Produto de luxo, a água, está para a vida na terra, como o tempo para o homem, entre o nascimento e a morte. De primeiríssima necessidade, ela costuma ser preterida entre outras plataformas políticas até ganhar holofote em dois períodos opostos, a seca ou a enchente.

Nesta última década, as duas coisas aconteceram. São Paulo viveu uma crise hídrica histórica com graves impactos na rotina dos cidadãos, com o desabastecimento inclusive nas cidades que produzem água. Um cenário catastrófico, de fim de mundo.

No Alto Tietê, a situação foi tão complicada que até mesmo os agricultores foram alçados ao banco dos réus e sofreram uma perseguição até hoje não indigesta. O governador Geraldo Alckmin, à época, apelava para São Pedro. Um desatino.

A crise passou, o Governo do Estado assumiu as lições de casa, fez obras e ampliou a capacidade das barragens.

Há pouco, choveu mais diferenciando o ano hidrológico de 2018 e 2019. O resultado foi o extravasamento das barragens e a inundação de milhares de casas e de propriedades rurais.

Gato escaldado tem medo para o resto da vida. Por isso, o calorão, o índice de chuva menor entre 2019 e este ano, e o início de rodízio em algumas cidades de São Paulo causam tanta preocupação – a quem tem memória, claro.

Análises técnicas da Sabesp e de técnicos como o engenheiro José Roberto Kachel apontam para uma situação de segurança hídrica, neste ano, baseada em fatos: apesar de as represas Jundiaí (8%), Jundiapeba (21%) e Biritiba (13%) apresentarem agora um nível menor do que no passado, as de Ponte Nova (65%) e Paraitinga (84%) estão com uma boa margem de reserva.

Além disso, sublinha Kachel, o sistema tem hoje o suporte – ainda não usado – das interligações feitas com a represa Billings e o Rio Guaió para “socorrer” o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. Outra possibilidade seria o uso da água do rio Itapanhaú, que pode ser levada para a barragem de Biritiba.

Há um quadro confortável. Porém, o especialista sugere o uso consciente da água.

São Paulo não pode ficar refém dos santos, nem dos céus – o que, definitivamente não é uma boa pedida. A questão da água é matemática. Gastos versus consumo, e erros na gestão do sistema determinaram alto custo na tarifa e na operação, torneira vazia e até caça a quem estiver no caminho, como os agricultores. Nesse aspecto, o passado não deixa nenhuma gota de ilusão.