Médicos alertam para os perigos do descarte irregular de máscara

Máscaras devem ser guardadas em sacos plásticos após o uso. (Foto:
Máscaras devem ser guardadas em sacos plásticos após o uso. (Foto:

Um novo meio de contaminação pelo novo coronavírus começa a se tornar comum em Mogi. Máscaras que são utilizadas, inicialmente, como proteção contra a Covid-19, estão sendo descartadas, após o uso, de maneira irregular, em ruas e praças da cidade, transformando-se num perigoso agente transmissor da doença a quem, porventura, tiver algum contato com elas.

Basta uma caminhada por ruas centrais e de bairros da cidade para se notar o desleixo de muita gente que, simplesmente, atira em qualquer lugar as máscaras já usadas, um risco em potencial para os funcionários da limpeza pública ou até por alguém que resolva reutilizar tal equipamento de proteção individual, mesmo que depois de lavado.

Os riscos representados pelas máscaras usadas e abandonadas são confirmados por dois veteranos médicos da cidade. Melquíades Machado Portela, ex-secretário municipal de Saúde e atual diretor da Policlínica da UMC, classifica o descarte irregular das máscaras como “falta de educação sanitária”, um descuido que pode levar até à morte quem tiver contato direto com tal material.

“Estas máscaras provavelmente estarão infectadas e se forem manipuladas, esta pessoa pode contrair o vírus só de colocar a mão”, afirma o médico pneumologista Luiz Henrique Frizzera Borges, que alerta: “Isso é uma questão de higiene e a pessoa não pode ser tão mal educada a ponto de descartar esses materiais em plena via pública, sem qualquer cuidado”.

Melquíades lembra que o novo coronavírus pode entrar no corpo por qualquer mucosa, como nariz, boca, ouvidos, por exemplo, e se multiplicar de uma maneira violenta, atacando a imunidade da pessoa.

“Quando vai para o pulmão, o vírus provoca uma verdadeira devastação podendo levar à fibrose pulmonar, que é um enrijecimento da parte acometida, que impede a plena atividade dos pulmões, provocando a dispnéia. Não fazendo a troca do gás carbono pelo oxigênio, a pessoa pode morrer por insuficiência respiratória”, adverte Melquíades, lembrando que além do pulmão, o coronavírus também costuma comprometer o cérebro e os rins, e até a circulação sanguínea abrindo caminho para levar o portador à morte.

Ele alerta para os riscos ainda maiores que o vírus representa para pessoas com comorbidades, que são doenças como diabetes, hipertensão, tumor cancerígeno, além da idade avançada, que “podem dar margem a dificuldades ainda maiores para ser conseguir salvar vidas.”

Melquíades recomenda que as pessoas não tentem, de forma alguma, apanhar as máscaras jogadas nas ruas pelo risco que representam. E isso acontece porque há uma grande interrogação – muitas das pessoas que podem transmitir a Covid-19 são assintomáticas.

Quanto às máscaras feitas em casa ou adquiridas em farmácias, ele afirma que após usadas, elas sejam lavadas com hipoclorito de sódio ou sabão. O reúso deve ser precedido pela passagem a ferro quente para eliminar de vez qualquer possível vestígio do vírus. Ao descartar a máscara na rua, o indivíduo só contribui para aumentar os perigos da contaminação. “É uma falta de consciência sanitária” diz ele, assegurando que “a população precisa se conscientizar de que precisa preservar a si mesma e também a saúde de outros.”.

Para Luiz Henrique, quando a pessoa for substituir uma máscara por outra, deve colocar a usada dentro de um saco plástico, que deve ser fechado e vedado, com a inscrição “Perigo” para evitar que o material venha a ser manuseado. Só então deve ser colocado no lixo.

O médico afirma que há máscaras de, pelo menos, três diferentes tipos, cujos preços também variam de acordo com a qualidade do material empregado na sua produção. Há as máscaras descartáveis que duram de três a quatro horas, a N-95, que é a mais indicada – e também a mais cara –, que chega a durar perto de uma semana, e as vendidas nos camelôs, que Luiz Henrique não recomenda.

Ele explica como identificar qualidade das máscaras disponíveis no comércio:

“Quando for comprar numa farmácia, o rótulo vai indicar se a máscara é ou não reutilizável. Isso está escrito na embalagem. Esta máscara, ao ser adquirida, deve apresentar uma camada de tecido de algodão, outra de tecido não tecido (o conhecido TNT) e outra de algodão, estar embalada em um plástico hermeticamente fechado, para ser aberto com ajuda de uma tesoura”, aconselha.

Quanto às máscaras vendidas pelos ambulantes, o médico diz que costumam durar pouco tempo, quatro horas no máximo. E ele não recomenda. “Vale a pena gastar um pouco mais para ter maior segurança”, diz ele. E cita problemas comuns nos equipamentos vendidos nas ruas da cidade:

“Ali há sérios riscos de contaminação das máscaras, por estarem sendo manipuladas pelos vendedores, pelo público, além de expostas à poeira. Há pessoas que querem máscara que combine com a cor dos olhos ou dos cabelos (o que é uma besteira) e vão procurar, manuseando o pacote. Tudo isso pode levar à contaminação”, reforça Luiz Henrique.

Ele também sugere que “a máscara não pode ser tocada com as mãos, principalmente quando está no rosto, nem colocada abaixo do nariz, pois ali ela perde sua função”.

Sem vacina, a prevenção ainda é o melhor remédio 

Os médicos Melquíades Machado Portela e Luiz Henrique Frizzera Borges, com longo tempo de experiência e atividades na cidade, concordam que todos vão estar sob ameaça constante da Covid-19, até que a vacina contra o vírus seja descoberta. Luiz Henrique está apostando naquela em desenvolvimento pelos cientistas ligados à Universidade de Oxford, na Inglaterra, que poderá estar pronta em dezembro.

Já Melquíades adverte: “Enquanto não houver vacina temos de continuar usando máscara, higienizando as mãos com álcool em gel, com bastante frequência e tomando todos os devidos cuidados para evitar uma contaminação. Essa história de que a situação está melhorando e que a doença vai ser tornar endemia não é verdadeira. O vírus não vai desaparecer tão cedo. Temos que esperar pela vacina, sempre com muito cuidado, evitando aglomerações e, quem puder, ficando em casa”.

Luiz Henrique chega a temer por uma segunda onda da doença na cidade, em virtude dos abusos que estão sendo cometidos após a abertura de alguns segmentos da economia, segundo ele, de forma “prematura e precipitada, ditada pelo problema político e das pessoas que não querem ficar em casa”

“Está predominando a questão monetária em relação à saúde pública. O certo é controlar a doença agora, já que a abertura virá, inexoravelmente, como consequência”, diz o médico, lembrando que as aglomerações de pessoas representam “altíssimo risco” de transmissão do vírus: “É pedir para ficar doente; é pedir para morrer!”

“É uma estupidez! O povo brasileiro não é educado. Me desculpe, eu sou brasileiro, você também é, mas a televisão fala o dia inteiro e, apesar disso, o pessoal não respeita”, critica Luiz Henrique, que também não perdoa o comportamento do governo federal em relação à pandemia:

“Não temos sequer um ministro da Saúde. Temos lá um general que não entende nada, não tem a mínima formação médica. É só ignorância. O governo está pouco se lixando. Se depender do presidente, ele abre tudo amanhã. Tudo mesmo. E aí o número de mortes vai subir, o número de infectados vai subir. Só que muitos países que abriram a economia estão fechando e outros ainda irão fechar”, garantiu.


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