INSTRUMENTAL

Música, o refúgio de Juliana Rodrigues

(Foto: divulgação)

Assim como dizer que é preciso “se reinventar”, pode parecer clichê afirmar que alguém fez um “mergulho interno” ao longo dos últimos meses de pandemia. Mas, de certa forma, essa é a expressão que melhor resume pelo o que passou a pianista mogiana Juliana Cardoso Rodrigues, que de momentos de dor e isolamento extraiu criação. O resultado poderá ser ouvido em breve, num disco novo, cuja produção se aproxima do fim.

QUASE PRONTO Criado de forma natural e inesperada, ‘Vive’ e suas reflexões ainda não têm data de lançamento, mas Juliana Rodrigues deve divulgar um single ainda neste ano

Voltando no tempo, antes da pandemia – na verdade, desde 2018-, a agenda de Juliana estava bem concorrida. Além das muitas aulas de música, particulares e em escolas, ela pôde ser vista em diferentes palcos, dos quais merecem destaque o ‘Instrumental Sesc Brasil’ e também o ‘Festival Internacional Jazz al Este’, realizado no Paraguai.

Como a artista conta, essas e outras oportunidades surgiram com convites possibilitados pelo disco ‘Mnemosine’, lançado por ela 2018, com sete canções autorais. Dois anos depois, seria natural imaginar que ela estivesse pensando numa sequência, um novo disco ou EP. Mas não era esse o foco.

Quando ainda em viagem a trabalho no exterior, Juliana e seus companheiros de trio (Abner Paul na bateria e João Benjamin no baixo) começaram a experimentar ao vivo três músicas que até então não tinham registro em estúdio.

Acontece que a mogiana tinha algumas horas de crédito no estúdio onde gravou ‘Mnemosine’, e retornando a São Paulo tratou de agendar uma data para oficializar as canções. Até aqui, não havia proposta de um disco, o que viria a mudar em algumas poucas horas.

Quando Abner e João sugeriram mais canções, estabelecendo ao menos um solo de cada um, Juliana já tinha em mãos um EP. Então porque não improvisar duas canções ao piano, de maneira leve e casual, e transformar todas as ideias num disco novo, mais experimental e criativo?

Sem encontrar motivos para responder “não” a esta pergunta, Juliana lembrou do poema que escreveu para uma das canções do primeiro CD, ‘Afrinco’, e tirou de sua última palavra o nome para a nova produção. “Tão relativo o tempo / para quê se ater tanto / a um mero marco? Para quê medir tanto / quando foi, se já foi, se já é? / Vive”.

‘Vive’, portanto, é um disco que não foi pensado para ser disco. Mas sem dúvidas é uma continuação da trajetória autoral da pianista. “Não posso dizer que não é uma continuação. Ele faz parte da minha história, mas é diferente de ‘Mnemosine’ em muitos aspectos”, começa a explicar a autora do projeto.

Além de características conceituais há diferenças práticas. “A gente vê nele maior instrumentação, por exemplo”. Também há algo inspirado em ‘Som da Aura’, de Hermeto Pascoal. “Fazemos música por cima da fala de alguém”, explica Juliana, sobre canções que sugerem melodias sobre as vozes da avó dela, já falecida, e também das políticas Marielle Franco e Talíria Petrone.

É a partir deste ponto que fica visível toda a reflexão da artista. Enquanto o disco de estreia falava sobre a personificação da memória enquanto inspiração, ‘Vive’ celebra não apenas o passado, que nos formou até aqui, mas também o hoje, a vida. “O desejo que minha mãe vivesse”, resume Juliana.

Falecida em abril último, a mãe de Juliana deixou um grande abismo em sua vida. Daí o “mergulho” sugerido no início desta reportagem. Na contramão do movimento artístico, a pianista estrelou poucas lives, mas teve tempo para encontrar na música refúgio para o luto, para a dor.

“Tenho tocado muitos instrumentos”, diz ela, que diz ter “uma relação duradoura” com a música, com a qual entra em “crises”, mas não agora, quando está no momento de “respeitar o tempo”. “Esse ano tem sido especialmente difícil, mas tenho conseguido trabalhar de forma muito orgânica”, afirma.

Enquanto mantém a agenda de aulas –agora online, à distância- quase sem evasão de estudantes, ela apareceu algumas vezes nas redes sociais do quarteto Dona da Rua, que a homenageou com uma canção, ‘Pequena’, cujos versos falam da “impossibilidade de abraçar os amigos”.

Mas eles, os amigos, em especial as companheiras de quarteto (Lívia Barros, Helô Ferreira e Verônica Borges) têm sido fundamentais para enfrentar períodos tenebrosos, de isolamento. Com elas, deve sair um disco em breve.

O mesmo prazo vale para ‘Vive’, que está “praticamente pronto”, em fase de “detalhes do projeto gráfico”. O que dá para fazer enquanto se espera o primeiro single, prometido para o imprevisível ano de 2020, é apreciar a arte de capa, produzida pelo mesmo mogiano Sérgio “Punk” Hannemann, responsável também por ‘Mnemosine’.


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