Causa apreensão e estranheza, o fato de a Agência dos Transportes de São Paulo, a Artesp, e os interlocutores do governador João Doria não contarem, à cidade, qual será exatamente a localização da praça de cobrança do pedágio prevista para Mogi das Cruzes, no projeto de concessão das rodovias litorâneas.

Em fevereiro último, em resposta exclusiva a este jornal, a Artesp anunciou que a cobrança não seria mais feita no quilômetro 45 da rodovia Mogi-Dutra. Depois disso, no entanto, em diferentes oportunidades, sob o escudo de que “os estudos ainda não sendo elaborados”, a agência não deu mais um pio sobre o assunto.

Problema é: enquanto essa caixa-preta permanece passada, o tempo vai passando. Desde o mês passado, quando os planos do Governo do Estado vieram a público e se soube que a concorrência para a concessão do lote de rodovias do litoral pode ser lançada ainda neste ano – em dezembro, essa indefinição assombra Mogi das Cruzes.

São reais os riscos de a cidade ser surpreendida com a instalação de um pedágio Mogi-Dutra. A quem isso interessa? Aos possíveis investidores porque um pedágio, ali, elevaria, e muito, o potencial de arrecadação financeira da concessão litorânea.

A cobrança da tarifa nesta estrada, e não na Mogi-Bertioga – o que também contraria interesses da cidade, a depender dos investimentos avaliados para este acesso -, é um verdadeiro pote de ouro. Esse trecho da Mogi-Dutra, já duplicado e pago, não vai custar nada para a futura concessionária. Além disso, o total de carros e caminhões que circulam neste acesso não prossegue até o litoral. Ou seja, os concessionários sequer terão de arcar com desgaste do asfalto porque esses veículos não vão circular pelos trechos litorâneos.

Endereçado ao governador João Doria, um dos manifestos da cidade contra o pedágio acerta o alvo quando questiona, a conta injusta que o mogiano pagará, caso essa ideia vingue.

O pedágio não pesa apenas no bolso individual do usuário de uma rodovia. Ele tem uma conta social e econômica porque eleva o custo de vida de um município e região.

Outra ponto a ser destrinchado: mesmo com o interesse político-eleitoral em jogo, a cisão entre movimentos contrários ao pedágio não deveria contaminar essa luta. Nesse aspecto, a sociedade civil organizada será, mais um vez, o fiel da balança.