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ARTIGO

Para além de um feriado 20 de novembro

O Estado brasileiro se fundamenta em uma harmonia maquiada entre o cidadão e o mito da democracia racial

Iduigues Ferreira MartinsPublicado em 03/09/2021 às 08:00Atualizado há 25 dias

Após a leitura e análise realizados a respeito da matéria escrita pelo jornalista Darwin Valente no jornal O Diário, publicado em 25 de agosto, onde tratou sobre a questão do projeto de lei apresentado na Câmara de Mogi que pretende instituir o feriado do dia da Consciência Negra (20 de novembro) que já é presente em mais de 1.260 cidades do Brasil. Sendo assim é possível observar pontos apresentados divergentes em questões cruciais da realidade defendida pelos vereadores e pela comunidade afro-brasileira.

O conceito do Dia da Consciência Negra traduz não apenas como representação da morte de Zumbi dos Palmares, referência na luta antiescravagista brasileira, mas também para o sentimento identitário de pertencimento negro à sociedade brasileira; esta que majoritariamente tem sua vastidão sociocultural erguida por mãos negras e indígenas, os mesmos que sempre estão postos às margens da sociedade brasileira.

O Estado brasileiro se fundamenta em uma harmonia maquiada entre o cidadão e o mito da democracia racial e para isso, contra toda violência e opressão à cultura, costumes e tradições do povo negro é urgente que necessitamos lembrar diariamente e em especial no dia 20 de novembro que, a escravidão foi abolida mas as correntes da intolerância contra negros, indígenas e mestiços sempre mantiveram-se vivas na história do Brasil.

É plausível o entendimento que alega o fato de que apenas negros têm o direito de defenderem sua causa, assim como o jornalista Darwin que ou cita apenas o nome de três vereadores da “raça negra” é importante salientar que outros cinco vereadores como; Inês Paz, Fernanda Moreno, Victor Emori, Zé Luiz e Policial Maurino, que contemplam outras etnias também assinam o projeto.

Mediante a questão do ócio citado na matéria, é algo que acontece já em todos outros feriados que compõe o calendário oficial do municipio, para além do dia de descanso e as questões econômicas, o dia 20 de novembro serve para marcar um período de grande opressão ao povo afro-brasileiro, esta data serve como símbolo da luta do povo negro em busca da igualdade em nossa segregada sociedade. Vivemos em um país que insiste em pregar uma democracia multiracial, mas que integra um dos primeiros lugares no ranking de países mais racistas e preconceituosos do mundo.

A questão abordada sobre a preocupação sócio-econômica, é de fácil entendimento que, os estados brasileiros como; Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro, entre outras milhares de cidades, incluindo até mesmo municípios do Alto Tietê; Guarulhos, Santa Isabel e Suzano, que já possuem o feriado da Consciência Negra estabelecido em seu calendário, não são prejudicados economicamente.

Portanto a instituição do feriado serve para marcar o sofrimento de um povo e levar a mensagem de transformação da nossa sociedade e a reflexão para que coloquemos um fim no racismo, na segregação, e na desigualdade e principalmente para que os crimes de racismo cometidos não fiquem impunes e que a história da escravidão e da opressão ao povo negro seja contada sem “filtros brancos”, para que as futuras gerações conheçam a verdadeira história e contribuam para acabar com o estigma que vem carregado de meias verdades que aprendemos por longos anos nos espaços educacionais. O relato da dificuldade em instituir o feriado na data de 20 de novembro em comemoração a Zumbi dos Palmares, revela bem a sociedade que somos em nosso município, uma sociedade que venera Bandeirantes, mas se posiciona contra uma homenagem legítima a um símbolo da libertação do povo negro, contribuindo para a perpetuação do racismo e da segregação, contrariando a nossa Constituição, que coloca todos os cidadãos iguais em direitos.

Iduigues Ferreira Martins é vereador

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