A aproximação do dia 31 de março, trazendo consigo as inevitáveis lembranças dos 57 anos do golpe militar de 1964, revive sempre polêmicas acerca daquele momento vivido pelo País.

Mas ajuda a lembrar algumas histórias ocorridas na cidade logo após a chegada dos militares ao poder. Os novos tempos provocaram, de imediato, um período de vacância de mando em localidades menores, rapidamente ocupado pelas “otoridades” de plantão. 

Em Mogi, um conhecido delegado de política se achou no direito de ditar leis e regras, a serem seguidas ao seu bel prazer. E com isso, passou a acertar contas com seus desafetos pessoais.

E foi na esteira de um desses ajustes que, a mando do indigitado policial,  um conhecido professor e funcionário público da Prefeitura Municipal  de Mogi veio bater à porta deste jornal.

Trazia em mãos uma decisão assinada pelo delegado que o nomeava para cuidar da censura prévia ao veículo que, à época, tinha só seis páginas, a maioria com editais e propagandas. As notícias se limitavam a notas sociais e esportivas, sobre a cidade e suas obras. Ou seja, não havia o que pudesse ser censurado.

Mas ainda assim, o soturno professor, cheio de razão, subiu até o primeiro andar do prédio da rua Ricardo Vilela, sede do jornal Diário de Mogi.

Além da redação, naquele andar ficava também a sala do diretor e fundador do jornal, Tirreno Da San Biagio, o Tote.

Seguro da importância do cargo que lhe fora atribuído pelo delegado titular da única delegacia da cidade, à época, o professor apresentou sua nomeação para censor ao dono do jornal.

Só não contava com a reação. O sangue italiano ferveu nas veias do jornalista que, após fazer picadinho do tal documento assinado pelo delegado, ainda enxotou o visitante para fora de sua sala, aos berros, e ameaçando lhe dar uns bons tabefes.

O censor se foi e nunca mais voltou. O delegado silenciou. E o jornal seguiu sua rotina, sob a mão forte e firme do inesquecível comandante.

Há quem diga que golpes são sempre assim: todo mundo sabe como começam, mas ninguém imagina como irão terminar.

O imitador

O primeiro presidente, general Castello Branco, foi fulminado por uma trombose, em 1969. Os quartéis se inquietaram; não queriam empossar um vice civil, o mineiro Pedro Aleixo. José Maria Alkmin, telefonou ao vice: “Venha para Minas. Vamos resistir com um contragolpe”. Aleixo não tomou posse. Dias depois, Alkmin foi procurado pelo general Sizeno Sarmento, do II Exército, com a gravação do fatídico telefonema. Alkmin não perdeu a pose: “Esse (Renato) Azeredo (deputado como ele) é terrível. Sabia que imitava minha voz com perfeição, mas desta vez ele foi longe demais!”.

Na caça às bruxas

Naquele mesmo 1964, o delegado mandou prender Waldemar Costa Filho, conhecido pelo estilo polêmico que o tornou dasafeto da “otoridade”. Apontado como comunista, Waldemar seria enviado para o navio Raul Soares, atracado na orla de Santos para receber prisioneiros. Waldemar chegou manso à Delegacia, mas bastou um descuido da escolta para que ele, num salto, assumisse o volante de seu Fusca e partisse para o Cocuera. Corredor de kart, não houve quem o alcançasse. Só parou no sítio de Taro Konno, vereador e amigo, que o acolheu, até a situação ser contornada.

Em outros tempos

Esta aconteceu em 1950, segundo o jornalista Claudio Humberto, em seu livro “Poder Sem Pudor”. 

O então tenente José Wadih Cury fazia a ronda noturna na Escola de Paraquedistas da Vila Militar, no Rio de Janeiro. 

Eram 2 horas da manhã e ele notou o comportamento estranho de um soldado. Resolveu se aproximar e viu que o vigia daquele turno dormia um sono profundo, apoiando o queixo no fuzil. 

De repente, o sonolento acordou, viu o oficial à sua frente, mas não passou recibo. 

Sem abrir o olho, apenas balbuciou:

 “...Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...” e seguiu adiante.

Após concluir a oração, o soldado malandro abriu o olho e chocando os calcanhares, em posição de sentido, bateu continência: “Por aqui tudo calmo, tenente!”.

Traição em época de campanha

Campanha eleitoral de 1982 em Mogi, o vereador Nicolau Lopes de Almeida foi chamado às pressas para substituir Osvaldo Regino Ornelas no trio de candidatos do PDS, de situação, ao lado de Junji Abe e Chico Nogueira. Mal começou a campanha, Nicolau simplesmente sumiu, só voltando à cena política praticamente às vésperas do pleito. Sua campanha pífia não garantiu os votos que a legenda precisava  para superar os três candidatos da oposição, que elegeu Machado Teixeira. Só muito tempo depois apareceu a versão para o sumiço: Nicolau estava na praia, hospedado numa confortável casa que lhe fora cedida por  Jacob Lopes, o maior articulador da oposição na cidade. Nicolau morreu sem confirmar tal história.