Salesópolis, quem diria, tornou-se o primeiro município da região do Alto Tietê a eleger uma vereadora transexual. 

A cidade, de perfil conservador, garantiu a presença em sua Câmara Municipal, a partir de 1º de janeiro do próximo ano, de Raí Saylon de Paula Ribeiro, que se apresenta nas redes sociais como Rebecca Barbosa, 28 anos, alcançou 332 votos e foi a sexta mais votada, numa Câmara que terá ainda oito homens e duas mulheres.

Ela está entre 23 homens e mulheres transexuais eleitos em todo o País, segundo monitoramento da Aliança Nacional LGBTI+.

Nascida e criada e Salesópolis, conta que foi difícil chegar à Câmara, em razão de “pessoas maldosas que não queriam ver uma transexual no Legislativo”. 

No entanto, admite que tais pessoas nunca expuseram isso pessoalmente a ela, que se considera “uma pessoa muito respeitada na cidade”, pelo fato de saber “entrar e sair” de qualquer ambiente.

Sua carreira na política começou quase por acaso. 

Formada em Direito pela Universidade de Mogi das Cruzes, havia acabado de concluir o curso e, antes de conseguir um estágio, foi alertada pela mãe sobre a eleição para o Conselho Tutelar da cidade. 

Raí classificou-se em segundo lugar no concurso e depois, foi a mais votada pelos demais membros do Conselho, onde permaneceu entre 2016 e 2020. 

“Ali começou a minha história de envolvimento com a cidade. Foi o auge da nobreza”, diz, lembrando que foi a grande oportunidade para conhecer melhor “as pessoas e as necessidades da Salesópolis carente de ajuda.” 

“Foi a escola”, comenta, ao lembrar que, deixando o cargo no Conselho, decidiu tentar a sorte na política. “Deus e meu povo me abençoaram”, conta, recordando que durante a campanha ouviu  muitas coisas negativas, “geralmente ditas pelas minhas costas”, todas superadas por ela, que sempre faz questão de elogiar as pessoas da cidade. 

Mesmo tendo algumas lembranças nada agradáveis de fatos passados, como o dia em que assaltada e apanhou na rua. 

Mas ela garante que aquilo foi obra “de um grupo de fora daqui”. 

E seus integrantes deixaram claro que estavam batendo nela pela sua opção sexual. 

O fato foi um divisor de comportamento em sua vida. A partir daquele dia, Raí conta que deixou de ser um “homem gay”, para ser uma “mulher transexual”. 

“Decidi ser quem eu sou”, garante,admitindo ter enfrentado muito “deboche, chacota  e desrespeito, de maneira aleatória”,  quando mais jovem e ainda não assumida em relação ao gênero. 

Raí revela que a maior parte de sua campanha foi feita nas redes sociais, em razão das dificuldades para contatos nas ruas, em razão da pandemia. 

Foram basicamente 45 dias de trabalho que resultaram em uma surpreendente votação para os padrões eleitorais da cidade de 425 km², atualmente com 17.252 habitantes e 15.239 eleitores, o equivalente a 88% da população, o maior percentual de toda a região do Alto Tietê.

Os seus 332 votos, Raí acredita terem vindo dos mais diferentes setores da cidade, que confiaram em suas propostas de trabalho.

Por isso mesmo, quando chegar à Câmara, ela promete exercer o mandato “com nobreza e confiança”, para honrar aqueles que nela acreditaram. Embora sabendo, como bacharel em Direito, que “as atribuições de um vereador estão especificadas em leis, Raí afirma que vai ser uma fiscal atuante dos atos do Executivo, mas que pretende mesmo é trabalhar pela “minha cidade” e não apenas por aquelas pessoas que a elegeram.

 “Dar visibilidade e respeito aos transgêneros” será outra de suas bandeiras. “Pretende lutar por mais atenção e visibilidade às pessoas iguais a mim. As pessoas precisam entender que temos de ser respeitadas”, diz.

Ciente de que sua história já quebrou “barreiras e paradigmas” na conservadora Salesópolis, a frequentadora da igreja evangélica Congregação Cristã do Brasil sabe muito bem como superar dificuldades.

Ela conta que mesmo no templo que frequenta existem aqueles de espírito elevado, que sabem amar ao próximo e por isso a aceitam sem quaisquer problemas. Mas há também o outro lado, “que vive de aparências” e que faz restrições veladas à sua presença no local. Raí não demonstra preocupação com isso:

“Enquanto  a porta de uma igreja estiver aberta ao público, eu irei entrar para entregar meu louvor ao meu Deus; é isso que importa”, garante.

Mas e como deverá ser sua chegada à Câmara? 

Ela garante que já está se preparando para a posse, em grande estilo.

E o traje? “Vai ser um luxo, um presente do estilista Zeca Leone, de Mogi.” 

Para não estragar a surpresa, evita dar detalhes. Diz apenas que será “um vestido lindo, maravilhoso; super decente para atender às expectativas da solenidade”, promete Raí, ou Rebecca, que garante: “Afinal, não é só porque é trans, que terá de chegar cheia de penas no rabo”.