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Quem é e onde está Peng Shuai? O que se sabe até agora sobre o caso da tenista chinesa

Um apagão na China por conta discussão das alegações da estrela do tênis não foi capaz de silenciar um coro global de preocupação por sua segurança.

Agência O Globo Publicado em 22/11/2021 às 15:56Atualizado há 7 dias
Foto: reprodução / Getty Images
Foto: reprodução / Getty Images

Uma pergunta simples se espalhou pelo mundo dos esportes a ponto de chamar atenção da Casa Branca, das Nações Unidas e de outros:

A estrela do tênis chinesa está desaparecida dos olhos do público há semanas, depois de acusar um importante líder chinês de agressão sexual, gerando um coro global de preocupação por sua segurança. Então, neste fim de semana, o editor de um jornal controlado pelo Partido Comunista postou vídeo que, aparentemente, mostram Peng comendo em um restaurante e participando de um evento de tênis em Pequim.

Steve Simon, chefe da Associação de Tênis Feminino (WTA), disse que foi "algo positivo" ver os vídeos, embora tenha afirmado que continua cético em relação ao fato de Peng estar tomando decisões livremente. O governo autoritário da China tem um longo histórico de tratamento a mão de ferro com pessoas que ameaçam minar a confiança pública nos principais líderes do partido.

Faltando só alguns meses para Pequim sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, o caso de Peng pode se tornar outro ponto de tensão na relação cada vez mais turbulenta da China com o resto do mundo.

Peng Shuai, de 35 anos – a pronúncia do sobrenome é “pung” – é uma atleta com três circuitos olímpicos no histórico, cuja carreira no tênis começou há mais de duas décadas.

Em fevereiro de 2014, depois de ganhar a coroa de duplas em Wimbledon, com Hsieh Su-wei, de Taiwan, no ano anterior, Peng subiu para se tornar a Número 1 mundial em duplas, o primeiro nome chinês, masculino ou feminino, a alcançar o topo da classificação em ambos: individuais ou duplos. Ela e Hsieh conquistaram o título de duplas do Open da França de 2014 também.

Sua carreira de duplas foi retomada em 2016 e 2017. Mas em 2018, ela foi impedida de jogar profissionalmente por seis meses, com uma suspensão de três meses, depois que foi descoberto que ela tentou usar "coerção" e incentivos financeiros para trocar a dupla em Wimbledon, após o prazo de inscrição. Profissionalmente, ela não compete desde o início de 2020.

No final da noite de 2 de novembro, Peng postou uma longa nota no Weibo, plataforma social chinesa Weibo, que explodiu no meio online do país.

Na publicação, ela acusou Zhang Gaoli, de 75 anos, um ex-vice-premiê, de convidá-la para ir até a casa dele, há cerca de três anos, e forçá-la a fazer sexo. “Naquela tarde, não consenti no início”, escreveu ela. “Eu estava chorando o tempo todo.”

Ela e Zhang começaram um relacionamento consensual, embora conflitante, depois disso, relatou a atleta. Zhang serviu de 2012 a 2017 no principal órgão governante da China, o Comitê Permanente do Politburo.

Em minutos, os censores apagaram o relato de Peng da internet chinesa. Um apagão digital em suas acusações está em vigor desde então.

As mulheres na China que se apresentam como vítimas de agressão sexual e alvo de predadores sexuais têm sido alvo de censura e resistência. Mas o relato de Peng, que não foi corroborado, é o primeiro a implicar tal líder do Partido Comunista, razão pela qual as autoridades podem ter sido extremamente diligentes em silenciar todas as discussões sobre o assunto, chegando até a bloquear as pesquisas online pela "tênis".

Os censores poderiam ter tido sucesso se Simon, o chefe da Associação de Tênis Feminino, não tivesse se manifestado em 14 de novembro, pedindo a Pequim que investigasse as acusações de Peng e parasse de tentar enterrar o caso.

O confronto com a China trouxe consequências substanciais para outras organizações esportivas. Mas Simon disse à CNN que a WTA estava preparada para retirar seus negócios da China por causa do assunto. 

Outras estrelas do tênis – a lista até agora inclui Naomi Osaka, Roger Federer, Novak Djokovic, Serena Williams, Rafael Nadal e Billie Jean King – têm se manifestado em apoio a Peng. O astro do futebol espanhol Gerard Piqué postou com a hashtag #WhereIsPengShuai (Onda está Peng Shuai) para os 20 milhões de seguidores que tem no Twitter.

O governo Biden e o escritório de direitos humanos das Nações Unidas aderiram aos apelos para que Pequim forneça provas do bem-estar de Peng.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) inicialmente disse que estava satisfeito com os relatos de que ela estava segura, embora, depois, sugerisse que estava se engajando em uma “diplomacia silenciosa” para resolver a situação. Em uma entrevista à Reuters, o membro mais antigo do comitê, Dick Pound, disse duvidar que a questão levaria ao cancelamento dos Jogos de Inverno. Mas também não podia descartar essa possibilidade”, disse ele.

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“Se isso não for resolvido de maneira sensata muito em breve, pode sair do controle”, disse Pound à agência de notícias.

No sábado, o The Wall Street Journal publicou um artido de Enes Kanter, jogador do Boston Celtics, no qual ele pediu que os Jogos de Inverno fossem transferidos de Pequim. Kanter tem criticado veementemente o governo chinês, atacando suas políticas no Tibete, Xinjiang, Hong Kong e Taiwan.

Em resposta, o parceiro de streaming da NBA na China retirou os jogos do Celtics de sua plataforma.

“Nem todas as medalhas de ouro do mundo valem a pena vender seus valores e princípios ao Partido Comunista Chinês”, escreveu Kanter no The Journal.

Nada. Não oficialmente, pelo menos.

Em vez disso, as agências de notícias estatais chinesas e seus funcionários têm sido as únicas vozes quase oficiais do país a se manifestar. Notavelmente, estão fazendo isso no Twitter, que está bloqueado na China. Suas mensagens parecem ter como objetivo específico persuadir o resto do mundo.

Primeiro, uma emissora estatal chinesa postou um e-mail no Twitter, escrito em inglês e atribuído a Peng, que desmentiu a acusação de agressão e disse que ela estava apenas “descansando em casa”. Simon descartou o e-mail como uma invenção grosseira e disse que só aumentou suas preocupações com a segurança do tenista.

Então, Hu Xijin, o editor-chefe do jornal controlado pelo Global Times, começou a compartilhar, com os 450 mil seguidores que tem no Twitter, vídeos que parecem mostrar Peng.

Nos primeiros comentários de Hu no Twitter em relação ao assunto, ele disse que não acreditava que Peng estava sendo punida "pelo que as pessoas falavam", recusando-se até mesmo a declarar a natureza de suas acusações.

No sábado, Hu postou dois videoclipes que disse ter “conseguido”.

Em um clipe, um homem está falando com uma mulher que parece ser Peng em um restaurante quando pergunta: "Amanhã é 20 de novembro, não é?" Outra mulher na mesa o corrige, dizendo que amanhã é dia 21. Peng acena, concordando.

O homem parece ser Zhang Junhui, um executivo do torneio de tênis China Open.

No domingo, Hu postou outro clipe, que ele disse ter sido filmado por um funcionário do Global Times, que mostra Peng na cerimônia de abertura de um evento de tênis em Pequim. Zhang Junhui parece estar à direita de Peng.

O China Open postou fotos do mesmo evento em sua conta do Weibo no domingo. As fotos mostram Peng acenando para a multidão e autografando bolas de tênis, embora a postagem não tenha a marcado. A publicação já foi excluída.

Hu não compartilhou nenhum desses vídeos no Weibo, onde tem 24 milhões de seguidores.

Em um comunicado, Simon da WTA disse que os clipes por si só eram "insuficientes" para provar que Peng não estava enfrentando coerção.

“Nosso relacionamento com a China está numa encruzilhada”, disse ele.

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