Enfermeiro de Mogi está há cinco meses sem abraçar a filha, por conta da pandemia

Romão está há cinco meses sem abraçar a esposa Lívia, grávida de sete meses, e a filha Alice, de 1 ano e 10 meses. (Foto: Divulgação)
Romão está há cinco meses sem abraçar a esposa Lívia, grávida de sete meses, e a filha Alice, de 1 ano e 10 meses. (Foto: Divulgação)

Além da tensão vivenciada nos hospitais com o boom de pacientes com o novo coronavírus e jornadas de trabalho exaustivas, muitos profissionais da saúde tiveram de lidar com o medo de serem contaminados, além também a insegurança de contaminar os parentes. Há cinco meses, o enfermeiro Rodrigo Romão, de 38 anos, não abraça a mulher e a filha, e também não acompanha a gestação de sua segunda filha. O esforço para aguentar a saudade só não é maior do que o cuidado para que eles fiquem bem, em meio ao cenário de mais de mil mortes só no Alto Tietê, pela Covid-19. .

A difícil decisão de não se verem foi tomada pelo casal no começo de março, com o agravamento da pandemia e a decretação da quarentena. Lívia Maria Rossatto Romão, esposa de Rodrigo, estava grávida à época de dois meses da segunda filha, Cecília. A primeira filha do casal, Alice Rossatto Romão, estava com cinco meses, começando a falar. Ela é enfermeira, mas não trabalha na linha de frente de combate à doença.

É coordenadora dos cursos de radiologia e enfermagem no Centro Universitário Braz Cubas. Ele é diretor do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo, enfermeiro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Oropó e como chefe de divisão na Secretaria Municipal de Saúde.

“Foi uma decisão muito difícil psicologicamente porque nós estávemos vendo tudo o que estava acontecendo e o risco que iríamos enfrentar. Hávia ainda um outro fato, a minha esposa tem anemia. Então percebemos que era um momento complicado para todo mundo, mas se a gente tem essa possibilidade de preservar a saúde por que não fazer? Muitas pessoas não têm condições e há muitos profissionais que estão na linha de frente e quando chegam em casa têm de se preocupar com os familiares”. Lívia Maria foi então para a casa dos pais, em uma cidade do interior, nas primeiras semanas após as notícias sobre a nova doença.

Pesou na decisão outra situação – em novembro do ano passado, o casal havia enfrentando a perda de um bebê, ainda durante a gestação.

Quando se separaram, a filha estava começando a falar “papai”. Rodrigo reconhece que será um hiato no acompanhamento do crescimento da filha que não será reposto já que agora ela já está formando as primeiras frases. A segunda gestação, o enferemiero não pode acompanhar como a primeira. Ainda assim, a esposa tem realizado os exames no interior e e os encaminha para o médico de Mogi das Cruzes, onde o parto deverá ser realizado. Quando a saudade aperta, a tecnologia tem ajudado a amenizar a distância.

“Eu sinto muito a falta delas porque apesar de ter as chamadas e a gente poder conversar, não tem o contato, o beijo, o abraço, sentir o cheiro. Chegar em casa e não ter contato com ninguém é muito difícil. Muitas vezes, a gente para, fica em casa pensando sobre tudo isso que está acontecendo em meio à pandemia”, disse.

Este ano, Romão concorre à Câmara Municipal de Mogi e também à diretoria do Sindicato, por isso está licenciado da entidade e também está em licença da UPA. No dia 14, ele também sairá da pasta municipal da saúde. Por não estar na linha de frente e a esposa precisar voltar para se preparar para o parto, o que deve ocorrer em outubro, hoje, o Dia dos Pais de Romão poderá ter abraço e afeto físico hoje.

“Eu já estou no período de isolamento. A minha mulher tem um exame na semana que vem, em São Paulo, com o médico dela. Então ela vai tentar vir para o Dia dos Pais. Se o encontro ocorrer neste fim de semana, vai ser o meu maior presente. Espero que daqui para a frente eu consiga ficar com as duas. Da Alice eu cortei o cordão umbilical no parto. Espero que da Cecília eu também consiga”, pontua.


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