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ARTIGO

Meio ambiente procrastinado

'Estamos criminalmente tamponando as nossas nascentes, procurem saber quantas nascentes tinham em Salesópolis (o município maior produtor de água doce no Cabeceiras) há dez anos e quantas existem hoje'

José Arraes
03/06/2022 às 14:19.
Atualizado em 04/06/2022 às 08:36

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Meio ambiente procrastinado

'Estamos criminalmente tamponando as nossas nascentes, procurem saber quantas nascentes tinham em Salesópolis (o município maior produtor de água doce no Cabeceiras) há dez anos e quantas existem hoje'

José Arraes
03/06/2022 às 14:19.
Atualizado em 04/06/2022 às 08:36

Algumas datas do nosso calendário anual nos remetem a uma reflexão do nosso compartilhamento mais efetivo. O Dia Internacional do Meio Ambiente é uma delas.

Eu que me supondo um pouco perfeccionista, desde que me embrenhei por estes assuntos, tenho repetido, ano após ano, que “ainda não temos nada que possamos efetivamente comemorar”, ainda mais quando leio na nossa Constituição Federal que “todos temos direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade, o dever de defende-lo e preservá-lo para as presente e futuras gerações”.

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Talvez, ainda, eu esteja, há muito tempo errado, e talvez insista, também, para me justificar, para o abrandamento desta minha “eterna e insistentemente alimentada capacidade de indignação” que sempre fiz questão de ouvir e massagear. 

Assim, iniciando este prólogo, revejo o passar dos anos desajustadamente, com muitos de nós falando,  muitos governantes mundiais em conclaves majestosos inconclusos, muitas reuniões, congressos e lives, para, ao fim, os esgotos sanitários domésticos da minha cidade ainda continuarem, em sua maioria, vergonhosamente sendo despejados nos nossos corpos d’água e córregos, estes  mesmos que desaguam no Tietê, de onde, pasmem os que não acreditam, sai a água doce que chega às nossas torneiras e é ingerida por nossos conterrâneos.

O nosso lixo, (Ah! o nosso lixo!!!) nenhum de nós tem mais adjetivos para qualificar o que acontece com esses monstrengos que produzimos quase um 1 kg por dia e que não temos “nada a ver com isso”.

Aqui no nosso pedaço municipal, já vamos para o segundo contrato temporário para o exercício desta finalidade: dispor os nossos lixos. 
A minha “capacidade de indignação” está me dizendo, que parece ter virado um “palavrão” a tal coleta seletiva, ou que é mesmo um “bicho de sete cabeças” encontrar solução para este “problemão” social: coletar, reciclar, reduzir e reutilizar. 

Lembro-me do “Movimento do Lixão”, do “Aterro Não”, já fazem mais de 10 anos, que muitos de nós apresentamos inúmeras alternativas ao aproveitamento social destes resíduos e nunca sequer fomos ouvidos.

Certamente, ao contrário do que afirma o Artigo 225 da Constituição, não nos cabe como simples mortais participar, senão, já estaria funcionando, há anos, entre nós, uma URE –Unidade de Recuperação Energética, pois a solução já está no mundo: Na Europa 492 Países já tratam 96 milhões de toneladas. No Japão existe desde os anos 80 do século passado.

Estamos criminalmente tamponando as nossas nascentes, procurem saber quantas nascentes tinham em Salesópolis (o município maior produtor de água doce no Cabeceiras) há dez anos e quantas existem hoje. Os governantes ainda acham que “canalizar” é uma solução de mobilidade. Há muitos anos muitos países da Europa já não canalizam e nem ocupam os corpos d’água. 

Aqui, volta e meia, surge uma avenida de mão dupla em cima de um córrego, priorizando os automóveis, e a água, com todo esse desleixo, para ser minimamente consumida, tem que ser tratada, com mais e mais produto químico, para torná-la razoavelmente própria para o consumo

Tudo isso sem sequer mencionar o paraíso da nossa localização. Pouquíssimos habitantes têm o privilégio de estarem a 20 km da Mata Atlântica, quase ninguém tem uma Serra do Itapety reservada e própria que ameniza  o nosso clima especial, e nem um manancial setorial que dá de presente para outras regiões, mais de 20 milhões de pessoas, 15 m³/s de água doce.
É muito bom estar aqui.

E é também, ao mesmo tempo, assustador, confesso, até porque certamente vou entregar aos meus descendentes uma natureza bem pior daquela que recebi e ainda, com perspectiva piorada. 

Ontem, participando do Seminário que o Condemat promove na UMC, o professor Nabil Bonduki disse que existem, atualmente 700 mil famílias no Estado sem moradias. E acrescentou existir projeção para, em próximas décadas, 500 mil famílias se somarem a esse número. 
Meus desafortunados descendentes vão ter que alojar 1,2 milhão de famílias desabitadas.

E nós, aqui no Paraiso, precisamos mais que nunca rever com diferentes critérios vistos até hoje, o nosso Plano Diretor,  Leis Especificas de Parcelamento do solo urbano e rural, com o apoio incondicional dos nossos Legisladores na busca da preservação do ambiente. 
Se eu tivesse acesso e oportunidade, aconselharia ao Papa Francisco editar, todo ano, uma “Laudato Si”, pra ver se, na insistência, pudéssemos criar um pouquinho de vergonha na cara, respeitarmos a natureza e a vida, para pelo menos,deixarmos para os nossos filhos e netos um pouco deste paraíso que vivemos.

Por isso que “a minha capacidade de indignação” não me deixa sossegado. 

José Arraes preside o Instituto Cultural e Ambiental Alto Tietê (Icati)

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