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ESPECIAL MISTÉRIO

A esperança de uma mãe de Mogi: mais um caminho para achar Kennedy

Projeto internacional que cadastra o DNA de desaparecidos é a nova esperança de Divanei, a mãe de Mogi que nunca desistiu de procurar o filho

Natan Lira e Darwin Valente
11/04/2021 às 11:13.
Atualizado em 11/04/2021 às 12:23

“Eu acredito que ele está aí em algum lugar", diz a mãe Divanei Pereira (Foto: Eisner Soares / O Diário)

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ESPECIAL MISTÉRIO

A esperança de uma mãe de Mogi: mais um caminho para achar Kennedy

Projeto internacional que cadastra o DNA de desaparecidos é a nova esperança de Divanei, a mãe de Mogi que nunca desistiu de procurar o filho

Natan Lira e Darwin Valente
11/04/2021 às 11:13.
Atualizado em 11/04/2021 às 12:23

“Eu acredito que ele está aí em algum lugar", diz a mãe Divanei Pereira (Foto: Eisner Soares / O Diário)

Trinta e cinco anos separam a tarde de 11 de abril de 1986 e este fim de semana, quando completa-se mais um aniversário de desaparecimento do então garotinho Kennedy Robert Pereira, aos quatro anos, em Mogi das Cruzes. Para a mãe dele, Divanei Pereira, 57, que nunca desistiu de procurá-lo, o filho foi levado por um grupo e vendido a algum casal de fora do Brasil. Três décadas e meia depois, ela se agarra nessa possibilidade e acredita que a maior ferramenta na busca por Kennedy está em projeto internacional que cadastra o DNA de desaparecidos e dos familiares que buscam por alguém nessa situação, a “My Heritage”.

“Eu acredito que ele está aí em algum lugar, de repente sem saber que foi raptado, que não é filho das pessoas com quem ele foi criado. Mas depois de tanta mídia e de nunca termos desistido de procurar, eu acredito que ele não está mais no Brasil. Deve ter sido levado para outro país. Já vi entrevista de pessoas que vendiam crianças, e ele tinha o perfil que elas procuravam: branco, dos olhos claros”, conta a mãe.
Foi o que Divanei contou ao diretor de TV e criador e diretor da série Desaparecidos,  Anderson Jesus, enquanto ele gravava um episódio sobre o caso de Kennedy. O episódio, hoje disponível na Netflix, trouxe imagens gravadas em Mogi das Cruzes e do acervo de O Diário.

“Quando nós fizemos a terceira temporada desta série, estivemos em Israel para contar dois casos que pessoas que descobriram que tinham sido traficadas ainda pequenas e procuravam seus familiares no Brasil. Eles descobriram que, ao menos, três mil haviam sido traficadas na década de 1980 para Israel, por isso criaram um banco de dados de DNA para facilitar a ligação entre pais e filhos”, detalha Anderson. 
Em 2018, já de volta ao Brasil, Anderson conseguiu testes de DNA com uma empresa brasileira que topou ajudar as famílias que tinham parentes desaparecidos. Um dos kits ele direcionou aos pais de Kennedy. Até o momento, o exame não positivou para nenhum dos filhos que procuram por pais, mas ele continua disponível.

“Na minha opinião, o Kennedy está lá na fora. A gente fez esse teste com os pais dele por acreditar nessa hipótese. Esse teste já está sequenciado e está no Banco de dados deles. Por exemplo, uma criança na Europa é adotada e já cresce sabendo disso. Se depois ela quiser descobrir quem foi a mãe, se entrar no banco de dados pode aparecer a possibilidade de ser a Divanei. Todas as pessoas que fizerem o teste, pode aparecer uma compatibilidade com pessoas de até quatro, cinco graus”, explica Anderson.
Assim como em duas ocasiões, Divanei recebeu, por contatos, pessoas que poderiam ser o Kennedy, ela agora espera que venha dessa plataforma internacional a informação de que Kennedy foi encontrado.
“Se ele estiver em outro país, um dia ele vai nos encontrar. Mas são muitas pessoas ajudando a gente. Uma hora, mais cedo ou mais tarde, eu vou abraçar de novo o meu filho”, enfatiza.

Sobre a investigação do desaparecimento, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP) informou que a Polícia Civil de Mogi das Cruzes registrou e investigou o caso pelo 1° Distrito Policial da cidade. O inquérito policial será reaberto para mais diligências, caso novos fatos ou informações forem descobertos.

Uma esperança que nunca termina; Darwin Valente é testemunha da história

Editor de O Diário relembra os passos para encontrar o menino desaparecido em Mogi para desvendar um mistério que até hoje não foi resolvido

Marcelo e amigos no lar onde morava, a despedida e posando para a foto (Arquivo)

O avião da Varig taxiou por alguns instantes, antes de se alinhar em uma das pistas do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, para levantar voo com destino a Maceió, em Alagoas. Em seu interior, os mogianos Pedro e Divanei Pereira partiam para descobrir se um garoto que vivia em abrigo para menores, na periferia da capital alagoana seria o seu filho, Kennedy Robert Pereira, desaparecido da casa dos avós, no bairro da Ponte Grande, em Mogi, dez anos antes.

Estávamos em maio de 1996 e desde o sumiço do garoto de 4 anos, de maneira misteriosa, em 1986, o casal vivia embalado pela esperança de reencontrar o filho. Eram tantas as informações, geralmente falsas, sobre o paradeiro do menino, que levaram Pedro a abandonar o trabalho numa empresa da cidade para se dedicar à busca desesperada pelo filho, jamais encontrado.

Aquela viagem para Maceió, no entanto, parecia diferente de todas as outras pistas falsas seguidas pela família. Pela primeira vez, havia indícios reais de que o menino de nome Marcelo dos Santos Rocha pudesse realmente ser o garoto que Pedro e Divanei tanto procuravam.

A verdadeira aventura do casal rumo a Alagoas havia começado dias antes, quando Divanei recebeu uma ligação de uma senhora de Maceió, que viu a foto de Kennedy num programa de televisão e notou as semelhanças físicas entre ele e o garoto Marcelo, que vivia em sua casa, um abrigo para crianças e jovens abandonados por familiares. Divanei ficou ainda mais impressionada ao receber, pelo correio, uma foto de Marcelo que realmente se assemelhava muito a um retrato do filho, feito pela Polícia de São Paulo, que mostrava como ele seria aos 14 anos de idade. Outro indício forte de que Marcelo e Kennedy poderiam ser a mesma pessoa: o garoto tinha uma cicatriz num dos pés, corte idêntico ao de seu filho, que ferira o pé, brincando, em casa.

Divanei precisava viajar para Alagoas e, diante das circunstâncias, decidiu apelar para o jornal que sempre estivera ao lado da família na busca pelo filho. Um contato com o diretor comercial da época, Tunico Andary, em menos de uma hora resolveu tudo. A família e este repórter viajariam com o patrocínio da Hélio Borenstein Empreendimentos e da Mito Turismo. 

Foi desta forma que nós três chegamos ao modesto aeroporto de Maceió, no começo da tarde daquela quarta-feira, dia 9 de maio de 1996. E a primeira surpresa veio logo no primeiro encontro de Pedro e Divanei com Marcelo que, com a responsável pelo abrigo, dona Marinita, foi recepcionar os visitantes, próximo à pista. Havia uma incrível semelhança nas fisionomias de Marcelo e Divanei, principalmente no formato dos rostos. Foi comoção pura. De um lado, o casal que poderia estar prestes a recuperar o filho perdido; de outro, o menino que vivia, naquele momento, a expectativa de conquistar o lar que nunca tivera.

Dali, fomos para a casa de dona Marinita, um lugar especialmente movimentado pela presença de mais de uma dezena de crianças que eram cuidadas por aquela senhora, conhecida por toda a cidade.

Marcelo logo se aproximou de Divanei, que não lhe negou o carinho de mãe. Olhos marejados pelo choro constante, ela confessava ao repórter acreditar que Marcelo seria mesmo o seu filho tão esperado.  A tarde de emoções terminou com uma decisão: era preciso trazer Marcelo para Mogi, onde seria submetido a um teste de DNA, na UMC, para esclarecer o caso em definitivo.

Mas, antes, seria necessário obter uma ordem judicial, a ser buscada no dia seguinte. E, no Fórum de Maceió, mais uma surpresa: com o Judiciário em greve, como conseguir a autorização? Depois de muita procura, o juiz da Infância e da Juventude de lá, impressionado com a incrível história que lhe foi contada pelos visitantes, concordou em conceder a ordem para que o garoto viajasse.

Enquanto se aguardava a burocracia forense, houve tempo para se conhecer os locais onde Marcelo vivia na cidade. Eram, todos eles, abrigos para menores desamparados. E neles, foi possível constatar que o garoto havia conquistado amigos, funcionários e diretores com sua simplicidade e carisma. Ele era uma espécie de nômade. Acostumado a ir de um canto a outro da cidade, de tempos em tempos ficava num desses orfanatos. Mesmo com pouco tempo de estudos, Marcelo gostava de escrever poesias e outros textos relatando histórias. Entre elas, a sua própria. 

Contava que havia nascido em São Paulo e que, ainda criança, conseguiu chegar até Alagoas pegando carona com caminhoneiros, em postos de beira de estradas.

Enquanto, em Maceió, eram feitos os preparativos para a viagem de volta, as notícias sobre o possível encontro de Kennedy, mostradas diariamente por este jornal e pela antiga Rádio Diário, mexiam com Mogi. O retorno da família Pereira com o garoto, que poderia ser o seu filho, era esperado com muita expectativa por toda a cidade.

A viagem de volta aconteceu num final de tarde de sábado e, na chegada, já à noite, na Ponte Grande, outra grande surpresa: foi preciso muita manobra para que a viatura da emissora, que trazia Pedro, Dinavei e Marcelo, conseguisse vencer o grupo compacto de pessoas, na rua da residência da família Pereira. Eram centenas que aplaudiram quando os três desceram do carro e entraram na casa.

Diante da grande quantidade de gente, Marcelo decidiu mostrar quem realmente era: subiu num pequeno muro diante da casa e anunciou: “Hoje eu estou muito feliz e por isso, vou cantar para vocês!” Da voz alta e quase estridente, saiu “Estrada da Vida”, sucesso da dupla sertaneja Milionário & Zé Rico. O público delirou, cantou junto, e ele aproveitou para emendar um pequeno discurso de agradecimento.

O domingo foi para conhecer a nova família. Na segunda, logo de manhã, Marcelo pôde comprovar que virara celebridade em Mogi. A caminho da Rádio Diário, para a primeira entrevista na cidade, ele e Divanei foram surpreendidos com a oferta de uma bolsa de estudos por uma escola de inglês. Durante o programa, o gerente de loja do centro ligou para oferecer uma bicicleta ao garoto. E vieram inúmeros outros presentes nos primeiros dias de Marcelo em Mogi. A nova expectativa, a partir daí, girava em torno do resultado do exame de DNA, que sairia dentro de mais algumas semanas, com o frustrante resultado: Marcelo e Kennedy não eram a mesma pessoa.

Divanei e Pedro adiavam, mais uma vez, o sonho de reencontrar o filho, mas decidiram adotar Marcelo.  
Mas a vida controlada, dentro de casa, não era o forte do garoto. Acostumado a perambular, livre, pelos bairros rurais e praias de Maceió, ele ficou só mais um tempo em Mogi, antes de decidir voltar para o Nordeste.

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