Folclore Político (CXLIX) Sylvio e o batismo das ruas

Na Vila Pomar, nomes de frutas; no Jardim S. Pedro, os de peixes

Certo dia, o então prefeito Waldemar Costa Filho chamou seu chefe de Gabinete, o advogado Sylvio da Silva Pires, e lhe confiou uma missão: identificar as ruas que surgiam, aos borbotões, em novos bairros e loteamentos da Mogi do final dos anos 70, que vivia um surto positivo de progresso, por conta da recém-construída rodovia Mogi-Dutra. Com a ajuda de fiscais municipais, conhecedores como poucos da cidade, foi montado um enorme mapa abrangendo todo o município, onde foram identificadas as ruas ainda sem as devidas denominações. E foi então que Sylvio encontrou a melhor maneira de batizá-las. De acordo com o nome de cada bairro, as ruas passaram a ganhar denominações correlatas. E vieram os metais para as ruas da antiga Mineração, atual Vila Industrial. A Vila Pomar, é claro, ganhou nomes de frutas; a Vila Rubens, de animais. Para Jundiapeba, Sylvio reservou os países, enquanto as vias do Jardim Aeroporto ganharam nomes de aeroportos famosos e de algumas figuras ligadas à Aeronáutica. Mas o que Sylvio Pires mais gostou foi de nomear com diferentes tipos de peixes as ruas do Jardim São Pedro, em César de Souza, numa referência ao santo que deu nome ao bairro e que a história religiosa identificava como pescador. No caso do Jardim Universo ocorreu o inverso: lá, as ruas ganharam nomes de santos. O trabalho, que durou alguns meses, só foi completado com a colocação das placas identificando cada uma das vias recém-batizadas. A pressa do prefeito em identificar as ruas, no entanto, resultou num erro crasso, que acabou afetando todo o esforço de Sylvio Pires. Em lugar de oficializar os nomes por meio de projeto de lei, que demoraria um pouco mais, Waldemar utilizou decretos, que acabaram permitindo, no futuro, as substituições das antigas denominações por homenagens de vereadores a seus eleitores que faleciam. A unidade foi quebrada e hoje só alguns bairros ainda mantêm os nomes curiosos que Sylvio buscava na própria imaginação, ou numa enciclopédia Barsa, que ele ainda conserva até hoje. Google naqueles tempos? Nem pensar…

Bonzinho…

O vereador Antonio Lino testemunhou o fato. Waldemar recebia um visitante que buscava conseguir favor para um amigo. Esgotado seu estoque de argumentos diante do prefeito irredutível ao seu pedido, o homem apelou: “O senhor precisa ajudar; ele é muito bonzinho!” Bastou para que Waldemar, apontando o indicador para um crucifixo, na parede, próximo de sua mesa, dissesse, já alguns tons acima: “Tá vendo aquele cara lá? Era bonzinho também, e meteram três pregos nele!!!” O interlocutor, enfim, desistiu…

Na mira

O mineiro Tarcísio Damásio, hoje se recuperando de cirurgia para corrigir uma fratura no fêmur, era desafeto de Ivan Siqueira, quando a Câmara ainda funcionava no início da Barão de Jaceguai. Ivan provocava Tarcísio e, vendo o adversário irritado, deixava o plenário para ficar perto dos jornalistas, logo ao lado. De lá, continuava a instigar o desafeto. Certa tarde, Tarcísio explodiu e, arrancando um microfone junto com o pesado pedestal, arremessou na direção da cabeça de Ivan que, ágil, se desviou a tempo. O impacto dos objetos contra a parede abriu um buraco, o qual permaneceu, por muito tempo, até ser consertado.

Retratos

Conta o consultor Gaudêncio Torquato: o coronel Lucas Pinto, que comandava a UDN no Vale do Apodi/RN, era rápido. Quando o Tribunal Eleitoral exigiu que os títulos eleitorais fossem documentados com a foto do eleitor, mandou um fotógrafo “tirar a chapa” do seu rebanho, aliás, do seu eleitorado. Numa fazenda, o eleitor ordenhava uma vaca quando foi orientado a posar para a foto. Escolheu a vaca como companheira do flagrante. Mas o fotógrafo, por descuido, deixou-o fora. O coronel não pestanejou. Ao se deparar com a foto da vaca, ordenou: “Prega a foto aí, vote assim mesmo; na próxima eleição, nós arrumamos a situação”.

Mais uma

Noutra feita, o coronel levou as urnas de Apodi para o juiz, em Mossoró, quase 15 dias após as eleições. Tomou uma bronca. “Coronel, isso não se faz. As eleições ocorreram há 15 dias”. “Pode deixar, seu juiz, na próxima, vou trazer bem cedo”. Não deu outra. Na eleição seguinte, três dias antes do pleito, o velho Lucas Pinto chega com um comboio de burros carregando as urnas. No cartório, surpreendeu o juiz: “Aqui, seu juiz, as urnas de Apodi”. “Mas coronel, as eleições serão daqui a três dias”. retrucou a autoridade. “Ah, seu juiz, não quero levar mais bronca. Tá tudo direitinho. Todos os eleitores votaram. Trouxe antes para não ter problema”.

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