EDUCAÇÃO

Maioria dos pais e responsáveis é contra a volta das aulas presenciais em 2020, aponta pesquisa da Prefeitura

Comitê Gestor terá de estabelecer uma retomada das aulas presenciais de maneira segura.. (Foto: arquivo)
opinião Consulta sobre retomada das aulas presenciais na rede municipal será feita até segunda-feira. (Foto: arquivo)

Até o começo da tarde desta sexta-feira (31), das 26.128 pessoas que opinaram na consulta pública da Secretaria de Educação de Mogi das Cruzes sobre a volta presencial das aulas, 23.286 disseram que não são favoráveis ao retorno dos estudantes às escolas ainda neste ano, ainda que haja possibilidade. O montante representa 89% do total de pessoas que opinaram. Em outras regiões do Estado, como no ABC Paulista, foi decidido que as aulas online serão mantidas até o final do ano.

O sociólogo Afonso Pola disse que situações como essa são contradições que a sociedade está experimentando em função da pandemia. Uma boa parte dos pais está convencida de que a volta às aulas não deve ocorrer neste momento, porque sabe que isso coloca em risco a saúde não só dos seus filhos, mas também da família inteira. Considerando que se a criança vai para a escola e tem contato com o vírus, mesmo que não adoeça, pode contaminar os outros membros da família.

“O vírus é democrático, mas a pandemia não atinge as pessoas da mesma forma, porque o impacto tem muito a ver com as condições econômicas que as pessoas têm. No Brasil há muitos lares com mães e filhos, sem pais em casa, obviamente que é um drama muito grande, porque às vezes a família não tem com quem deixar o filho, mas ainda assim, há famílias que não querem expor seus filhos”, pontua.

Pola ressaltou também que a pandemia escancarou a desigualdade social do Brasil. Enquanto há crianças que estão em família com mais oportunidades e acompanhando o ensino remoto, existem aquelas que não têm acesso a celular e internet. Há educadores falando que as crianças mais pobres não querem voltar à escola. “No futuro, tudo isso vai ter reflexo, porque quanto melhor a escolaridade, melhor o ingresso da pessoa no mercado de trabalho. As consequências vão se apresentar lá na frente. É uma situação de momento e que terá consequências a médio e longo prazo”, afirma.

Até por isso, avalia o sociólogo, o poder público tem consultado a população. Diante de tantos alertas de autoridades em saúde prevendo que podem ocorrer óbitos com o retorno das aulas presenciais, estão assumindo o risco de que pessoas morram em decorrência desse retorno.

A professora aposentada Maria Geny Borges Ávila Horle, de 74 anos, é contrária ao retorno das aulas presenciais ainda neste ano, mas reconhece que o momento ainda é de análise diante de tantas perguntas que precisam ser respondidas nos âmbitos, social, educacional e de infraestrutura. Entre elas: todas as crianças, se voltarem, estarão em situação de receber esta aula? Porque as escolas vão precisar dividir as salas. Será um retorno com escalonamento?

“O que eu quero dizer que não é simples de ser resolvido. A questão técnica é a infraestrutura, de ter ou não ter os aparelhos e o acesso para todos. No pedagógico, que também é complicado, as escolas estão se esforçando para manter o conteúdo online, mas foram pegas de uma hora para a outra”, diz.

Maria Geny destaca ainda que, do ponto de vista social, há componentes que nem mesmo a escola particular terão como o relacionamento, sociabilidade, aprendizagem do viver em comunidade e o respeito ao outro.

A Secretária Municipal de Educação, Juliana Guedes, explicou que a consulta pública é o caminho para que se possa tomar uma decisão. A pasta está ouvindo a população até segunda-feira e depois irá consultar a legalidade para embasar ou não o pedido. Já questionada se os alunos que não voltarem à escola, em caso de retorno, terão suporte da pasta, ela disse que ainda é preciso avaliar. “A consulta pública está sendo feita justamente para subsidiar uma melhor decisão por parte da Secretaria de Educação com embasamento jurídico, buscando respeitar a opinião da população”, ressaltou.

Condemat discute retorno

Para respaldar a decisão sobre a possível retomada das aulas presenciais, os prefeitos da região irão acatar a recomendação da Câmara Técnica de Educação do Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê (Condemat) e providenciar a realização de consulta pública sobre a volta das atividades ainda em 2020 e, caso haja possibilidade de retorno, se os pais enviariam seus filhos à escola. Em muitas cidades, inclusive, os secretários de Educação já iniciaram as consultas.

Os prefeitos do Condemat discutiram o assunto ontem. O calendário estadual prevê a retomada das atividades escolares a partir de 8 de setembro – desde que todas as regiões estejam na fase amarela -, mas a maioria das prefeituras locais considera a data prematura e pode retardar as aulas presenciais.

“Vivemos uma situação atípica e o compartilhamento de responsabilidades se faz necessário não só pelo aspecto da democracia, mas para apoiar o preparo da rede no possível retorno. A educação municipal apresenta características diferentes da estadual porque o seu maior público é o infantil, que inspira mais cuidados”, argumenta o presidente do Condemat, prefeito Adriano Leite.

A consulta pública dará instrumentos para dimensionar, por exemplo, os materiais a serem adquiridos e a adaptação das unidades escolares aos protocolos de segurança, assim como para a preparação de logística de transporte e alimentação na possível retomada das aulas presenciais. A expectativa é de que esses levantamentos sejam concluídos dentro de 10 dias para respaldar a decisão dos prefeitos.

Mesmo ainda sem a definição da volta das aulas presenciais, os prefeitos vão estudar a segunda recomendação da Câmara Técnica de Educação para o retorno dos profissionais nas unidades escolares. A proposta é para que, de forma gradativa, professores, agentes escolares e outros servidores retomem as atividades presenciais, de acordo com o regime vigente e deliberações de cada cidade.

A rede municipal de ensino no Alto Tietê tem aproximadamente 280 mil alunos matriculados e 20 mil profissionais da educação, sem contar terceirizados.


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