As mudanças sociais das últimas décadas refletiram diretamente também na vida na terceira idade, sobretudo para as mulheres que chegam a nessa fase mais emponderadas. Os dados da Universidade  Aberta à Integração (Unai) mostram que dos 74 alunos dos anos de 2019 e 2020, 91,9% eram do sexo feminino, maioria com a faixa etária de entre 66 e 75 anos (40,5%), seguidos por aqueles que tinham entre 56 e 65 anos (39,2%). 

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Nunca é tarde para aprender

A socióloga Marina Alvarenga analisa que esses indicadores são reflexo de mudanças que começaram a partir da década de 1970, quando a mulher saiu para o mercado de trabalho e acabou adotando o controle de natalidade. Com menos filhos, elas se viram “livres” mais cedo para novos projetos, deixando para trás também a cultura de passar anos cuidado de diversos filhos e, sem seguida, dos netos. 

“A mulher foi vista por muitos anos como a cuidadora. Até mesmo pelos próprios filhos, mas hoje ela diz que pode até cuidar do neto um dia ou outro, mas não ser a responsável por criar ele. Ela ganhou a autonomia de dizer não, porque tem os seus projetos de vida”, disse. 

Em relação aos homens, Marina lembra que a expectativa de vida deles é menor, exatamente porque não se cuidam tanto quanto as mulheres, então são vítimas de infartos, AVC, acidentes, ao passo que a mulher vem se empoderando. Mas esse cenário de idosos com vitalidade perde força quando chega às regiões mais periféricas, pondera Marina. Aqueles que vivem à margem da sociedade costumam envelhecer mais cedo e também têm a expectativa de vida reduzida. “São aquelas pessoas que trabalharam duro desde muito cedo, não cuidaram da saúde e chegam quebrados à terceira idade, sem autonomia financeira e, em alguns casos, até usam a aposentadoria para custear as despesas dos filhos”, pontua. 

Inclusive está aí o grande desafio do poder público para os próximos anos: estruturar uma sociedade para assistir a população que está cada vez vivendo mais. Tem que oferecer oportunidade para aquele idoso que se aposentou e vai começar uma outra profissão ou dar continuidade àquela que ele tem, destaca a professora. 

“Os idosos que são de classe mais baixa, eles morrem mais cedo, eles têm dificuldade de mobilidade, de cuidado próprio, são dependentes de alguém, que ainda caracteriza uma parcela dessa população. Mas as oportunidades precisam mudar para este cenário também ser o ideal, principalmente porque à medida que for passando o tempo, a idade para se aposentar vai aumentando. Uma população envelhecida que não está mantendo o sistema, não vai se sustentar”, ressalta.

 

Objetivo é envelhecer com qualidade

Uma vida mais ativa, com qualidade, independência e disposição para continuar buscando experiências, aprendizados e uma forma de envelhecer com qualidade. Esse é o perfil do novo idoso, que quer voltar para a escola, ampliar seus conhecimentos, suas expectativas, as oportunidades, além do desejo de se manter atualizado para poder transitar pelo mundo digital. 

Esse tipo de atitude que vem sendo observada em parte dessa população de 60+ reflete em melhorias na qualidade de vida, segundo especialista Luís Sérgio Sardinha – responsável pelo estágio em Psicologia no Centro Universitário Braz Cubas. Ele explica que atitudes positivas refletem “até mesmo na expectativa de vida das pessoas”. 

“Quando se tem planos, projeto de vida, e meta a ser atendida, isso naturalmente vai trazer um foco para o indivíduo, e, se realizar, vai aumentar a independência, autonomia, o que do ponto de vista da psicologia traz melhora da autoimagem, porque estar vivendo o desafio de estar envolvido em novo projeto, ajuda a ampliar o círculo social, evita isolamento e abre novoshorizontes. Tudo isso vai trazer prazer alegria de viver”, explica

Ele observa que essa mudança positiva de comportamento em pessoas mais velhas é algo que já vem acontecendo há algum tempo, especialmente por conta da promoção da saúde, que garantiu maior longevidade. A expectativa de vida da população no País é de 76,7. Hoje a pessoa de 60 é comparada a uma de 40 de anos atrás. 

Esse novo envelhecimento, na avaliação do especialista, representa “uma humanidade em evolução, uma visão que mostra um parâmetro de humanidade melhor e que o natural é a pessoa estar bem”. Além disso, os 60 mais vêm crescendo muitos nos últimos anos e querem deixar de ser um ônus para a sociedade para se tornar uma população com grande potencial de colaborar com a sociedade, inclusive com a economia.

O especialista cita ainda os benefícios com a inclusão desse público no mercado de trabalho pela capacidade acumulada de experiência, maior maturidade para enfrentar conflito e situação difícil.  Ele também aponta alguns dos motivos que faz com que muitos tenham um bom desempenho quando decidem voltar a estudar, por serem geralmente muito organizados e compromissados e acabam se destacando. Esse interesse por mais aprendizado chama atenção do setor educacional que percebe essa população como público alvo, abre espaço e até estimula a segunda, terceira especialização. A procura não é apenas por universidade de terceira idade, em especial, as mulheres, estão  entrando em cursos regulares, muitas vezes, vão fazer graduação e aperfeiçoamento e até terminar de fazer a formação básica, e assim que termina buscam novos cursos”, comenta.  

Um outro desafio é saber lidar com computado e internet, o grande diferencial na vida do idoso.  “Antes era estigma: os idosos não poderiam entender, mas eles aceitaram esses desafios, e hoje mostram que podem sim lidar com internet e tecnologia. Pode não estar no melhor nível, mas tivemos avanços”, reforça. O psicólogo alega que é errado taxar um idoso como invalida, limitada, dizer isso é etarismo – preconceitos de idade”.

 

No mercado de trabalho, mais atenção

A iniciativa privada e o poder público começam a olhar com um pouco mais atenção para essa população que quer se manter ou voltar ao mercado, especialmente pela resistência em deixar de trabalhar quando ainda se sente em pleno vigor físico e intelectual aos 60 anos, até porque a expectativa de vida no Brasil é de 76,7 anos e a projeção, como apontam os institutos de pesquisas, mostram que no futuro haverá mais velho do que jovens no País.

Existe, uma certa resistência para a contratação de idosos por parte das empresas por receio que não consigam acompanhar o ritmo da produtividade, fragilidade com a saúde, limitação com o computador, e dependendo da área de atuação, a capacidade de inovação, pode ser o grande diferencial.

Para quebrar algumas dessas barreiras, muitos desses idosos estão procurando estudos e formação não apenas para se manter, como também para retornar ao mercado. Tem uma grande parcela que busca habilidades e competências que segue como autônomos, pois encontram outras formas de continuarem na ativa.

Como profissional da área de Recursos Humanos, a psicóloga da NIC Agência de Emprego, Ivone Mello afirma que apesar da crise econômica que o País enfrenta nesse período de pandemia, as pessoas com mais de 50 anos que perderam seus empregos ainda podem ter oportunidades no mercado, especialmente se tiver capacitação.

No setor de indústria, que é especialidade da Nic, existe demanda para cargos como: Alta Gestão, Comercial, Ferramenteiros, Caldeireiros , Soldadores, Torneiros Mecânicos, que são profissionais altamente diferenciados e com bagagem técnica. 

Para ter maior facilidade e chances de inserção no mercado de trabalho, a profissional de Recursos Humanos (RH) orienta os candidatos a se manterem atualizado e conectado com uma rede de contatos.

Muitos candidatos com esse perfil procuram colocação, mas existe também uma grande demanda por pessoas com baixa qualificação.  Nesse caso, a maior parte delas busca por vagas em empresas terceirizadas que prestam serviços de limpeza para empresas e serviços públicos 

Além da capacitação, quando for em uma entrevista de emprego, Ivone explica que o candidato também tem que estar atento e se preocupar com a aparência física. “A apresentação pessoal é muito importante, como: cuidar da vestimenta (estar adequada ao cargo que está concorrendo), cuidados com cabelo, unhas, barba). Deve evitar exageros em maquiagem e acessórios, e ter cuidado com a postura, vocabulário, expressar-se com naturalidade e clareza”, orienta.

Na Winover, a procura por pessoas com mais de 51 anos interessadas em vagas de trabalho é de apenas 2,75%. O percentual é de 9,34% quando na faixa etária entre 40 e 50 anos.  A agência explica que não tem pré-requisitos de idade, mas busca um perfil mais universitário para algumas vagas, porém alega que as vagas administrativas são abertas a todos aqueles que se identificam a oferta, o que nesse caso, muitas vezes não depende da idade. Além de estar aberta a pessoas mais idosos, a Winover também está lançando uma campanha de vagas para pessoas com deficiência (PCD).