Em meio a uma das fases mais agudas da pandemia provocada pelo novo coronavírus e suas variadas cepas recentemente descobertas, o governador João Doria (PSDB) volta a anunciar medidas restritivas, agora impedindo a circulação entre as 23 horas e 5 horas do dia seguinte.

O anúncio, feito na tarde de quarta-feira, prevê para hoje (sexta) o início da vigência das novas regras que, mais uma vez, são recebidas com críticas. Desta vez, de pessoas ligadas à ciência, como o médico Marcio Sommer Bittencourt, mestre em saúde pública pela Universidade de Harvard e médico pesquisador da USP. Em entrevista ao Estadão, ele questiona o que deve mudar em termos de contatos interpessoais, já que o comércio hoje funciona até às 22 horas.

“Temos uma pandemia que se dá pelo contato entre as pessoas e isso acontece durante  o dia”, disse o médico, sem citar as permanentes aglomerações nos transportes públicos da Capital. Ele afirma não entender tal medida num horário em que as pessoas não estão circulando.

Da mesma forma, o médico Gerson Salvador, especialista em infectologia e saúde pública, citou como exemplo as medidas tomadas por Israel e Reino Unido nas últimas semanas que foram mais efetivas. “Eles controlaram a alta com imunização e medida de distanciamento, inclusive com lockdown. As medidas de São Paulo, mesmo na fase vermelha, são muito brandas se comparadas a esses países”.

“Fizemos muito pouco ou quase nada de medidas de bloqueio. Sempre preferiram dizer que é muito difícil fazer do que pelo menos tentar fazer. Nunca foi feito nem essa campanha de marketing. A população até hoje não foi avisada de que o mais importante é não passar para ninguém. Nunca investiu em testar e isolar positivo. Não vi nada disso”, afirmou Bittencourt.

As opiniões insuspeitas, como as desses representantes da área científica, demonstram que o governador, virtual candidato a presidente no próximo ano, está tentando, com medidas aparentemente extremadas como essas, mostrar serviço, ao mesmo tempo que evita críticas da maioria dos comerciantes e outros empresários, que certamente viriam, caso fossem adotadas medidas mais agudas, como o lockdown pleno.

E entre titubeios e medidas dúbias, a Covid-19 vai avançando de uma maneira cada dia mais agressiva, mostrando o quanto sofre um país onde as autoridades não se entendem e nem conseguem unificar as medidas contra a doença, principalmente quando estão em jogo aspectos políticos e eleitorais. Tudo isso a um só tempo.