TRANSPORTE

Engenheiro Jamil Hallage: “trem até César, necessidade inadiável”

ARTICULAÇÃO O engenheiro Jamil Hallage afirma que um movimento organizado é capaz de "contaminar" o governador em favor da extensão do trem até César. (Foto: arquivo)

Aos 94 anos, o engenheiro Jamil Hallage continua sendo um intransigente defensor da extensão dos trens de subúrbio até o distrito de César de Souza, uma ideia que suscita polêmicas sempre que volta a ser notícia neste jornal. Com a experiência acumulada por décadas de trabalho junto à iniciativa privada, em empresas que produziam máquinas de terraplenagem e equipamentos semelhantes, e também na Prefeitura de Mogi, onde acompanhou e fiscalizou a construção das rodovias Mogi-Dutra e Mogi-Bertioga, o engenheiro não aceita os argumentos citados, geralmente, por aqueles que não acreditam na viabilidade da extensão do trajeto dos trens de subúrbio por mais sete quilômetros, saindo da Estação dos Estudantes até a Estação Engenheiro César de Souza, no centro do distrito homônimo.

ARTICULAÇÃO O engenheiro Jamil Hallage afirma que um movimento organizado é capaz de “contaminar” o governador em favor da extensão do trem até César. (Foto: arquivo)

Para Jamil, tudo o que se precisa para executar a obra é a disposição do governo estadual, a quem está subordinada a Companhia Paulista dos Trens Metropolitanos (CPTM). O governador, no entanto, terá de ser acionado pela representação política da cidade que tem, segundo Hallage, a responsabilidade de mostrar a ele a necessidade, “cada dia mais urgente”, da execução desta obra, em razão do crescimento “cada vez mais acelerado” da região de César de Souza e bairros próximos.

Em entrevista ao Podcast Informação, deste jornal, o engenheiro oferece uma incrível demonstração de lucidez, cidadania e vitalidade ao defender, com sua habitual garra, a obra que a cidade, especialmente os moradores daquele distrito, tanto espera. A seguir, os principais pontos da entrevista:

Dr. Jamil, como senhor acompanha as seguidas polêmicas sobre os trens até César de Souza?

Como se vê, a questão dos trens sempre suscita discussão. Mas a cada dia que passa, fica mais urgente a necessidade de os trens de subúrbio chegar até o distrito. César de Souza está se desenvolvendo de uma maneira muito rápida e, então, a atual Estação Engenheiro César de Souza vai ter um movimento fantástico daqui a alguns anos apenas. Vale lembrar que nos últimos dez anos, entre 2010 e 2020, a população do distrito duplicou; uma tendência que deve continuar. Por isso é necessário, é urgente, se levar os trens até César.

Como o senhor analisa as dificuldades apontadas para a extensão do trajeto até o distrito?

Em minha opinião, o único empecilho é a famosa política, que prejudica um setor (ferroviário) para facilitar outro (rodoviário), o qual representa mais interesses pessoais. Analisando globalmente a situação do município, é muito importante levar o trem até César. Veja o movimento de pessoas que embarcam e desembarcam em César usando carros, ônibus, bicicletas, ou mesmo a pé. Não há outra opção de condução rápida. É urgente, é necessário e devemos nos organizar e começar uma briga séria para mostrar que precisa ser feita esta ligação ferroviária.

E como vencer empecilhos como a questão da eletrificação e expansão dos trilhos?

Esta questão chega a ser classificada como um “sonho de verão”. Meu Deus do céu! Sonho de verão é para gente que não tem iniciativa de fazer. Nós somos otimistas e sonhamos com coisas que podem ser realizadas. Mogi das Cruzes tinha um sonho que muitos duvidavam de sua execução e até davam risada, dizendo que nunca seria concretizado. Até que chegou um dia e o sonho se tornou realidade, que foi a construção da Mogi-Bertioga. A Mogi-Bertioga é um exemplo de “sonho de verão” que virou realidade, porque cidadãos realmente batalhadores pegaram o problema, o enfrentaram, e hoje ele está resolvido.

Como engenheiro, como o senhor vê a solução para as obras necessárias à extensão? São questões realmente intransponíveis, como alguns chegam a dizer?

As estradas de ferro no Brasil começaram a nascer, inicialmente, por volta de 1850, nos últimos anos do Império. Naqueles tempos não havia máquinas, não se tinha equipamentos adequados para tais obras, não se tinha nada. E foi feita a Estrada de Ferro Central do Brasil, assim como muitas outras estradas. Meu Deus do céu! A engenharia faz! Antigamente, se fazia o transporte de terra em carroças puxadas por burros para os locais que necessitavam de aterros. Não tinha equipamento, não tinha nada, mas a força do homem e a ideia de querer fazer as coisas levaram tudo isso a ser realizado. O Brasil é, hoje, cortado por linhas de trens, de Norte a Sul, ainda que, infelizmente, com pouca utilização. Faltam muito mais trens no Brasil. O País merece muito mais estradas de ferro, que é um transporte barato e fácil. No entanto, os pessimistas ficam falando: “vai ter de fazer nova linha”, “vai ter de estender a rede elétrica”. E daí? Que se faça a rede elétrica. Qual o problema? Então: é boa vontade, é cidadania, é bola pra frente!

O senhor considera que há falta de vontade política para levar os trens até César?

Eu acho que há falta de vontade geral. Esta obra é do governo do Estado, pois a CPTM a ele pertence. Naturalmente, as autoridades municipais precisam ficar cutucando as estaduais para se resolver o problema. Afinal, o governo resolve tantos problemas pelo Estado afora, por que não resolver mais este de Mogi? É uma questão de política bem organizada, de pessoas honestas e dignas de confiança, para não se deixar nas mãos daqueles que só procuram o bem próprio.

Quanto tempo, em sua opinião, levaria a execução dessa obra, existindo vontade e disposição do governo?

Aí vai depender, inicialmente, de um projeto. A linha já existe, mas terá de ser feita outra, paralela à linha atual, que teria de passar sobre o rio Tietê. Mas isso aí a gente faz brincando… A Prefeitura de Mogi das Cruzes já executou várias pontes na cidade. Para o Estado, isso aqui não é nada… Entre projetos e licitações, eu diria que a obra levaria uns três ou quatro anos, até porque não é um projeto para se fazer correndo. É uma obra da ordem de até sete quilômetros. É só questão de uma turminha começar a fazer barulho, as pessoas se interessarem por ela, para fazer com que o governo do Estado entenda a importância da obra para Mogi. Afinal, é essa autoridade que irá decidir. Quando o governador for “contaminado” pelo vírus da necessidade desta obra, isso sai em pouco tempo, tenho certeza.


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