Educador Márcio de Paula: ‘Nada substitui as relações humanas presenciais na educação básica’

Márcio de Paula é educador. (Foto: Divulgação)
Márcio de Paula é educador. (Foto: Divulgação)

O empresário e educador Márcio de Paula, diretor do Colégio São Marcos, que tem mais de 40 anos de atividades em Mogi das Cruzes, diz que as aulas virtuais farão parte para sempre na vida de todos, porém nada substitui as relações humanas presenciais na faixa etária dos alunos da educação básica. Experiente, ele já lidou com vários desafios, mas nunca tinha enfrentado uma pandemia como esta do novo coronavírus. É justamente sobre a situação atual que Márcio fala, comenta e avalia, em especial sobre o retorno às aulas, o que deve acontecer “somente em 2021”. Ele também revela que a adaptação ao ensino remoto precisou ser feita “da noite para o dia”.

Muitos pais e responsáveis têm se mostrado contrários e inseguros à ideia de mandarem os filhos para aulas presenciais neste momento, quando ainda não há uma vacina para o novo coronavírus. Como o senhor enxerga esta questão?

Eu acho perfeitamente compreensível este pensamento, pois vivemos uma situação totalmente nova com relação à saúde. O maior patrimônio para os pais são o bem-estar e a saúde dos filhos. A maioria das crianças é assintomática ao Covid-19, mas podem ser infectadas e colocar os pais e parentes em risco. O ambiente escolar, apesar de ser considerado um lugar público, recebe todos os dias somente as mesmas pessoas (alunos, professores e funcionários), ficando o risco bem menor em relação a um shopping, por exemplo.

O plano do governo estadual, na verdade, estabelece que em setembro as escolas poderão voltar a receber os alunos desde que adotem as medidas de segurança sanitárias. Isso está nos planos do Colégio São Marcos? Se sim, quais são as mudanças necessárias, e como está o preparo da equipe?

A nossa escola está preparada para a retomada dos trabalhos, porém acreditamos que isso acontecerá somente em 2021. Enquanto a curva de casos de Covid-19 não cair brutalmente os pais não mandarão os filhos à escola. Caso isso aconteça, o São Marcos já está providenciando tudo o que é necessário para receber os alunos: distanciamento, limpeza extra das salas de aula, treinamento dos professores e colaboradores.

Basta andar nas ruas para ver que adultos têm dificuldades para entender o uso da máscara e a aplicação correta do álcool gel. Na hipótese do retorno, como ensinar e controlar estas e outras novas normas aos alunos mais novos?

Todos os professores estão sendo treinados para conscientizar os alunos da importância de todas as medidas necessárias. Vale lembrar que as crianças já foram orientadas pelos pais em suas casas, e a escola vai reforçar e incentivar as orientações. Vamos ajudar na construção do novo normal para todos da nossa comunidade.

A Prefeitura de Mogi, assim como a gestão de várias outras cidades, abriu o processo de consulta pública sobre retorno das aulas presenciais. Como o senhor encara essa iniciativa? E pensando no retorno, há diferenças entre o ensino público e o particular?

É sempre importante ouvir a opinião dos pais. Todas as medidas e iniciativas sobre os cuidados com os alunos dentro do espaço físico nas escolas são iguais, tanto nas escolas públicas como nas privadas. Os professores dos dois segmentos estão totalmente aptos para esta missão. A rede pública tem mais dificuldades com relação às aulas remotas, pois o acesso à internet é precário, por isso a preocupação dos dirigentes dos governos estadual e municipal com relação a volta neste momento.

Nas redes sociais, algumas pessoas pedem o cancelamento do ano letivo em 2020. Considerando sua experiência educacional, o senhor acha que essa é uma opção viável?

Não acho esta uma opção viável. Nós não podemos excluir um ano inteiro por causa de uma situação atípica. O mundo continua girando com ou sem pandemia. Haverá sim alguma defasagem no ensino, mas com o tempo todos saberão repor este vácuo sem prejuízo para os alunos, como em todos os países no mundo.

Durante a pandemia, dezenas de estabelecimentos de ensino fecharam na cidade. O que o senhor tem a dizer sobre este cenário?

Escolas que somente trabalham com crianças menores de 4 anos sofreram muito e várias fecharam as portas em todo lugar, pois as aulas remotas para esta idade não são eficazes. Uma pena. Também fecharam restaurantes, comércios, escritórios e vários outros segmentos. A quarentena foi necessária para a manutenção de vidas, mas teve consequências, algumas irreversíveis. Mesmo assim eu acredito que foram acertadas as decisões dos governadores e prefeitos sobre a quarentena, pois caso contrário o Brasil já teria registrado quase um milhão de óbitos, o que seria um escândalo mundial. A resiliência e a reinvenção serão importantes na vida de todos daqui em diante.

Como o Colégio São Marcos encarou a pandemia? Quais os principais desafios e dificuldades das aulas online?

Foi um susto para todos. Esta situação mostrou como nós, profissionais da área da educação de todas as escolas, somos criativos. Uns com mais recursos tecnológicos, outros com menos, mas todos criativos, missionários e comprometidos. Da noite para o dia tivemos de colocar em funcionamento uma estrutura para Ensino à Distância (EAD). Hoje, as aulas remotas estão funcionando muito bem, levando em conta o momento. Eu acho que as aulas virtuais farão parte para sempre na vida de todos, porém nada substitui as relações humanas presenciais na faixa etária dos alunos da educação básica.

Houve adaptação de conteúdo para aulas remotas dos adolescentes?

É evidente que nas semanas iniciais todos tiveram alguma dificuldade na adaptação. Como eu disse, trata-se de situação atípica. Não houve mudanças na essência do plano de ensino, todo o programa acadêmico do São Marcos foi mantido. É lógico que as relações não são iguais, pois as práticas esportivas e aulas práticas nos laboratórios foram prejudicadas, mas toda a nossa comunidade se adaptou muito rápido à nova dinâmica e as deficiências não alteraram a essência principal.

E o que foi preciso fazer para captar a atenção das crianças no ensino a distância?

O São Marcos não teve grandes dificuldades na adaptação. Os alunos da Educação Infantil sempre são mais trabalhosos e precisam de uma atenção bem maior, pois são crianças em fase de socialização e não estavam acostumados com a tela de um computador neste contexto. Vale lembrar que a ajuda dos pais em casa foi fundamental neste momento. Já os maiores se adaptaram bem mais rápido.

Há alguma observação sobre o ensino superior, que já está voltando a ativa em Mogi?

A vida continua. Todos terão que tomar os cuidados mínimos necessários amplamente divulgados em todos os ambientes da escola e fora dela. Ainda vamos entender o que significa o novo normal daqui e diante.

A interrupção dos estudos provocada por este inesperado período de pandemia pode, de alguma maneira, prejudicar os estudantes, como, por exemplo, aqueles que em 2020 prestariam vestibular?

Se os alunos tiveram aulas remotas desde o mês de março, acredito que não. Os estudantes do Ensino Médio do São Marcos, assim como das outras escolas da cidade, estão usufruindo da tecnologia por meio de plataformas, suporte de plantões de dúvidas e com canal aberto com o corpo docente. Alguns também seguem fazendo cursinho. É tudo diferente, mas a vida acadêmica continua.


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