Movimento une a classe artística da região

A Frente Popular deseja identificar a cultura produzida no Alto Tietê, as linguagens, a quantidade de grupos, entre outros pontos, visando fortalecer o setor cultural.
A Frente Popular deseja identificar a cultura produzida no Alto Tietê, as linguagens, a quantidade de grupos, entre outros pontos, visando fortalecer o setor cultural.

Coletivo da sociedade civil formado por artistas e trabalhadores do setor cultural de todas as cidades da região, a Frente Popular pela Cultura do Alto Tietê tem atuado firmemente para a transparência e eficácia da Lei Aldir Blanc. Muito bem organizado em diferentes seções de trabalho, o grupo se reúne virtualmente, participa de decisões políticas e legais, orienta e cadastra a população e ainda promove a arte local.

Sancionada recentemente e ainda carente de regulamentação, a Lei Aldir Blanc é o que permitirá novo fôlego a artistas e espaços culturais a partir de recursos do Fundo Nacional de Cultura. Tecnicamente ela deveria funcionar por si só, mas o grupo foi criado com urgência neste momento de pandemia justamente para acompanhar e garantir o pleno funcionamento do mecanismo.

“É como a Lei Maria da Penha”, explica uma das integrantes da Frente, a atriz, gestora, ativista e professora Gisele Magalhães. “Quantas mulheres continuam sendo violentadas e assassinadas, mesmo com a lei?”, questiona ela, uma mulher negra que sofre diferentes tipos de preconceito e reconhece que no Brasil leis, decretos e regulamentações nem sempre são cumpridas.

Sabendo desse problema histórico, ela decidiu participar de um grupo que está reivindicando o devido funcionamento da lei. Isso se dá inicialmente em reuniões internas, entre os participantes de cada um dos GT’s, os “grupos de trabalho”, como “o de mídia, o de articulações, o de mapeamento, o de formação política, o que conversa com os secretários e o Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê (Condemat)”.

Depois desses encontros, representantes de cada setor da Frente se reúnem para debater em conjunto. São apresentadas soluções para “a união da classe artística da região e o fortalecimento das politicas culturais em cada município”, e são muitas cidades: além das 10 do próprio Alto Tietê foram incluídas também Santa Branca e Guarulhos.

Mas não é só de conversas internas que vive a Frente. Alguns dos mais de 100 membros discutem a criação, manutenção ou alteração de políticas públicas direto com quem pode agir, como deputados estaduais. E não para por aí: há ainda o mapeamento e as ações práticas.

Sobre o mapeamento, basicamente é uma contraprova ao que cada uma das cidades deveria fazer –e nem todas fazem-: um cadastro municipal de artistas e trabalhadores culturais. “Não queremos criar um censo, mas sim identificar a cultura produzida no Alto Tietê, as linguagens, a quantidade de grupos, até mesmo para podermos confrontar os dados das prefeituras”, explica Gisele.

Enquanto a regulamentação oficial da lei não é disponibilizada pelo governo federal, uma das atividades da Frente tem sido prever o que pode vir por aí. Ou seja, quais serão as possibilidades e como enquadrar o maior número possível de pessoas e pontos culturais no auxílio emergencial especialmente criado para eles.

“O Alto Tietê é uma região extremamente conservadora e legalista, e existem conversas no sentido da exigência de CNPJ para comprovar trabalho como espaço cultural, mas no próprio corpo da lei a definição não é somente para endereços físicos. Existem alguns pontos que não são, como o hip hop, a cultura africana e tradicional ou entidades que trabalham com eventos específicos, como a festa junina”, afirma Gisele, numa demonstração de que ainda há muito a ser discutido.

Outro ponto polêmico é o modo como se deve olhar para os recursos, que no caso de Mogi das Cruzes deve ultrapassar os R$ 2,7 milhões. “Lutamos contra a burocratização, pois estes valores são prioritariamente emergenciais. Isso não quer dizer que somos contra editais, mas este formato de distribuição não pode prever ações que já existiam no município. Precisam ser coisas novas”.

Interessante é o que Gisele diz a seguir: “Nem tudo precisa ser live”. De fato, com a flexibilização nas regras de isolamento social o interesse do público em consumir arte online vem diminuindo, então o que a Frente propõe é pensar de maneiras diferentes e inovadoras junto dos gestores e da comunidade. “Podem existir, por exemplo, projetos pagos agora, para funcionar depois da abertura, quando o ser humano estará carente do encontro”, encerra ela, com uma das várias ideias.

Ações práticas estão na pauta do grupo

Além do diálogo, das articulações e participações políticas, a Frente Popular pela Cultura do Alto Tietê tem promovido eventos mais práticos. O primeiro deles foi um sarau cultural em formato live, com a presença de vários segmentos artísticos, no dia 31 de julho. Mas foi só o início. O grupo deve permanecer ativo mesmo quando a Lei Aldir Blanc não for a pauta principal.

“Esse primeiro movimento foi muito positivo. Tivemos quase duas mil visualizações e a participação de muita gente. Uma boa oportunidade para chamar mais pessoas e receber mais curtidas em nossa página”, avalia uma das integrantes da Frente, a atriz, gestora, ativista e professora Gisele Sousa Castro Magalhães, que diz que as próximas ações estão sendo estudadas: “Vamos definir se faremos lives mensais ou bimestrais”.

O que já é certa é a presença de membros do grupo em apresentações culturais das mais variadas, a exemplo de um outro sarau, este do Fórum Permanente da Cultura de Poá, realizado no último dia 6.

Toda a movimentação é pensada para cumprir com os objetivos da Frente, como “unir a classe artística e cultural da região na defesa por políticas públicas municipais” e “fortalecer os municípios que compõem o Alto Tietê”, principalmente os “menos instrumentalizados em termos culturais, como Arujá e Ferraz de Vasconcelos”.

Na avaliação de Gisele, a tal união vem sendo alcançada, a exemplo das parcerias firmadas entre as 12 cidades que integram o projeto. “Essa coletividade tem sido muito boa, não só para as cidades como para os artistas e trabalhadores da cultura em cada uma delas, já que estamos a disposição para orientações”.


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