Nos últimos dois anos, a Universidade Aberta à Integração (Unai), de Mogi das Cruzes, formou 74 pessoas, a maioria entre 56 e 65 anos. O local onde a instituição de ensino está sediada, com apoio dos professores, o Centro Universitário Braz Cubas, tem hoje mais de mil alunos acima de 50 anos em seus cursos de graduação presencial e à distância. Na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC),  42 pessoas com idade acima de 50 anos se formaram entre 2019 e 2020, sendo 24 mulheres e 18 homens. Os números mostram que não há idade para o conhecimento, desde  que exista a vontade de aprender.

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Mulheres são maioria entre os que buscam conhecimento

 

Sueli, 60 anos, e um sonho em realização

Até os 60 anos, a vida da agente de organização escolar Suely Ramos Araujo não a permitiu que ela ingressasse no ensino superior. Era o sonho entrar na universidade, mas isso ficou adormecido enquanto trabalhou para ajudar os pais, depois para criar quatro filhos sozinha. Só agora, na terceira idade e com as missões cumpridas, ela colocou o caderno debaixo do braço e já está no terceiro semestre da graduação na área de Serviço Social. “Enquanto houver vida, tem que ir à luta”, crava. 

De família simples, Suely foi criada no distrito da Penha, na capital paulista. Aos 14 anos começou a trabalhar para ajudar na renda da casa em que morava com o pai, a mãe e outros sete irmãos.  

Aos 22 anos, casou. Três anos depois, teve a primeira filha, a Aline, hoje com 35 anos. Depois vieram a Ana Paula, 34, Priscila, 31, e, por fim, um menino, o Wesley, agora com 29 anos. Mas, antes mesmo de ele nascer, o marido a deixou com todos eles para criar. A graduação ficou ainda mais distante. O sentimento de desamparo durou pouco. Em seguida, ela conseguiu entrar em uma escola estadual como agente de organização escolar. 

“Eu tive de ser forte, mas o serviço me ajudou a construir o que eu tenho hoje. Eu consegui ter uma casa bem arrumadinha, meus dois filhos formados, alguns conseguiram ter um carro. Eles são todos bons filhos, de bom caráter, boa índole”, conta. 

Nas quase três décadas trabalhando na escola em uma região periférica de Ferraz de Vasconcelos, Suely assistiu à situação de pessoas que têm os seus direitos violados. Essa convivência reforçou a vontade de poder ajudar os mais necessitados. Ela queria poder mostrar às pessoas o que lhes é garantido a legislação.  Por isso, foi trabalhar no atendimento ao público. O caminho foi a universidade. Ali realizaria o sonho de se formar e o desejo de ajudar o outro. 

Mas em meio à ansiedade de começar um capítulo da sua história que adiou por tantas vezes, tinha também a dificuldade de ter saído da escola há muito tempo. Fez o vestibular e foi aprovada. Começou os estudos em uma universidade particular no bairro do Tatuapé, na capital. Mas a rotina de trabalhar das 7h às 16h e depois ir e voltar da capital todos os dias ficou puxada. Ela decidiu transferir a matrícula para o Centro Universitário Braz Cubas. 

“Fazia muito tempo que eu não sentia um frio na barriga, aquele medo do que ia vir pela frente, mas eu só posso dizer que é bom demais realizar os nossos sonhos. Eu preciso estudar muito, me dedicar de verdade para entender algumas coisas. A matéria difícil eu estou fechando com 8, 8,5”, diz.   

Aprender o novo faz Suely sentir-se com 30 anos, conta. Para ela, a maturidade ensina que as pessoas têm de ser exatamente o que são. Acima das coisas que têm valor para o dinheiro, hoje ela diz que nada paga o sentimento de estar bem.  “Eu acho que as pessoas devem ir atrás dos seus sonhos. E posso dizer que os sonhos realmente não envelhecem”, pontua.

Cristina e José, juntos na vida e na educação

O tradicional “na saúde e na doença” foi pouco para o casal Maria Cristina  e José Grecco, ambos com 62 anos. Depois de mais de duas décadas que disseram sim um ao outro, criar o casal de filhos e se aposentarem, eles também foram juntos em busca de educação e qualidade de vida, na Universidade Aberta à Integração (Unai). Para ela, o conhecimento é uma forma de expandir o olhar sobre o universo. Já ele, uma possibilidade de aprender coisas novas uma terceira idade longe de ficar em frente ao sofá. No final do ano, eles se formaram no primeiro curso da Unai e já pensam em iniciar a extensão.

Maria Cristina trabalhava no Banespa e participou da transição para o Santander. No início da carreira, quis fazer um curso universitário, chegou a se matricular, mas a gravidez a fez adiar o objetivo de se formar. Anos depois, com as promoções de cargo na empresa, veio de novo a cobrança da direção para que ela se graduasse, mas a mudança de bandeira do banco a possibilitou continuar como gerente sem a necessidade do ensino superior. 

Aposentada e com bastante energia para começar os novos projetos de vida, ela soube em 2017 da possibilidade de ingressar na Unai. Se matriculou no dia seguinte e foi para a sala de aula em busca de conhecimento para a qualidade de vida. 

“Eu decidi ir para a Unai para me sentir mais feliz, realizada, aumentar mais a minha autoestima, para que eu me sentisse mais motivada a assuntos de interesse próprio. Mas foi melhor do que isso. O convívio com diferentes pessoas é muito enriquecedor. São alunos com 70, 80 e até 90 anos, que têm muita experiência para trocar”, conta. 

Maria se considera ativa. Depois da aposentadoria, já fez trabalho social e é síndica do prédio em que mora. Para ela, a falta de projetos na terceira idade pode ser um fator determinante para que a pessoa caia em depressão. Então diz buscar sempre ter algo para fazer. 

“Na terceira idade, a gente sabe que não tem mais o mesmo desempenho, mas também não é motivo para parar. O segredo é ocupar a mente. Estudando psicologia, filosofia e outras matérias na Unai, envelhecer se modificou para mim. Fiquei mais confiante, os problemas recorrentes da vida passaram a não ter tanta importância, frente aos momentos de alegria e sonhos para realizar”, diz. 

A determinação de Maria também conquistou o marido, José, a se matricular na universidade para a mesma turma de 2018. Eles tinham acabado de decidir parar de prestar um serviço para viajar e curtir mais a vida. Mas deram às mãos também para envelhecerem com mais conhecimento e qualidade de vida. 

“O homem quando fica em casa ou ele fica em frente à TV ou vai para o bar. Eu não queria isso, então foi muito interessante porque não me deixou ocioso”, diz.

Para a terceira idade, o desejo de Grecco era de saúde, para que não dependesse das outras pessoas. Ele descobriu que uma das receitas é continuar aprendendo, lição do sábio ditado, como conta: “cabeça adoece, o corpo padece”.