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Miled Cury Andere contou suas histórias na 2ª Guerra a O Diário

Releia a publicação do dia 26 de janeiro de 2003, que faz parte da série Entrevista de Domingo de O Diário. Na época, aos 82 anos, ele pretendia "trabalhar em muitos projetos", como no Rotary Club e diversas ações beneficentes

Carla OlivoPublicado em 16/01/2021 às 16:36Atualizado em 16/01/2021 às 08:33
Mogi das Cruzes lamenta o falecimento de Miled Andere /
Mogi das Cruzes lamenta o falecimento de Miled Andere /

Três semanas após completar 100 anos, o mogiano e ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, Miled Cury Andere, faleceu na tarde desta sexta-feira (15). Em memória a ele, um dos maiores defensores dos ex-combatentes que Mogi já viu, O Diário republica, em versão online, a Entrevista de Domingo com Miled, que saiu originalmente em versão impressa do jornal, no dia 26 de janeiro de 2003.

Leia a seguir, na íntegra, o texto em que ele, aos 82 anos, conta histórias vividas na Guerra, fala sobre seu trabalho e da ajuda ao próximo.

 ENTREVISTA - MILED CURY ANDERE

“Sozinhos não somos nada”. O espírito de equipe e companheirismo acompanha o mogiano Miled Cury Andere, 100 anos, desde os tempos de garoto. Ainda jovem, ajudava o pai, José Cury Andere, no armazém da família – Casa Andere – que ficava nas esquinas das ruas Coronel Souza Franco e Francisco Rodrigues Alves, e aos 21 anos, foi convocado pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) para defender a Pátria em companhia de outros 400 mogianos. Em 30 de junho de 1944 embarcava para a 2ª Guerra Mundial, na Itália, de onde voltou 10 meses depois, com muitas histórias para contar. Casado há 56 anos com Maria José, a Dona Zezé, ele é pai de Márcia Aurora, Miled Júnior e Maurício Guilherme, tem 13 netos e dois bisnetos – o terceiro nasce neste ano. Aprendeu a ler e escrever na escola da Dona Narcisa, em Mogi, e em seguida fez o 3º e 4º anos no Grupo Escolar Coronel Almeida. Depois de concluir o Ginásio em Taubaté, cursou a Escola Normal no antigo Colégio Estadual Dr. Washington Luís e formou-se em Administração Escolar e Orientação Educacional no Instituto Pedagógico de Ensino Industrial (Ipei), em São Paulo. Aposentou-se no Magistério após 40 anos de trabalho, em 1977, mas continuou atuando na área até 1990, quando completou 70 anos de idade. Lecionou Biologia no Instituto Dr. Washington Luís e no Liceu Braz Cubas e é um dos responsáveis pela instalação da Escola Técnica Estadual Presidente Vargas na Cidade, da qual foi o primeiro diretor e também orientador educacional. Em entrevista a O Diário, ele conta histórias vividas na Guerra, fala mais de seu trabalho e da ajuda ao próximo.

 O Diário – Como foi a convocação para a 2ª Guerra Mundial?

Miled Cury Andere – Conclui o ginásio, que tinha cinco anos, em Taubaté, em 1938. No ano seguinte, fiz o Tiro de Guerra em Mogi, que se chamava 120, na época do sargento Alcides Machado, que depois foi meu companheiro de guerra. Em 1941, iniciei meus estudos na Escola Normal Municipal, mas só fiz um ano e conclui o curso quando voltei da guerra. Em 1941 fomos convocados porque o Brasil tinha sido atacado por navios alemães e teve de declarar guerra, mas nem pensávamos que tropas iriam para a Itália. Primeiro ficamos em Caçapava e depois, o Batalhão foi para Taubaté. Fazíamos exercícios militares e não específicos para guerra. Eram longas marchas de 30 a 60 quilômetros, mas nem tínhamos conhecimento dos armamentos usados na 2ª Guerra.

 O Diário – Mas o grupo de soldados desconfiava que acabaria indo para a Guerra?

Miled – Ninguém acreditava. Nesta época, a missão americana veio ao País para transformar o Exército Brasileiro, que ainda tinha um modelo francês, bem diferente em número de homens e especialidades. Fui designado para ajudar nesta transformação porque falava e lia em inglês. Nesta missão, tive um contato muito grande com o tenente texano Vermon Walters, que falava português e comandava o trabalho. Aliás, recentemente, ele, que gostava muito do Brasil, veio para cá como embaixador da boa vontade do governo americano. Graças a este contato que tinha com ele fiquei sabendo que iríamos para a Guerra, mas não contei aos outros amigos. Um dia antes de embarcar, vim para Mogi e avisei meus pais e a Zezé, da qual já era noivo, de que sairia do Brasil, mas não revelei que iria para a zona de combate.

O Diário – Qual foi a reação?

Miled – Lembro-me que meu pai vendeu o armazém – Casa Andere – porque mesmo ficando em Caçapava todos os finais de semana, eu vinha para Mogi e o ajudava na parte contábil. Sozinho, ele não quis tocar o comércio. Naquele tempo, havia racionamento de produtos em Mogi e ele era o chefe do controle. Meu pai conseguia as cotas de açúcar, farinha de trigo e gasolina, que seriam distribuídas para venda.

O Diário – E como foi o embarque?

Miled – De Taubaté fomos para o Rio de Janeiro, onde ficamos acantonados dois meses na Vila Militar. De Mogi foram convocados mais de 400 homens e a maioria não acreditava que iria para a Guerra. No Rio, o embarque foi até engraçado porque no fundo do quartel da Vila Militar havia uma plataforma e no dia de nossa saída encostou um trem de passageiros e fomos avisamos de que faríamos um exercício de embarque e desembarque. Levamos somente o saco A, que trazia o material de uso imediato e mal sabíamos que o B, com o material de reserva e substituição, como roupas e equipamentos, já estava em um navio antes mesmo de nós. Este trem atravessou a Cidade do Rio, às escuras e com as janelas vedadas, portanto, víamos somente vultos e as pessoas de fora não enxergavam nada lá dentro. Ele parou no cais do porto, atravessamos cerca de 50 metros e já estávamos em um grande navio americano, o General Mann. Ao todo, éramos 5,2 mil homens do 6º Regimento de Infantaria. Depois, encontramos os demais brasileiros em um acampamento próximo a Pisa, passando antes por Roma, onde fomos recebidos pelo papa.

O Diário – E o primeiro combate?

Miled – Foi em Monte Plano, mas eu estava no segundo, próximo dali, na cidade de Camaiori. De lá em diante foram combates contínuos, quase todos os dias, até o inverno, quando eles cessaram e houve apenas patrulhamento. O frio de lá é rigoroso, chegando a até 20 graus negativos e, como não tínhamos roupas apropriadas, nos defendíamos enrolando jornal no corpo. Esta também foi a forma que encontramos de evitar o pé de trincheira, muito comum porque ficávamos no buraco da trincheira, em cima da neve de mais de meio metro. Os americanos iam para a enfermaria e algumas vezes, tinham até de amputar os pés. Já os brasileiros, enchiam o botinão de jornal e assim, conservavam o calor do corpo, da mesma forma como os pobres se protegiam do frio aqui.

O Diário – O senhor matava a saudade dos pais e da noiva por cartas?

Miled – Fiquei conhecido como o maior escritor do 6º Regimento porque escrevia cartas todos os dias. Como não era sempre que recebíamos correspondências, geralmente chegava um monte de uma vez só. Tenho arquivada uma quantidade enorme de cartas que me lembram muito daquele tempo.

O Diário – Na Guerra certamente muitos momentos ficaram marcados. Qual é o principal deles?

Miled – Um deles ficou marcado demais porque estava cobrindo um setor de linha de frente e tínhamos um posto avançado num ponto que dava visão deste setor. Eu era cabo chefe de peça e comandava 11 homens. Naquele dia, levava um companheiro para substituir outro no plantão e tínhamos de ir rastejando ou agachados, mas quando abaixei para entrar no posto, o companheiro que vinha atrás recebeu uma bala no ombro que saiu pelas costas. Na hora em que ele gritou e caiu, o levei para a retaguarda, de lá foi encaminhado ao hospital e voltou ao Brasil. Ele era de Campinas e três anos depois morreu por complicações causadas por aquela bala, que deve ter sido atirada para me atingir. Ficamos em combate durante 10 meses, até 8 de maio de 1945 e não me esqueci jamais destas cenas fortes da Guerra. Às vezes, estou sentado, assistindo a algum filme e vejo muitas situações e paisagens parecidas com aquelas. Aí, vem tudo na minha cabeça.

O Diário – O que foi mais triste na Guerra?

Miled – O dia em que o Hamilton Silva e Costa foi feito prisioneiro pelos alemães, mas segundo um de nossos companheiros, ele tinha sido ferido na casa onde estava. O Hamilton foi dado como desaparecido, mas morreu porque não recebeu atendimento médico. Neste dia, eu estava levando linha telefônica para o local onde o Hamilton estava e, no meio do caminho, encontrei um companheiro dizendo que a casa tinha sido invadida por alemães e, então, voltei para trás.

O Diário – Em que o senhor se apegava para manter a coragem?

Miled – O perigo me rondou inúmeras vezes, mas o latino é muito emotivo e a maioria católica, então, não fugi à regra e me apeguei muito às orações. Quando terminou a Guerra, foi uma verdadeira loucura porque acompanhamos este período todo com muita preocupação e, com a notícia da vitória, esperávamos ansiosos pela volta. Lembro que eu e alguns companheiros aproveitamos os dias de folga no Norte da Itália, para conhecermos Veneza e as divisas com a Alemanha e Suíça. De lá, fomos informados de que deveríamos voltar ao acampamento porque iríamos a Nápoles e voltaríamos ao Brasil. Era julho de 1945 e desembarcamos no porto do Rio. Foi uma apoteose, meus pais estavam lá e quando cheguei em Mogi, a Zezé me esperava. Nos casamos em março do ano seguinte.

O Diário – O senhor retornou aos estudos e tornou-se professor?

Miled – Como meu pai havia vendido a Casa Andere, fui dirigir um armazém em Cocuera, em sociedade com meu cunhado, onde fiquei quatro anos. Em 1950 vim para Mogi e comprei o Bar São Benedito, onde hoje funciona a Padaria Canadá. Eu e a Zezé voltamos a estudar na Escola Normal e, em 1952, comecei a lecionar Biologia no próprio Washington Luís. Também dava aulas no Liceu Braz Cubas e na Escola Presidente Vargas. Era uma verdadeira loucura. No final da década de 50, eu e um grupo de alunos do Instituto de Educação montamos o primeiro Banco de Sangue da Santa Casa de Mogi. Houve um acidente com um trem de passageiros em Sabaúna e os feridos vieram para a Santa Casa, que tinha muitas dificuldades para conseguir sangue. Então, fizemos um cadastramento das pessoas que podiam doá-lo e formamos o primeiro banco.

O Diário – O senhor sempre se preocupou em ajudar o próximo. Hoje, a quais trabalhos se dedica?

Miled – Às vezes sou chamado a ajudar e, agora mesmo, faço parte da comissão formada pelo prefeito Junji Abe para tentar levantar o crédito da Santa Casa, sendo que o hospital já está em franca reforma. Também fui ecônomo do Carmo e cuidava da parte financeira de lá. No Rotary Club entrei em 1952 e, em 1960, por causa do meu trabalho, tive de sair. Voltei em 1989 e ainda estou trabalhando lá, assim como na Associação Mogiana dos Expedicionários.

O Diário – No Brasil falta incentivo à importância histórica dos pracinhas?

Miled – No Brasil, a memória é curta e não há uma preocupação com os feitos e coisas do País. Não se vê mais nos grandes jornais da Capital nenhuma linha sobre o Dia da Vitória, o 8 de maio. Em Mogi, a gente ainda movimenta alguma coisa, mas é pouco. Ninguém toma mais conhecimento dos ex-combatentes, que de 400 na Cidade, hoje ficaram reduzidos a 30. Estamos trabalhando, junto com a Prefeitura e a Universidade Braz Cubas, transformando a Associação dos Expedicionários em Fundação Cultural, com a finalidade de deixar ali museus com bibliotecas da FEB, sendo que o espaço também pode ser utilizado em eventos culturais. Esta foi a forma encontrada para manter a memória da FEB em Mogi. Isso está em andamento, atualmente cuidamos da organização do estatuto e contamos com a grande colaboração do capitão Antonio Mendes, que foi instrutor do Tiro de Guerra de Mogi.

O Diário – Do que o senhor tem mais saudades?

Miled – De tudo na minha vida porque vivi tudo muito intensamente, então, todo meu passado é presente. Tenho muitas poesias e inclusive um livro montado que gostaria de lançar, mas ainda não tive tempo de concluí-lo. Na verdade, o prefácio começou a ser escrito por um ex-aluno e depois meu companheiro como professor, José Veiga, que morreu antes de terminá-lo e isso acabou me tirando um pouco o entusiasmo. É uma obra de ficção que traz também realidade. Conta a história de João Ninguém, que morreu abandonado pela vida em uma noite de frio, na marquise de uma loja, como indigente. Coloco-me como ex-combatente e conto muito do que aconteceu na Guerra neste livro chamado ‘Foi o Frio? Assim Morrem os Heróis?’. Estou escrevendo minhas memórias.

O Diário – O que mais o senhor pretende?

Miled – Aos 82 anos, ainda pretendo, se Deus permitir, trabalhar em muitos projetos como tenho feito no Rotary Club. Consegui vários equipamentos para a Amdem e Kombi para o Instituto Pró+Vida São Sebastião. Agora, queremos fazer uma parceria com um clube do Exterior para viabilizar um projeto de vulto. Minha preocupação maior é com o próximo porque eu já tenho tudo e não quero mais nada. Tenho minha casa, onde moro desde 1950, família e aposentadoria, que dá para a gente viver. Acho que esta preocupação com os outros é que me garante saúde, vitalidade e energia. Sempre digo que sozinhos não somos nada nesta vida.

  

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