Nesclar Faria Guimarães

Figura emblemática a de Nesclar Faria Guimarães, que hoje dá nome a uma rua do Mogi Moderno e ao campo da AA Comercial. A Avenida Narciso (de igual sobrenome) saúda seu filho. De estatura baixa, muitas vezes complementando a vestimenta do terno claro por uma gravata borboleta, foi vereador em Mogi das Cruzes por duas legislaturas seguidas (de 1960 a 1969). Legou ao filho Narciso o patrimônio eleitoral que lhe permitiu eleger-se por três vezes seguidas, para as legislaturas de 1969 a 1983. O filho, por certo, teria ido em frente não lhe surgisse um imprevisto: morreu durante a construção da Mogi-Bertioga, em um acidente com a camioneta na qual, ao lado de outros políticos, visitava as obras da estrada.
Nesclar era o vereador típico dos velhos tempos. Não lhe apetecia o exercício da política partidária. Nunca me disse isso, mas a impressão que legou é a de que seu partido eram seus eleitores. Na residência da esquina das ruas Coronel Souza Franco com a Manoel Caetano, uma campainha à direita da porta era permanentemente atendida por ele próprio. Na maioria, tocavam-na funcionários municipais, sua base eleitoral. Vez ou outra tocava eu, em busca da confirmação de uma notícia ou apenas para saber o que havia ocorrido no gabinete do prefeito, que então funcionava no casarão da José Bonifácio. Ou no Depósito Municipal da Rua Otto Unger; também para descobrir, por antecipação, como ele votaria no processo de impeachment que a Câmara (abrigada no Teatro Vasques) se preparava para decidir quanto ao mandato do prefeito.

Nesclar também aparecia, não raras vezes, na redação de O Diário de Mogi (Rua Barão de Jaceguai, 388) para um dedo de prosa com Tote Da San Biagio, Moura Santos e Nicanor Paraguassú. Para mim, adolescente tentando aprender com os mais velhos, era gratificante ouvir as conversas que eles permitiam.

Foi numa dessas visitas ao jornal que ele contou do plano de ir ao Rio de Janeiro para uma audiência com autoridades federais para tratar da questão envolvendo a Mineração Geral do Brasil. Então joia da coroa do império dominado pela família Jafet, a empresa entrara em insolvência com a decisão de lhe fechar as linhas de financiamento imposta pelo governo militar surgido em 1964. À época maior empregadora em Mogi, a paralisação da MGB lançou a Cidade em uma crise que atingiu operários, familiares e, por consequência, o comércio e as atividades de serviço por aqui.

Ouvi a conversa e lhe perguntei se eu poderia acompanhá-lo. Disse que sim, iríamos em uma perua Rural Willys da Prefeitura, dirigida pelo Formiga. Era esse o apelido do motorista que dava plantão no Depósito Municipal e, vez por outra, tinha o privilégio de dirigir o carro oficial do prefeito: um Dodge preto da década de 1950.

Fomos no dia combinado, um périplo de mais de 8 horas até o Rio de Janeiro, por uma Via Dutra ainda não duplicada. Não me lembro quem eram as autoridades que ele visitaria, mas tenho a recordação viva de que nenhuma delas estava no gabinete devido à hora aprazada. Peregrinamos por corredores e salas de espera inutilmente. Nesclar decidiu então ficar no Rio para voltar a insistir na razão da viagem. Formiga disse-lhe que precisava voltar a Mogi. Eu voltei junto, mais 8 horas pela via Dutra não duplicada.

CARTA A UM AMIGO

O Ford 52 de Dito Lopes

Meu caro Dito Lopes

Lembra-se que, em 1982, no salão de festas de um prédio no Bairro das Perdizes, em São Paulo, aproximei-me de você? Corria ali o aniversário de uma sobrinha neta sua. Apesar de nossa diferença de idade, você contemporâneo dos meus pais, sempre nos relacionamos como iguais. “Dito, me conte uma coisa: se o seu pessoal ganhar as eleições deste ano, nós poderíamos fazer uma fogueira no Largo da Matriz com o seu velho Ford?” perguntei-lhe. Você esbugalhou os olhos. “Não, isso não, fico mesmo com o foguetório”.

Você, Benedicto Ferreira Lopes, foi uma figura incrível. Só mesmo o tendo conhecido para poder entendê-lo. Era baixo e usava cintos surrados, quase sempre abaixo de uma cintura pouco proeminente. Não, nada que se relacione a desleixo. Você simplesmente não tinha vaidade alguma, exceção feita aos sobrinhos, aos quais dedicou atenção imensurada. Fez o Ginásio e o Científico no Colégio Arquidiocesano, em São Paulo. Foi contemporâneo de um estudante, este sim desleixado, do qual se tornaria muito amigo. O colega chamava-se Jânio da Silva Quadros e deixou o Arquidiocesano para ingressar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Você, pelo contrário, seguiu o conselho do pai e entrou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, para ser engenheiro. O pai, imigrante português com pendores políticos, queria fazer de você um engenheiro que prosseguisse com os negócios da família na construção civil. O pai chamava-se Francisco Ferreira Lopes, o ex-prefeito de Mogi, Chico Lopes. Aquele mesmo do “o cafezinho é meu”, frase que repetia a tantos quantos encontrasse nos bares da Cidade.

Mas você, Dito, não levou até o fim a Politécnica. Deixou-a no segundo ano e aventurou-se pela mineração. De suas lavras de argila tirou uma fortuna avaliada, quando de sua morte em 1990, em US$ 50 milhões. Fortuna feita de decretos de lavra, imóveis e joias. Os imóveis fizeram de você, por muitos anos, o maior contribuinte do IPTU em Mogi. As joias as arrematava nos leilões de penhores da Caixa Econômica; algumas delas, distribuía nos aniversários às suas sobrinhas-netas.

Mas que não se tocasse no seu Ford 52. Era marrom e, em 82, já estava desbotado. Você me contou que o comprou novos 30 anos antes e com ele ficou até o final. Em 1982 já não o usava mais, havia optado por um Opala. Mas o Ford 52 continuava lá, estacionado ao lado da Madeireira Santana, na Rua Dr. Deodato Wertheimer, propriedade da família. Era ali também o seu escritório, com acesso pelos fundos à casa onde morou toda a sua vida, na Rua Moreira da Glória. Você e dona Jardelina de Almeida Lopes, sua mãe que, viúva, deixou o casarão que ocupara com o marido Chico Lopes na esquina da Deodato com a Ricardo Vilela, onde hoje há um posto de gasolina. E dona Jardelina foi morar com o filho Dito.

De uma família por cujas artérias sempre circulou o sangue da política, você nunca quis se candidatar a nada. Mas nunca se furtou a ajudar amigos e parentes em suas aventuras políticas. Em 1972, por exemplo, com o sobrinho Jacob candidato a vice-prefeito, desembarcou no comitê da campanha, abrigado na esquina da Avenida Pinheiro Franco com a Rua Isabel de Bragança, com uma mala de dinheiro trocado. Depositou a mala em uma mesa feita de cavaletes e uma tábua e foi embora. Deixou ali um assustado advogado de nome Andrade Figueira, que correu orientar aos presentes para que escondessem o dinheiro. Em outra ocasião, pediu ao sobrinho Antônio Carlos Lopes que levasse a Jânio Quadros, candidato a prefeito de São Paulo, um cheque com sua contribuição. Antônio Carlos foi ter, então, à casa que Jânio ocupava no Alto de Pinheiros. Entrou pelo corredor lateral e chegou ao escritório nos fundos da casa. Disse a Jânio que era emissário do tio e passou-lhe o cheque dobrado. Jânio nem o desdobrou, para ver o valor, antes de guardá-lo no bolso do pijama. O ex-presidente pediu ao emissário que agradecesse a Benedicto (enfatizando o “c”) e o dispensou. Até hoje Antônio Carlos tem dúvidas se o pijama não acabou lavado junto com o cheque.

Quanto às joias, ainda há mistérios na cabeça dos seus sobrinhos e herdeiros. Um deles recordava-se, há algum tempo, que após a morte do tio uniram-se todos e foram em comitiva à casa da Rua Moreira da Glória, levando a tiracolo o Zé Chaveiro. Especialista em fechaduras que pontificou durante muitos anos em Mogi das Cruzes, Zé Chaveiro por certo conseguiria abrir o cofre que tio Dito mantinha em casa e, assim, franquear aos sobrinhos o tesouro arrematado nos leilões da Caixa Econômica. O cofre, é bem verdade, Zé Chaveiro abriu. Mas as joias… havia ali apenas uma caneta Bic.

Você, decididamente, não gostou da ideia de fazer uma fogueira com seu Ford 52. Mas não perdeu a oportunidade de uma brincadeira com os sobrinhos. Deixou-lhes US$ 50 milhões e uma caneta Bic. Sem tampa e de carga no fim.

Só mesmo conhecendo você.

Um grande abraço do

Chico

O MELHOR DE MOGI

Pessoal da velha guarda – e da velha política – que só empenha a palavra quando pode cumpri-la. Sabe que o fio do bigode ainda é o melhor avalista da honra.

O PIOR DE MOGI

Então, vereador Antonio Lino, presidente da Câmara Municipal: nenhuma palavra acerca da denúncia feita por seu colega, Iduigues Ferreira? O vereador que, acidentado com carro da Câmara em um fim de semana, garantiu que todos os outros vereadores usam carro fora de agenda.

SER MOGIANO É….

… ter sido aluno de dona Geralda no Grupo Escolar Coronel Almeida.


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