Miled Cury Andere fez 100 anos. A efeméride dá o que pensar e escrever sobre esse mogiano que passou a integrar o exclusivo grupo dos cerca de 30 mil brasileiros centenários.

Professor de história, ex-festeiro atuante, fundador e coralista do Coral 1 de Setembro, Miled tem um selo exclusivíssimo: foi à Segunda Guerra,  integrou a Força Expedicionária Brasileira e se tornou porta-voz de uma causa que não deveria ser calada.

É sobre essa característica de Miled que escolhemos reconhecer. Ele se tornou um dos obstinados defensores da preservação das memórias sobre a participação do Brasil neste combate. Dedicou a maior parte de um século a buscar sentido para o conflito e a maneira como os pracinhas foram tratados após a chegada ao País.

Fez isso com a reunião de ex-combatentes para a criação e manutenção da Associação dos Expedicionários Mogianos – que durante muitos anos conseguiu agir política e assistencialmente no amparo a esse grupo de cidadãos.

Escreveu livros, participou de debates, conferências, exposições, homenagens e campanhas mogianas, como a que tenta manter, entre trancos e barrancos, o Monumento ao Expedicionário, instalado na entrada da passagem subterrânea Osvaldo Crespo de Abreu.

Em seu último livro, Foi o Frio? lançado há dois anos, quanto completou 98 anos, ele revirou a grande ferida causada pelo abandono do governo brasileiro aos veteranos. Distribuída entre amigos, a obra é uma forte crítica e cobrança pelo reconhecimento do governo brasileiro aos ex-combatentes.

O livro é baseado nos muitos relatos acompanhados, muito de perto por ele, sobre o apagamento desta história. Baseado em fatos reais, ele sintetiza as agruras desses heróis que começaram a ser esquecidos antes mesmo de voltarem ao Brasil O personagem morre como indigente em uma noite fria em São Paulo.

A memória desse heroísmo foi desaparecendo. Inclusive porque muitos dos expedicionários temiam revelar o que viveram nas noites frias na Itália. “Eu me pergunto se a morte dele foi causada pelo frio daquela noite, ou pelo frio da incompetência das autoridades”, disse o escritor,  certa vez.

Miled é um senhor do tempo. Um feito cada vez mais plausível, mas com uma diferença: esse herói de guerra compartilhou seus ideais e experiências com família, amigos, seus leitores e a cidade. Um privilégio concedido por poucas pessoas.