EDITORIAL

Olhos atentos

Foram necessários alguns anos e uma série de denúncias e cobranças feitas por O Diário entre 2006 e 2011 para um grave passivo ambiental ser remediado em Mogi das Cruzes. Nesta semana, quem acompanhou o gravíssimo acidente na área portuária de Beirute, no Líbano, se lembrou do sufoco que a cidade viveu para se ver livre de meia tonelada de amianto e enxofre deixada para trás após o fechamento da fábrica Kubota Freios e Equipamentos Ferroviários, no Distrito de César de Souza.

O Diário realizou uma série de reportagens sobre o material tóxico que ficou armazenado nas dependências da antiga fábrica até ser levado para o aterro Resicontrol Soluções Ambientais Ltda, em Tremembé, no Vale do Paraíba, em setembro de 2011.

As primeiras reportagens sobre o material considerado tóxico e cancerígeno foram feitas por este jornal. Foram anos de intervenções da Justiça e órgãos como a Agência Ambiental do Estado de São Paulo, a Cetesb, até a remoção completa. Até prisão, aconteceu.

Em nossa edição de ontem, um dos responsáveis pelo Plano de Auxílio Mútuo, o PAM, criado há 27 anos e mantido por um pool de empresas para atuar em ações de socorro em um caso de acidente com cargas perigosas, tranquilizou a cidade, dizendo serem mínimas as chances de um grande acidente como o visto nesta semana, no Líbano, se repetir por aqui.

Os riscos podem ser mínimos, em particular, entre empresas de maior porte e fôlego técnico e financeiro para o controle desses produtos. Mas eles existem.

Basta o infortúnio de um fim dramático de fábrica para a vizinhança – de uma rua, um bairro, ficar à mercê. Não importa se as pessoas vulneráveis forem duas ou 100 pessoas.

Prevenir acidentes no manuseio, transporte, armazenamento e destino final desses produtos é obrigação primeiro dos responsáveis por essas cargas, as indústrias ou outros estabelecimentos, inclusive, agrícolas. E há em situações como essa, a responsabilidade de outros atores na fiscalização e cobrança das leis específicas relacionadas aos gases e elementos perigosos.

Especialmente em um país como o nosso, onde negligência e a corrupção contaminam não apenas a política, como bem sabemos. Aqui, o nosso exemplo caseiro é o da Kubota. Durante muito tempo, representantes dos trabalhadores mostraram a inércia do estado nas cobranças para a remediação desse passivo da saúde pública. Felizmente, os alertas serviram.

Essa é força, aliás, da sociedade civil organizada diante de seus muitos desafios. E o PAM simboliza justamente o que esse conceito produz: a defesa dos interesses coletivos.


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