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ENTREVISTA DE DOMINGO

Vítima da Covid, Geraldo Ferrugem contou suas histórias a O Diário

Relembre a entrevista do mineiro conhecido em Mogi e atuou em campanhas de políticos como Waldemar Costa Filho, Sebastião Cascardo e Junji Abe

Carla Olivo
24/03/2021 às 15:51.
Atualizado em 25/03/2021 às 12:26

(Arquivo O Diário - Eisner Soares)

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ENTREVISTA DE DOMINGO

Vítima da Covid, Geraldo Ferrugem contou suas histórias a O Diário

Relembre a entrevista do mineiro conhecido em Mogi e atuou em campanhas de políticos como Waldemar Costa Filho, Sebastião Cascardo e Junji Abe

Carla Olivo
24/03/2021 às 15:51.
Atualizado em 25/03/2021 às 12:26

(Arquivo O Diário - Eisner Soares)

Comerciante e ex-locutor de rodeio Geraldo Lopes, o Geraldo Ferrugem, é mais uma das vítimas da Covid-19 em Mogi das Cruzes. Ele faleceu nesta quarta-feira (25), aos 78 anos, após permanecer internado desde a semana passada na Santa Casa. Para homenageá-lo, O Diário republica na íntegra a Entrevista de Domingo com ele, que foi disponibilizada originalmente em 25 de janeiro de 2015.

Mineiro de Manhumirim, Geraldo Lopes, o Ferrugem, tem uma história de vida marcada por dificuldades e superações. Aos 3 anos, ficou órfão de pai (Claudio Lopes Nobua) e viu a mãe (Maria Reder Loubach Lopes) se desdobrar, trabalhando dia e noite, como cozinheira, lavadeira e na roça, para criar sozinha os três filhos. Quando fez 7 anos, começou a cuidar da horta, colher e vender frutas em uma fazenda para ajudar em casa. Teve oportunidade de estudar apenas até o terceiro ano primário e também trabalhou em padarias e farmácias até que, aos 16 anos, como a mãe já trabalhava em Campinas, decidiu vir para a Capital, só com a roupa do corpo e com alguns trocados, no meio da carga de um caminhão. Sem conhecer nada, pegou um bonde até a rodoviária e um ônibus que o levou ao encontro da mãe. Lá, trabalhou em restaurantes e, em 1963, foi convidado para ser cozinheiro no restaurante Galeto, que funcionava na Rua Braz Cubas, em Mogi das Cruzes. Assim chegou aqui, onde foi garçom na Cantina Mogiana e no Hotel e Restaurante Estância dos Reis, servindo tradicionais famílias e personalidades, como os ex-prefeitos Waldemar Costa Filho e Carlos Ferreira Lopes, conhecido como Nenê Lopes. Depois, teve bar às margens da Rodovia Mogi-Salesópolis e uma mercearia na Vila Paulicéia, em César de Souza. Após a falência, trocou o fogão à gás pela carroça e uma égua para sair pela Cidade vendendo verduras nas casas das famílias, restaurantes e no Mercado Municipal. Também entregou leite aos mogianos, foi caseiro do sítio do cirurgião dentista Miguel Nagib, na Volta Fria, teve depósito de sucatas no Rodeio, atuou como locutor de rodeio em festas de peão boiadeiro e animou bailes e forrós. Na entrevista a O Diário, Ferrugem, que atuou nas campanhas de políticos como Waldemar Costa Filho, Sebastião Cascardo e Junji Abe, compartilha suas histórias com os leitores:

Quais as lembranças de sua infância?

Nasci em Manhumirim, em Minas Gerais, e lá tive uma infância muito difícil. Com 3 anos perdi meu pai, que era dentista, na época em que não era preciso estudar para exercer esta profissão. Minha mãe trabalhava dia e noite, como cozinheira, lavadeira e escolhendo café na roça, para criar os filhos (Dalbino, Geraldo e Cleusa) sozinha. Ela cozinhou muito tempo no Colégio Feminino Alto Jequitibá. Foi um tempo complicado e lembro que aos 7 anos eu já trabalhava cuidando da horta, colhendos fruta e as vendendo na rua, na fazenda do seu Eduardo Gripp, que era de família tradicional. Fiquei lá até os 12 anos e depois trabalhei em padaria e farmácia. Por que a vinda para São Paulo? Aos 16 anos, como minha mãe já estava trabalhando em Campinas, decidi vir para cá. Com calça, camisa, sem cueca e descalço, subi na carga de um caminhão que carregava um material próprio para confecção da sola de alpargata roda e assim viajei de Minas a São Paulo. Tinha um trocado no bolso, mas quando cheguei à Capital, um guarda me mandou tomar um bonde até a rodoviária, onde teria o ônibus até Campinas. Mas na minha terra, tomar um bonde era sair de braço dado com uma moça, então, quando ele passou, fiquei pasmado, só olhando e não entrei. O guarda me questionou e disse que estava sujo e descalço, então não iria conseguir uma mulher para tomar o bonde. Ele riu muito, fez o próximo bonde parar e mandou que o motorista soltasse o caipira na rodoviária. Chegando lá, por coincidência, encontrei um pessoal de Minas, que conhecia minha mãe, sabia onde ela estava trabalhando e me levou até lá. Foi aí que comecei a vida em restaurantes de Campinas. Onde o senhor trabalhou? O primeiro foi o Restaurante Bonfim, no bairro de mesmo nome, onde era copeiro. Lá eu trabalhava, comia e dormia. Depois fui ser garçom no Restaurante do Rosário, aluguei uma casa, trouxe minha mãe para morar comigo e fui buscar meu irmão em Minas. Minha irmã Cleusa já estava casada. Vivi em Campinas até 1963, quando vim para Mogi, cidade que ainda não conhecia, convidado para trabalhar como cozinheiro no restaurante Galeto, na Rua Braz Cubas, que era do seu Amâncio Aires, também dono de padaria na Rua Ipiranga e na Avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco). Ali era uma churrascaria e eu ficava mais no preparo dos assados. Os principais pratos eram o galeto, lombinho e espeto misto de linguiça, frango e carne, tudo feito na brasa. Era um local muito bem frequentado, tanto na hora do almoço como no jantar. Fiquei lá um ano e meio, quando fui ser garçom na Cantina Mogiana, na Rua Dr. Deodato Wertheimer, que reunia as famílias tradicionais da Cidade e teve donos como o seu Giorgetti, Oswaldo, Miguel e Marques. O movimento ali também era grande e havia vários pratos do dia e o serviço à la carte. Lá atendi os exprefeitos Waldemar (Costa Filho), que na época ainda trabalhava na Mineração, e Nenê Lopes (Carlos Alberto Lopes). 

Há passagens por outros restaurantes?

Fui trabalhar como garçom no Estância dos Reis, do seu Carlos Barattino, que era um hotel e restaurante, com salão enorme e uma bela sacada, onde aconteciam as reuniões e eventos de fábricas como Elgin, Valmet e Aços Anhanguera. Ao redor, havia lago e muitas árvores. Era ponto de encontro das famílias, aos finais de semana, que às vezes iam lá apenas para passear. Ali houve muitos banquetes e o cozinheiro era o Paschoal. O restaurante servia excelentes pratos variados e ainda hoje não temos nada à altura do Estância na Cidade. Depois, o seu Barattino abriu o Piatto D´Oro, na Avenida, onde hoje está o Banco do Brasil, que também fez sucesso, mas aí mudei de profissão.

O que o senhor fez?

Fui trabalhar por conta própria como comerciante em um bar da MogiSalesópolis, km 15. Nesta época, eu e a Elena estávamos noivos. Nós nos conhecemos em 1964, em uma festa de casamento na casa de uma família, na Rua Dr. Deodato, namoramos um ano e nos casamos na 1ª Igreja Batista de Mogi, na Rua Barão de Jaceguai. Ela nasceu em Paraguaçu Paulista, mas veio para Mogi com 7 anos e na juventude trabalhou na Gutermann. Após o casamento, fomos morar na Vila Paulicéia, em César de Souza, onde abri uma pequena mercearia, mas acabei falindo porque foi na época em que a Mineração Geral do Brasil fechou e muita gente ficou sem emprego em Mogi. Troquei o fogão à gás pela carroça e uma égua aguada para vender verdura, que buscava na horta dos japoneses, em César e Braz Cubas, de porta em porta das famílias, restaurantes e no Mercadão. Só que a égua não aguentava e muitas vezes, eu a tirava da carroça e eu mesmo a saía puxando. Nesta época, morei no porão da Cháraca do seu José Duque, na Dr. Deodato, com minha mulher grávida. De dia trabalhava com a carroça e à noite pegava bico como garçom em um boliche perto da Praça das Bandeiras. Comprava só o suficiente para o almoço e jantar, desde o sal e banha para preparar a comida, e sempre dizia que o dia seguinte Deus proveria.

E depois?

Também vendi leite, que comprava na Leiteria Mogiana, na Rua Padre João, que engarrafava o produto trazido das fazendas, e o entregava nas ruas da Cidade. Ele era vendido em litro e quando chegava, os fregueses já o colocavam na caçarola para ferver. Foi nesta época que moramos no sítio do Miguel Nagib, onde fomos caseiros, na Volta Fria. Era 1968 e ainda não havia nem mesmo a Via Perimetral por lá. Ali eram realizadas várias festas, frequentadas por famílias tradicionais na Cidade, principalmente os turcos, que iam lá passar o dia e fazer pães árabes. O Waldemar e seu filho, o Boy (Valdemar Costa Neto, ex-deputado federal), estavam sempre ali.  

 Já que o senhor o conhecia, como avalia a situação do ex-deputado Valdemar hoje, após o episódio do mensalão?

Lamento o acontecido, mas não quero comentar isso, ele é meu amigo.

 Quais recordações ficaram do relacionamento com o ex-prefeito Waldemar?

Éramos amigos. Ele sempre foi uma pessoa enérgica, mas tinha uma visão lá na frente de tudo, era pau pra toda obra, um ótimo administrador e boa gente. Com ele, o sim era sim e o não era não. Não havia meio termo. Sempre fui cabo eleitoral dele, ajudava na campanha sem ganhar um tostão, mas quando ele entrava na Prefeitura ia lá pedir melhorias para o Bairro. Outro grande amigo dele que sempre trabalhou assim era o Batista Batistaca, que tinha vacas no Mogilar e também vendia leite na Cidade. Desde a primeira eleição, o Waldemar foi apoiado pelos turcos que dominavam o comércio mogiano. Também trabalhei na campanha do seu sucessor, Sebastião Cascardo, e na disputa de 1982, quando o Waldemar apoiou o Junji Abe para prefeito e o Miguel Nagib como vice. Nesta época, eu já morava no Rodeio, onde tive depósito de sucatas durante 10 anos e os comícios políticos aconteciam ali em frente. Uma vez, peguei o carro e saí pela Cidade anunciando que os mogianos não perdessem o cantor Sérgio Reis, no Rodeio. Lotou, mas como não havia show, na hora, passei o filme ´O Menino da Porteira´. Alguns reclamaram, mas no final deu certo. Só que o Junji e o Miguel, que eram da Arena, perderam a eleição e o Machado (Antônio Carlos Machado Teixeira), do PMDB, assumiu a Prefeitura. Nesta época, até mudei de Mogi.

Onde o senhor foi morar?

Em 1983, fui morar no Sítio Beira Céu que havia comprado em 1980, em Biritiba Mirim. Lá plantava verduras, maracujá, banana e outras frutas, tirava leite das vacas para vender, fazia queijo e ferrava e domava cavalos. Foi nesta época que comecei como locutor de rodeios em festas do peão de Salesópolis, Biritiba Mirim, Paraibuna e outras cidades, onde também animava bailes e forrós. Quase fiquei famoso, mas chegou uma época em que tive que escolher entre ficar nesta vida ou manter a família, que para mim sempre foi o mais importante, então parei com as festas. Em janeiro de 2013, tive um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e morava a 10 quilômetros da Cidade, então, decidimos voltar para o Rodeio, onde em novembro do mesmo ano sofri outro AVC. Hoje faço fisioterapia em casa e estou bem melhor.  

Quais suas distrações?

Gosto de jogar dominó, fazer caçapalavras e ler a Bíblia. Assisto pouco à televisão, mas como sou palmeirense, não perco um jogo do meu time.

O senhor está no Rodeio há anos. Como avalia o desenvolvimento do Bairro?

Antes, tudo por aqui era uma grande fazenda que pertencia à dona Maria Rodrigues. Quando cheguei, em 1969, não havia quase nada. Comprei um terreno, fiz a casa simples, uma das primeiras da rua, e abri o depósito de sucata. Fui um dos primeiros nesta área de reciclagem no Bairro. Não existia rede de esgoto e iluminação nas ruas, que eram todas de terra. Usávamos lampião ou lamparina em casa. Tínhamos poço, mas em frente ao armazém do Tortelli ficava uma torneira onde o pessoal ia buscar água potável vinda da Serra. Também não tínhamos televisão em casa e meus cavalos e vacas viviam soltos pela rua. O ônibus só passava duas vezes por dia para o Centro da Cidade. No primeiro mandato do Waldemar, ele construiu a escola Maria Rodrigues, colocou água e energia elétrica no Bairro. Depois disso, ele foi crescendo e hoje temos tudo por perto. Antes, para fazer compra era preciso ir aos armazéns de secos e molhados do Tortelli, no próprio Rodeio; do comerciante Valdemar, na Ponte Grande; ou do Seki, na Perimetral, para comprar arroz, feijão, farinha e outros produtos, que ficavam em sacas e eram pesados na hora. Não havia nada em pacotes de 1 ou 5 quilos. A comida era preparada com banha, porque não havia óleo. Só existia sal grosso e as mulheres lavavam roupas na mina.

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