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EDITORIAL

Atenção à dor alheia

"Mogi das Cruzes tem agido para construir uma rede de proteção ao idoso que seguramente tem falhas e necessidades, mas assiste a situações mais urgentes"

O Diário Publicado em 26/10/2021 às 18:10Atualizado há 1 mês

Se criança e adolescente não são prioridade, como os semáforos de Mogi das Cruzes tão bem exemplificam, o que pensar sobre o idoso e as perspectivas futuras quando casas para o acolhimento dessa parcela da população serão mais necessárias do que escolas?

A tábua populacional de outros países modelam o que o Brasil já enfrenta em grandes cidades. O aumento da expectativa de vida faz crescer o número de idosos com ou sem vínculos familiares, mas ainda dependentes do estado. E não apenas financeira, mas socialmente. Há linhas divisórias entre uma sociedade civilizada daquela única e somente embalada pela barbárie. O estabelecimento de uma condição para melhor ou para o fundo do poço e a selvageria,  não brota da noite para o dia.

Mogi das Cruzes tem agido para construir uma rede de proteção ao idoso que, seguramente, tem falhas e necessidades, mas ainda assiste muitas situações mais urgentes.

Não existem vagas públicas para todos os idosos em situação de miséria, abandono ou alta vulnerabilidade social. Até pouco tempo, Mogi tinha um geriatra na rede pública. Grande parte dos municípios brasileiros nem isso possui.

Entidades mogianas e a Prefeitura alimentaram esse polo de assistência mesmo durante a pandemia que apertou ainda mais os frágeis laços dessa estrutura, sempre dependente de mais dinheiro, profissionais e voluntários.

Diante do terrível e desumano encontro de uma idosa de 77 anos que vivia entre cachorros e gatos - alguns deles mortos e servindo de comida para os animais, líderes e autoridades, inclusive, o Ministério Público,  não deveriam assistir a  esse nível de abandono sem buscar explicações e cobrar respostas. O que ocorreu no Jardim Piatã é gravíssimo.

A idosa, acumuladora de animais, segundo se acredita, perdeu o filho há pouco, achado morto em condição parecida à dela. Uma explicação: a de que a senhora não deixava ninguém entrar em sua casa, não se justifica.

 Da pior maneira, esse sofrimento humano deveria acordar autoridades e a sociedade organizada. Não é todo dia que acontece, nem é exceção. A Síndrome de Diógenes, transtorno caracterizado pelo colecionismo de coisas e animais, se apresenta em 5 a cada 10 mil pessoas acima dos 60 anos. No mínimo faltaram atenção e comunicação entre agentes e órgãos mantidos com dinheiro público para prestar esse tipo de serviço: proteger os mais frágeis e abandonados da barbárie.

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