Em livro, Chico Ornellas conta histórias de Mogi

Colecionador de "causos" sobre Mogi, Chico Ornellas narra o cotidiano da cidade por meio de seus habitantes mais notórios ao longo do tempo. (Foto: Divulgação)
Colecionador de “causos” sobre Mogi, Chico Ornellas narra o cotidiano da cidade por meio de seus habitantes mais notórios ao longo do tempo. (Foto: Divulgação)

Fatos históricos de Mogi das Cruzes são o foco de vários livros, incluso a obra do historiador Isaac Grinberg. Tendo isso em mente, o que fez o jornalista Francisco Ornellas, foi contar passagens clássicas da cidade por uma visão diferente. A ótica do livro ‘Urupema – Um Passeio Histórico por Mogi das Cruzes’, que ele lança no próximo sábado, dia 17, em evento no Mogi Shopping, não é a das situações em si, mas sim a de seus protagonistas, cidadãos mogianos e também pessoas que se instalaram na cidade pelas mais diversas razões.

Em 72 capítulos divididos em 296 páginas, Chico faz o vem fazendo há 55 anos de carreira: conta histórias. A primeira delas é a “trajetória resumida de um judeu ucraniano que chegou na cidade com 17 anos de idade”, Hélio Borenstein. Depois, os capítulos seguem dando protagonismo a personagens marcantes da cidade.

Alguns dos nomes que aparecem são Yayá Melo Freire (mogiana que viveu 42 anos interditada e legou sua fortuna para a Universidade de São Paulo), Manuel Bezerra de Melo (Padre Melo, fundador da Universidade de Mogi das Cruzes) e os estudantes da cidade que participaram de movimentos de resistência ao regime militar (1964-1985).

O livro, como conta Chico, “tem capítulos que se esgotam em si”. “Ou seja, a história não começa na primeira e termina na última página. Cada parte tem começo, meio e fim”, diz ele, para depois emendar um exemplo: a seção dedicada a Quita (José Honorato de Souza Melo), “por muitos anos o único veterinário a atuar na cidade”.

Deodato Wertheimer, “o lendário médico que viveu pouco mais de 20 anos em Mogi, tempo para se tornar vereador, prefeito, deputado estadual e deputado federal”, também é lembrado pelo jornalista. Outros destaques são dom Paulo Rolim Loureiro, o primeiro bispo da diocese local, e o advogado José Miragaia Ribeiro, “conhecido pela oratória brilhante e humor sarcástico”.

‘Urupema’, porém, não se limita ao registro biográfico destes e de outros tantos nomes, num montante que chega perto dos 600. Como o título sugere, a ideia é que o leitor seja conduzido a “um passeio histórico por Mogi Das Cruzes”, e nesse processo entenda mais sobre a cidade a partir das situações vividas por seus habitantes.

“É o retrato da cidade a cada tempo”, resume o autor, que é colecionador de curiosidades sobre o município. Em um dos capítulos, Chico se debruça sobre “o Código de Posturas de 1882, o primeiro de Mogi”. Em outro, sobre “a revelação de que Natalino José do Nascimento, o Natal da Portela, é mogiano”. E por aí vai.

“Falo da inauguração da luz elétrica em Mogi, sobre a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, sobre os sobrenomes das famílias mogianas, sobre os ‘Josés’ que aqui viviam”, lembra Chico, que contará essas e outras no próximo sábado, durante sessão de autógrafos no Mogi Shopping, das 15 às 19 horas, evidentemente que de máscara e com álcool gel a postos.

Uma das perguntas que ele deve responder durante o encontro com o público, que poderá comprar o livro a R$ 50, é porquê continuar contando esses “causos” todos sobre Mogi, mesmo aos 73 anos de idade.

A resposta é simples. “A cidade pulsa. A cada 24 horas vira um dia, e as coisas continuam acontecendo. Na verdade, o que dá pra perceber, eu cheguei a essa conclusão, é que Mogi é resultado de manifestações de amor. Não entre casais, mas manifestações de amor pela cidade”. E é preciso registrá-las.

Um toque de humor

Chico Ornellas admite que ‘Urupema – Um Passeio Histórico por Mogi das Cruzes’ funciona como uma espécie de almanaque de curiosidades. Mas com uma pitada de humor, item característico de seus textos.

Um bom exemplo é “uma passagem verídica” contada por ele a este repórter. “Havia um casal de estrangeiros em Mogi, que morava, na década de 1930, na Rua Dr. Deodato Wertheimer, onde hoje estão as lojas Pernambucanas”, começa Chico.

“Teve um professor da cidade, funcionário público, que passou a assediar a esposa, que era alemã. Ele tanto importunou a senhora que ela não teve jeito: ela contou pro marido, que disse ‘você dá trela pra ele e fala pra ele vir aqui em casa tal dia, às tantas horas, que eu estarei ‘viajando’”.

Quando chegou o tal dia, continua Chico, “a senhora serviu um refrigerante ao professor e pediu um ‘tempinho para se preparar’”. Foi aí que apareceu o marido, que “de espingarda na mão”, e “botou o cara de cueca para lavar a escadaria do casarão”.

“Esse é um exemplo de como o dia a dia mostra o perfil de Mogi, que sobretudo é uma cidade provinciana”, finaliza Chico Ornellas, sem acreditar que este termo seja pejorativo. “É uma característica, sem qualidade ou defeito”.


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