CIRCUITO

Mara Bertaiolli destaca a solidariedade em tempos de isolamento social

Mara Bertaiolli. (Foto: divulgação)

Mara Bertaiolli diz ter “saudade imensa” de acompanhar os trabalhos presenciais da Associação do Voluntariado de Mogi das Cruzes, da qual é presidente há seis anos. Enquanto as visitas nas unidades de saúde, incluindo o Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, não retornam, ela conta a O Diário como tem sido a atuação do grupo durante a pandemia e afirma que “as pessoas estão descobrindo que ajudar quem mais precisa é muito mais fácil do que se imagina e infinitamente mais gratificante”.

Mara Bertaiolli. (Foto: divulgação)

Como tem sido o trabalho da Associação do Voluntariado durante a pandemia do novo coronavírus? O que mudou?

Logo depois do isolamento geral, quando algumas atividades foram retomadas, nós reiniciamos o atendimento com todos os cuidados necessários. Temos uma funcionária que está trabalhando na sede da entidade e atende quem tem nos procurado e necessita de alguma ajuda. Em junho, realizamos um drive-thru e arrecadamos cerca de oito toneladas de alimentos, além de produtos de higiene e de limpeza para as famílias que estavam precisando de um auxílio imediato em razão das dificuldades econômicas causadas pela pandemia. Muita gente perdeu emprego, a renda ou o trabalho informal e conseguimos atendê-las, mais uma vez, graças à solidariedade dos mogianos, que sempre colaboram com o nosso trabalho. Mas as visitas nas unidades de saúde que atendemos, incluindo o Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, estão suspensas por orientação da diretoria médica.

Existem demandas novas em função da pressão psicológica provocada pelo isolamento social?

Por enquanto estamos atendendo algumas pessoas que nos procuram pessoalmente ou por telefone. Mas, com certeza o retorno do trabalho no Hospital Municipal e nas outras unidades que atendemos deve mudar. Isso, acredito, será estruturado mais para frente. Hoje toda a nossa equipe de voluntários está em casa, e seguimos torcendo para que tudo passe logo e que possamos novamente levar esse aconchego às pessoas. A saudade é imensa.

Humanização e acolhimento se tornaram atitudes mais necessárias agora?

Acho que sempre foram, mas obviamente há uma sensibilidade maior no ar e estamos nos colocando mais no lugar do outro em todos os sentidos. Hoje tomar os cuidados necessários, só sair de casa quando for preciso e usar a máscara já são atos de solidariedade, de empatia com o próximo. Hoje não tem mais como pensar só em si. Tudo o que fazemos no dia reflete no outro; seja alguém da família, um vizinho, companheiro de trabalho ou aquele desconhecido que simplesmente passa na calçada ou entra no elevador. Ninguém está imune a este vírus e acredito que essa é a maior lição que tiraremos de tudo isso: ninguém é melhor do que ninguém!

Qual é o papel do trabalho voluntário num momento tão complicado como o que vivemos hoje, de pandemia?

Acho que esse trabalho é fundamental. Estamos vendo tantos profissionais, como os da área da saúde, por exemplo, dedicando seu dia, sua vida, para salvar a vida do outro. Isso obviamente reflete em que já tem esse olhar voluntário, mas o que acho mais interessante é que isso tem despertado nas pessoas um sentimento de solidariedade também. As pessoas estão pensando assim: “se ele faz, também posso fazer” e estão descobrindo que ajudar quem mais precisa, na verdade, é muito mais fácil do que se imagina e infinitamente mais gratificante. Estamos descobrindo que às vezes uma palavra amiga, um gesto de carinho, um olhar, tem um valor imensurável e pode mudar a vida do outro e a nossa também.

Este trabalho, que atende o Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, a Unidade Básica de Saúde (UBS) do Alto do Ipiranga, e a Unidade Clínica Ambulatorial (Unica) Fisioterapia e Reabilitação, em Braz Cubas, está em curso desde 2014. Que balanço é possível fazer destes seis anos de atividades?

Acho que o saldo é sempre muito positivo. Sempre falo que se conseguirmos levar alento, amor e/ou aconchego para uma só pessoa, o nosso dia já valeu a pena. Temos vários trabalhos que foram se somando de forma muito espontânea ao trabalho dos nossos voluntários. Exemplos são o ‘Anjo do Bem’, grupos de músicos, palhacinhos, leitura, enfim, diversas ações que de verdade fazem a diferença para quem está numa unidade de saúde, passando por um momento difícil, de fragilidade. Muitas vezes quem está numa unidade de saúde precisa do remédio, da cirurgia, mas também precisa de atenção. Desenvolver essa humanização e fortalecer esses laços são os principais objetivos desde que a Associação do Voluntariado de Mogi das Cruzes foi criada.

No ano passado o grupo era composto por 103 voluntários, e havia uma fila de espera de pessoas interessadas em ajudar. Como está o quadro hoje?

O quadro é o mesmo, mas não temos dúvidas de que esse número pode crescer após a pandemia em razão do sentimento solidário que aflorou e se intensificou durante esse período.

E quantas são as pessoas atendidas?

Não temos esse cálculo porque atendemos quem passa por essas unidades de saúde e o número varia muito, mas posso te dizer que diariamente cerca de 100 pessoas recebem algum tipo de atendimento dos nossos voluntários. Até porque uma das nossas funções no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes é fazer o acolhimento na hora que a pessoa chega, orientar, conversar. Temos esse cuidado desde que a pessoa entra, durante a internação, até o momento em que ela deixa a unidade.

Quais são os meios de arrecadação do grupo?

As arrecadações são frutos de eventos que fazemos como bingos e rifas. Também participamos todos os anos da Festa do Divino Espírito Santo com uma barraca e quando precisamos de alguma coisa a mais, contamos sempre com uma rede de amigos fantásticos que nunca nos negam ajuda.

Quando o mundo estiver livre da Covid-19, quais serão os principais desafios a serem enfrentados por vocês?

Não vejo a hora de tudo passar para voltarmos ao nosso trabalho. Acho que o desafio que teremos serão os mesmos de todas as pessoas que, no dia a dia, terão viver o chamado “novo normal” com muita responsabilidade e cuidado.

Em outras entrevistas a senhora já disse que é sempre satisfatório receber “sorrisos e abraços” como forma de “pagamento”. Infelizmente estes dois gestos estão impossibilitados agora, já que a máscara cobre a boca e não é recomendado tocar outras pessoas. O que tem sido então a força motriz da Associação?

O olhar…

Como se deu seu envolvimento com o trabalho voluntário?

Desde pequena sempre estive ligada ao trabalho voluntário. A minha família sempre teve esta veia solidária incentivada pelos meus pais Sérgio e Amália Piccolomini. Depois, quando casei com o Marco (Bertaiolli), isso tudo se potencializou e desde a época em que ele foi vereador, há mais de 20 anos, nos unimos para fazer o bem numa corrente que, graças a Deus, só cresce e se fortalece. E hoje uma das minhas maiores felicidades neste trabalho é ver que a minha filha Maitê também se envolve em tudo o que fazemos e continuará esse legado de amor e solidariedade.


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