CIRCUITO

Marcos Pudo: ‘academias enfrentam a dura realidade na retomada’

(Foto: Eisner Soares)

“Quando será que vou poder abrir minhas academias?” Essa foi a pergunta que o empresário, educador físico e professor Marcos Pudo se fez ao longo dos últimos quatro meses de pandemia, quando foi obrigado a manter fechadas todas as unidades da Trainer, em Mogi das Cruzes. Agora que voltou a operar, ele comenta que “a realidade é dura”. Os clientes estão voltando aos poucos e falta muito para equalizar os compromissos financeiros, mas é de se comemorar a possibilidade de voltar a treinar presencialmente, sempre com máscara, álcool gel e distanciamento social.

(Foto: Eisner Soares)

Como foi ficar com todas as unidades da Trainer fechadas durante quase quatro meses?

Foram exatos 117 dias fechados. Foi muito difícil pra nós, porque vínhamos de um processo de investimento. Fizemos algumas mudanças de plano de negócio e estávamos para abrir uma nova academia na região do Aruã. Além dos investimentos em andamento, a gente vinha de um período muito bom, de meses excelentes. Desde dezembro até o dia 10 de março registramos resultados muito acima do que os últimos anos, então a pandemia foi muito impactante… No início, não sabíamos quanto tempo ficaríamos parados; depois houve um momento de aceitação, que virou angústia e diria que até depressão. Ao manter contato com a prefeitura conseguimos subsistir emocionalmente até que quatro meses depois pudemos abrir novamente.

Houve muita polêmica relacionada ao retorno das atividades de academias. Primeiro o escândalo com o ministro da saúde, que não sabia que elas passariam a ser consideradas como serviços essenciais; depois houve protestos pedindo pela reabertura do setor. O que o senhor tem a dizer sobre esse panorama?

Sobre as questões políticas, quando o governo federal considerou academias como serviços essenciais foi um momento de bastante felicidade, mas logo em seguida o governador reverteu isso para algo negativo. Com relação aos problemas relacionados às críticas, acho que houve muito desconhecimento, tanto por parte do poder público como da população sobre o número de pessoas que retornariam as academias, que são as pessoas que realmente acreditam na atividade física como excelente ferramenta/instrumento para evitar o contágio ou resistir a agressividade do vírus dentro do organismo. Hoje já existem artigos da USP comprovando exatamente sobre isso, mas ainda percebemos que a população está um pouco receosa, embora venha a cada dia se mostrando melhor. A relação das pessoas com a atividade física tem melhorado.

Foi importante retornar em julho?

A partir de julho, com a liberação, ficamos realmente felizes. A realidade é dura e não nos trouxe até agora número de clientes que precisamos para sobreviver. Estamos com problema sério de caixa, mas acreditamos numa condição melhor e ainda precisamos de ajuda do governo ao empréstimo do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe).

Restaurantes puderam ter, ainda que mínimo, algum faturamento por meio do sistema delivery, mas as academias não, devido ao funcionamento essencialmente presencial. Para minimizar os danos, alguma prática online foi implementada nos últimos meses?

Todo mundo perdeu com a pandemia, e vale lembrar que os bares sofrem até hoje. Na nossa academia fizemos aulas online e muitas lives, alugamos nossas bicicletas ergométricas e equipamentos de spinning para entrar algum dinheiro e seguimos com agenda pela internet para alunos que não puderam voltar. Os personal trainers também passaram a atender assim, mas perderam muitos clientes, já que em casa não há os mesmos recursos e segurança de uma academia.

O senhor está a frente de um grupo de proprietários de academia em Mogi. Como tem sido o diálogo com estes empresários?

A gente tem se ajudado internamente, mas ainda não estamos organizados como associação. A ideia é, a partir do ano que vem, criar uma associação formal ligada ao Sincomércio. Na verdade, o sindicato já oferece essa possibilidade, mas se não me engano temos apenas 7 academias cadastradas lá, enquanto no nosso grupo temos 85, de uma média de 150 empresas que existem na cidade.

Sabe dizer quantos estabelecimentos que trabalhavam com atividades físicas, como academias, centros de crossfit, estúdios de pilates e afins fecharam durante a quarentena?

Não tenho um número oficial, mas em nosso grupo percebemos que academias que trabalhavam na informalidade acabaram fechando, porque as pessoas estão se cuidando mais e não querem fazer atividades onde não encontram informações legais sobre o funcionamento. As academias só de luta estão sofrendo bastante, porque não pode haver contato. As de bairro realmente sofreram bastante, as low cost, que tem taxa de ocupação por metro quadrado muito alta e por isso oferecem preço mais baixo, agora estão com restrição de público. E as que têm alguma especificidade, como as exclusivas para mulheres, sofrem muito também. Vi um estudo que diz que nos Estados Unidos devem fechar entre 40% e 50% das academias, e acredito que seja em torno de 20% no Brasil.

Agora que as academias voltaram a funcionar, muitas mudanças foram necessárias. O que foi preciso ser alterado, para além do uso de termômetro, álcool gel e demarcações de distanciamento social no chão?

Costumo dizer que a academia é o lugar mais seguro para estar fora de casa. Além dos tapetes de higienização, medição de temperatura e uma série de outras regras, como a não utilização dos vestiários, seguimos um protocolo de segurança que garante o distanciamento social. A princípio nosso grupo se reuniu pra montar um protocolo próprio, mas fizemos um que era tão restrito que não foi possível cumprir. Começamos então a seguir as diretrizes da Associação Brasileira de Academias (Acad) e participamos das reuniões com a prefeitura, conversas que definiram nosso retorno.

Como os usuários têm reagido às novas regras?

Os clientes têm reagido muito bem e se sentem seguros. 100% deles entenderam e comprovaram benefícios psicológicos, fisiológicos e comportamentais ao retornarem, assimilando e respeitando todas as novas normas.

Mesmo que algumas pessoas ainda não se sintam seguras para sair de casa, é importante manter uma rotina de atividades físicas durante a pandemia?

É importante sim, e por isso mantivemos rotina de lives, práticas de exercício e aulas online. Tomamos muito cuidado em relação a isso, porque como em casa a atividade costuma ser feita com o peso do corpo, para quem tem sobrepeso ou obesidade essa carga já é excessiva, então infelizmente a gente viu muitas pessoas se lesionarem.

Como assim?

O professor demonstra um exercício e não tem como corrigir. Ele segue fazendo de um lado e o aluno do outro, então falta orientação técnica para treinar em casa. E como as pessoas tinham mais tempo, algumas queriam fazer mais de uma vez por dia… Muitos homens ficaram com dor no ombro devido ao excesso de flexões de braço, e muitas mulheres com dor nos joelhos, devido ao excesso de agachamentos.


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