Numa campanha eleitoral em meio a uma pandemia, até mesmo uma simples tragada em uma narguile (uma espécie de cachimbo de água, de origem oriental, utilizado para fumar tabaco aromatizado) pode se transformar num evento de repercussão nacional. Pois foi o que aconteceu com o prefeito de Mogi e candidato à reeleição, Marcus Melo (PSDB), na corrida eleitoral que passou. Um vídeo do prefeito, sem máscara, dando uma única aspirada no tal cachimbo foi o suficiente para viralizar rapidamente entre órgãos de impressa de repercussão nacional, produzindo um estrago em sua campanha, que se não foi decisivo, se juntou a outros fatores que levaram à derrota no pleito passado. Mas como aconteceu toda a história? Em campanha pelo segundo turno, Melo decidiu enfrentar a oposição de seus assessores e comparecer a uma festa no bairro do Botujuru, onde seu aliado político Juliano Malaquias Botelho (PSB) comemorava a sua primeira eleição para a Câmara Municipal. Melo sabia que a visita ao evento seria importante, pois sua performance eleitoral no primeiro turno não havia ocorrido como esperava naquela região da cidade. Os assessores alertavam para os riscos de aglomeração, mas o candidato decidiu encarar a festa. E, logo ao chegar, foi muito bem recebido por todos, ficando à vontade para percorrer os vários espaços onde a festa estava rolando solta. Ao lado do anfitrião, ele passou junto a um grupo que utilizava um narguile, quando foi indagado por um dos componentes: “Prefeito, o senhor já experimentou o narguile?” Diante da resposta positiva de Melo, o rapaz o convidou a dar uma tragada. Sem a máscara, ele aspirou a fumaça uma única vez, apenas para não contrariar o possível eleitor. Um fotógrafo do lado registrou a cena. E minutos depois, ela já estava nas redes sociais. E dali em diante, todos já sabem o que aconteceu em termos de repercussão. O que pouquíssimos sabem é que o autor do vídeo, diante de tamanho barulho, enviou uma mensagem a Melo desculpando-se pelo ocorrido. Nela, o rapaz explicou que seu objetivo, ao publicar a imagem, era ajudar o prefeito a quebrar a fama de pessoa elitista, ainda admitida por muitos. Com o vídeo, o aliado político pretendia mostrar o prefeito como uma pessoa comum, capaz de participar de  uma roda de narguile, junto de outras participantes do evento. Na mensagem, ele afirma que jamais imaginava tamanha repercussão negativa, pois sua intenção era a melhor possível. Só que àquela altura, o estrago já estava feito.

Dª Leila é quem manda

Esta quem conta é o professor José Luiz Freire de Almeida: “Mário Covas era o governador, Waldemar o prefeito e eu, dirigente de Ensino. O Waldemar vivia às turras com o Covas, com as contas da Sabesp que não eram pagas no tempo devido  pelos órgãos  públicos estaduais. Nesse período, como era de costume, a dona Leila, esposa de Waldemar e presidente  do Fundo Social, convidava os dirigentes desses órgãos para colaborar na Campanha do Agasalho. Fui convidado para uma reunião dessa. Nas extremidades da mesa no Gabinete estavam o prefeito e eu. Nem bem começou a reunião, o Waldemar, no seu estilo de sempre, passou a me questionar sobre as contas não pagas. Ficamos assim uns cinco minutos. Ele falava e eu retrucava. E vice-versa. De repente, dona Leila deu um tapa na mesa e esbravejou: ‘Vocês dois querem parar com isso?’ A reunião prosseguiu e ficamos mudinhos até o final”.

O vereador e as multas

Um conhecidíssimo vereador da cidade chegou, certo dia, para o prefeito Marcus Melo, com um pacote de multas numa das mãos, pedindo  para que fossem “quebradas” (anuladas). O prefeito deu a clássica limpada nos ombros e disse que ele teria de procurar o secretário de Transportes, seu tio José Luiz (o da história aí do lado), mas já avisou: “Ele é crica nessas coisas...” Dito e feito. Logo que começou a conversa, o vereador foi instado a entrar com recursos pelos caminhos legais. Recursos que foram todos negados. Ele não perdeu a pose. Dias depois, voltou com um pacote bem menor e disse ser de alguns antigos “amigos do Fórum” onde trabalhara. Zé Luiz foi direto: “Meu amigo, eu tenho 50 anos de vida pública sem manchas. Você acha que vou me sujar,  justo com estas pessoas?” E o pacotinho de multas seguiu o mesmo caminho do pacotão anterior.

Criando ‘traíras’

Durante e, especialmente, depois da recente campanha, o prefeito Marcus Melo passou a colecionar papéis e documentos que comprovam traições sofridas por ele de pessoas que pensava estarem comprometidas com a sua campanha, mas que, na verdade, acabaram jogando contra, favorecendo os times de seus adversários. Por isso mesmo que, em conversa com amigos mais próximos, ao ser indagado sobre o que pretende fazer após deixar a Prefeitura, Melo responde que vai “abrir um pesqueiro”. E diante do inevitável espanto de interlocutores, vem a explicação: “É para colocar os ‘traíras’ da eleição passada”.