História à venda

Há 38 anos a Prefeitura colocou os dois casarões da Rua José Bonifácio à venda. Pelo equivalente, na época, a US$ 450 mil. Que hoje seriam R$ 1,5 milhão / Fotos: Arquivo Pessoal
Há 38 anos a Prefeitura colocou os dois casarões da Rua José Bonifácio à venda. Pelo equivalente, na época, a US$ 450 mil. Que hoje seriam R$ 1,5 milhão / Fotos: Arquivo Pessoal

As escadarias de mármore de Carrara já estavam muito gastas e poucos lustres portugueses ainda restavam. Os corrimãos de ferro batido permaneciam intactos, mas as largas tábuas de peroba dos assoalhos tinham fendas visíveis. O orgulho de uma arquitetura austera, contudo, permanecia como nos primeiros anos do século passado, quando foram construídos os casarões da Rua José Bonifácio 360 e 380, em Mogi das Cruzes, colocados à venda em outubro de 1977 pela Prefeitura Municipal.

As duas construções, das poucas que ainda restavam do início do século 20 na Cidade, ocupavam uma área de 1.700 metros quadrados numa das principais ruas de Mogi e foram avaliadas em quase 6,9 milhões de cruzeiros (equivalentes a US$ 450 mil na época) para a venda que a Prefeitura pretendia fazer juntamente com uma série de outros imóveis de sua propriedade. Durante muitos anos, após a Prefeitura tê-los adquirido dos herdeiros do dr. Deodato Wertheimer e do capitão (da Guarda Nacional) Leôncio Arouche de Toledo, eles serviram de sede do Poder Executivo e da própria Câmara Municipal. Foram, então, ocupados por uma sucessão de prefeitos e vereadores de posições políticas bastante diferentes daquelas adotadas por seus proprietários originais, fervorosos perrepistas.

Foram nessas casas que o dr. Deodato Wertheimer, então deputado federal e seu cunhado, o capitão Leôncio Arouche de Toledo, conspiraram para a Revolução Constitucionalista de 1932, transformando os seus porões em oficinas para a fabricação de fardas ou em depósitos para as forças paulistas. Antes, já haviam enfrentado as dificuldades impostas pelos partidários de Getúlio Vargas no golpe de 30 e decorrentes das estreitas ligações de amizade entre Wertheimer e Washington Luiz.

Aos poucos, as duas famílias foram se afastando da política local, encerrando uma liderança iniciada ainda no final do século 19 pelo sogro comum Francisco de Souza Franco e pelo pai de Leôncio, José Arouche de Toledo, neto do marechal José Arouche de Toledo Rendon, primeiro diretor da Faculdade de Direito de São Paulo e que se revezaram, por cerca de 30 anos, no controle da política de Mogi das Cruzes.

Com isso, os dois casarões deixaram de ser pontos de referência das reuniões de políticos, até que foram adquiridos pela Prefeitura Municipal, que neles instalou suas dependências, ocupando-os até meados da década de 1960, quando a Prefeitura mudou para outros pontos e passou a ceder as antigas residências a órgãos públicos estaduais ou federais.

Gradativamente, as repartições foram substituindo os antigos lustres portugueses por luminárias fluorescentes e removendo alguns vitrais para instalar janelas consideradas mais funcionais. Então, os gabinetes de trabalho de seus proprietários originais, que já haviam servido de gabinete a prefeitos de Mogi, foram divididos por paredes de madeira e praticamente nada restava do luxo da época em que as casas foram construídas.

Elas ocupavam parte de uma grande área dividida pelo seu primeiro proprietário, Francisco de Souza Franco, entre suas filhas. No extremo Leste do quarteirão resiste um terceiro casarão igualmente construído no início do século passado. Havia um quarto, ao lado das duas construções colocadas à venda em 1977, que também foi comprado pela Prefeitura, mas imediatamente demolido. O terreno que ele ocupava – cerca de 800 metros quadrados – foi também colocado à venda e avaliado em 2,7 milhões de cruzeiros (equivalentes a US$ 175 mil na época).

A Prefeitura de Mogi das Cruzes justificou a decisão em vender os casarões e diversos outros imóveis de sua propriedade, num total de 14.757 metros quadrados avaliados em 22,7 milhões de cruzeiros ((equivalentes a US$ 1,5 milhão na época), pela necessidade de saldar dívidas na tentativa de equilibrar o seu orçamento, de forma a criar condições para construir as dependências do Paço Municipal e livrar a Coordenadoria de Finanças dos encargos com imóveis alugados pelo Município e que consumiam, em outubro de 1977, mais de 200 mil cruzeiros (equivalentes a US$ 13 mil na época) por mês em aluguéis.

A venda, àquela época, não foi concretizada. Eventuais interessadas temiam que a proximidade das igrejas do Carmo, tombadas pelo Patrimônio Histórico, criasse empecilhos para a utilização dos imóveis. O que a Prefeitura “resolveu” de uma penada em um final de semana: demoliu as duas casas.

Flagrante do Século XX

Há 38 anos a Prefeitura colocou os dois casarões da Rua José Bonifácio à venda. Pelo equivalente, na época, a US$ 450 mil. Que hoje seriam R$ 1,5 milhão / Fotos: Arquivo Pessoal
Há 38 anos a Prefeitura colocou os dois casarões da Rua José Bonifácio à venda. Pelo equivalente, na época, a US$ 450 mil. Que hoje seriam R$ 1,5 milhão / Fotos: Arquivo Pessoal

5.1

CARTA A UM AMIGO

Parentes desconhecidos

Estimado Luiz

Quando começou esta mania eu não sei, mas lembro-me bem do cenário. Tinha bem menos de 10 anos e estava, por força de uma chuva que não parava, preso em um apartamento do Hotel Califórnia, na Avenida Atlântica. Família completa, incluindo Adelina, a babá que meu avô conseguiu e que ficou em casa até minha adolescência tardia. Sei lá por que aquele costume de passar as férias de julho no Rio. O Scandia da Real Aerovias, na verdade um DC-3 metido a besta, balançou mais do que o normal na barulhenta viagem de hora e meia entre Congonhas e Santos Dumont. E as duas semanas de Rio foram de chuva. De fio a pavio.

Uma tarde qualquer, Adelina apanhou a lista telefônica na cômoda ao lado e começou a folheá-la. Perguntei-lhe o que procurava. Disse-me que tentava achar algum Ornellas. Não achou nenhum. Em compensação, a partir dali, por onde quer que eu passe, lembro-me de Adelina e de sua curiosidade. E repito o seu gesto.

Curioso: até há 10 anos dificilmente encontrava um homônimo. No Brasil ou no Exterior. Ultimamente, entretanto, não há um lugar onde não haja um deles. A primeira vez que essa mania me rendeu benefícios foi nos anos 80. Eu sofria seguidas cobranças na Redação pelo fato de um tal de José Ornellas, coronel do Exército, haver assumido o governo do Distrito Federal. Logo eu que repetia aos berros que na minha família não havia um só militar! Ainda corri ao meu pai tentar informações capazes de assegurar que não se tratava de parente. Mas não teve jeito: lá foi o velho rememorar os três irmãos que chegaram ao Brasil em finais do século 19. Um ficou em São Paulo; outro foi para o Sul e o terceiro para Minas, depois Bahia. O coronel, segundo ele, vinha desse ramo.

Um de meus detratores, a esse tempo, era um outro Ornellas, também jornalista e companheiro de Redação. Nascera em Minas. Com as informações de meu pai disse-lhe que o coronel era muito mais parente dele do que meu. “De jeito nenhum”, reagiu ele: “O meu avô era um frade o que me livra de qualquer vínculo ascendente com esse tio seu”.

Só resolvi a questão quando voltei de uma viagem aos Estados Unidos e com prova documental em mãos. Tinha sim parentes militares, mas nada a ver com o governador do Distrito Federal. E esfreguei na cara dos que me provocavam a relação de dois Ornellas heróis de guerra: Alex e Pedro morreram na Guerra da Coréia e estão hoje no Cemitério de Arlington ao lado de outros quatro homônimos, também heróis de guerra, mortos no Vietnã. Ainda que guerras inglórias.

A propósito: nunca mais havia ouvido falar no ex-governador do Distrito Federal até que, há algum tempo, descobri um José Ornellas na lista telefônica de Nova York. Tem dois endereços em Manhattan. Um na 54 East, outro na 57 West. Será ele?

Nada que comprometa. Um grande abraço do

Chico

O melhor de Mogi

É uma pena que esteja em petição de miséria. Mas a Estrada Velha de Sabaúna, que sai da Estação Ferroviária de César de Souza e segue até o Distrito, é um dos mais aprazíveis passeios desta Cidade.

O pior de Mogi

No dia 31 de maio esta página registrou a ausência absoluta de policiamento preventivo na Mogi-Dutra. Adivinhem o que aconteceu? A Polícia Rodoviária voltou. Para que? Para multar, postando-se escondida sob o viaduto de acesso à Rodovia Ayrton Senna. Isso só acontece com Cidade sem representatividade política.

Ser mogiano é…

… ter jogado moeda no tanque de peixe que havia no Largo do Carmo.


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