos calçadões?

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