SOLIEDARIEDADE

No Hospital de Campanha de Mogi, em meio à angustia, a alegria e gratidão

Equipe que atuou no hospital faz sinal de gratidão com a saída dos últimos pacientes. (Foto: Eisner Soares)
DEVER CUMPRIDO Uma das equipes que atuou na unidade de campanha faz o gesto de agradecimento após a transferência dos dois últimos pacientes na última segunda-feira. (Foto: Eisner Soares)

“Trabalhar em um hospital de campanha é uma montanha-russa de sentimentos, que mistura desde angústia e estresse à alegria e gratidão. Nenhum profissional da saúde estava preparado para viver uma pandemia, com o mundo praticamente desabando, porém, saímos dessa mais fortes. A Covid-19 pode fazer um paciente internado piorar repentinamente. Ver essas pessoas retornarem para suas famílias é o que nos motivava aos próximos plantões e aos meses longe de nossa própria família”. Assim a enfermeira Érica de Cássia Laurindo, de 43 anos, descreve os mais de 130 dias em que atuou e coordenou diferentes setores do Hospital de Campanha de Mogi das Cruzes – desativado na última semana após queda de internações no município.

Érica reside na cidade há sete anos e atua no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes (HMMC). Quando foi informada que seria remanejada para a unidade de campanha teve um choque. No começo acreditou que não conseguiria dar “conta do desafio”. Porém, segundo ela, graças a todo o apoio que recebeu dos demais colaboradores hoje soma conquistas: em três meses de operação, nenhum óbito foi registrado no equipamento. “Isso graças a atenção dada aos pacientes. Em qualquer sinal de agravamento estávamos pronto para agir ou para uma transferência”, explica.

Outro ponto é que, dos quase 200 profissionais que atuaram dentro da unidade, apenas três foram contaminados pelo novo vírus. “A infecção é muito comum dentro destes ambientes, mas, os protocolos de segurança eram seguidos a risca e cuidávamos uns dos outros”, comenta, ao acrescentar que também não faltaram equipamentos de proteção.

Ela lembra que trabalhou nos preparativos do hospital desde abril, antes da ativação oficial em 24 de maio. Atuou em diferentes áreas, desde o atendimento às famílias, ao gerenciamento do fluxo de pacientes. De lá para cá, ela, assim como os demais colaboradores, assumiu diferentes sacrifícios, como deixar de visitar a família pelo risco de contágio, ou de ser acometida pela Covid-19. “Mas nestes meses, o foco de todos nós estava em ajudar o paciente”, relata. “Agradeço muito a dedicação de todos que estiveram no hospital, alguns dos quais, tiveram de se afastar dos próprios filhos por meses”, acrescenta.

Érica Laurindo diz que convivência diária gerava laços. (Foto: Arquivo Pessoal)

No hospital atendeu desde pacientes com 23 anos até com mais de 90 anos. “Cada pessoa tinha uma história única e o convívio diário gerava laços”, diz ao lembrar que todos os internados deixavam o local sob aplausos.

Eram nestes momentos que um paciente deixava o hospital, que as equipes médicas recebiam os elogios e gratidões de cada família. “É um sentimento difícil de explicar, o lado bom desta loucura toda”, lembra Érica.

Um dos objetivos das equipes do equipamento era investir no suporte familiar, entrando sempre em contato com parentes dos pacientes para mantê-los informados. Assim, mesmo os pacientes mais idosos conseguiam uma ligação de vídeo com os filhos e netos. “Ninguém ficava sozinho lá dentro, esse é um diferencial das unidades de campanha, onde a interação, inclusive entre as pessoas internadas, é maior. Apesar do frio, lá se tornou um ambiente acolhedor”, destaca.

Hoje, apesar do trabalho árduo, das noites acordadas e do estresse com problemas pontuais, ela se emociona ao lembrar dos laços de amizade que construiu durante a jornada. “Por mais aliviante que seja saber da desativação, a notícia também trouxe uma pequena dor no coração”, conta Érica.

Por último, a enfermeira reforça o apelo à população. “Ainda não é hora de sair de casa sem necessidade e se expor à Covid-19. Essa irresponsabilidade pode contaminar inocentes. É uma falta de respeito com a história daqueles que após muita luta conseguiram superar a doença”. Acrescenta que a pandemia não deixou de ser perigosa, mas que ela “pode ser controlada com a colaboração de todos”.

Hospitais

Duas cidades do Alto Tietê já desativaram os hospitais de campanha. Outros cinco municípios ainda mantêm as atividades.

Além de Mogi, a unidade de Poá foi desmontado no último dia 31. Segundo a Prefeitura, a justificativa é a queda de contágios do novo vírus.


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