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OPINIÃO

Adeus às armas

Não será armando a população que iremos resolver isso. Não podemos transferir ao povo um encargo que cabe ao Estado. Pagamos por segurança, saúde, educação e outras obrigações do poder público e temos direito a tudo isso

João Anatalino Rodrigues
20/06/2022 às 09:58.
Atualizado em 20/06/2022 às 09:58

Política de armamento no Brasil é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro (Agência Brasil)

Bolsonaro continua insistindo em armar o povo. Não perde oportunidade de pregar sua crença de que “povo armado nunca será escravizado”. Só não diz quem o escravizaria. Quem fala em fechar o STF e melar eleições é ele e seus apoiadores mais afoitos, que vivem pregando a volta do AI 5. Das duas uma: ou Bolsonaro tem alguma dívida com os fabricantes de armas ou gosta muito de filmes do Velho Oeste americano, onde todo mundo carregava uma arma na cintura.

Eu também gosto desses filmes. Lá havia uma violência necessária. As pessoas precisavam, de fato, defender a si mesmas, suas famílias e seus bens. Fazia sentido carregar uma arma, porque não havia polícia nem Ministério Público nem tribunais suficientes para prender, processar e julgar os criminosos. As pessoas, frequentemente, tinham que fazer justiça pelas próprias mãos.
Não que hoje as coisas tenham mudado muito. Temos sim, polícia, MP, juízes e tribunais suficientes para fazer esse serviço. Só que não funcionam. Hoje a criminalidade é maior e mais violenta do que no Velho Oeste. E os tiroteios não são nada românticos nem heroicos, como nos filmes de John Wayne, James Stewart, Clint Eastwood e outros astros do faroeste.
Mas não será armando a população que iremos resolver isso. Não podemos transferir ao povo um encargo que cabe ao Estado. Pagamos por segurança, saúde, educação e outras obrigações do poder público e temos direito a tudo isso. Não cabe a nenhum de nós, como quer Bolsonaro, assumir um risco pelo qual pagamos tão caro.
Mas talvez não seja isso que ele quer quando incentiva a aquisição de armas. Pode ser que a intenção seja outra, mais sinistra e maquiavélica do que inspirar uma falsa segurança às pessoas, ou de outra forma, beneficiar empresários que financiam ou podem financiar suas campanhas. Essa intenção seria a formação de uma milicia armada para sustentar suas aspirações a uma ditadura.  Indícios dessa intenção ele dá todo dia. Só não percebe quem não quer, quem está tomado pelo escotoma que a paixão política coloca nos olhos das pessoas que foram seduzidas pelo seu discurso.
Eu gosto muito dos filmes de faroeste, como já confessei. Mas prefiro vê-los nas telas de cinema e TV e não nas nossas ruas. Como disse a mocinha do filme “Os Brutos Também Amam”, “todos estaríamos melhor se não houvesse armas no vale”. O vale a que ela se referia era o lugar onde ela e sua família moravam. Hoje, esse vale é o mundo todo e todos estaríamos melhor se não houvesse armas no mundo. 
Vamos cobrar do Estado um melhor desempenho na área da segurança pública. E também reformar o nosso esdrúxulo sistema penal que serve mais para advogados aéticos ganharem dinheiro do que para combater o crime. Quanto às armas, que sejam “forever banned” como diz Bob Dylan em sua famosa canção. 

João Anatalino Rodrigues é escritor, cronista e presidente da Apae de Mogi das Cruzes

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