As dificuldades enfrentadas por familiares da mogiana Iracy de Souza Sales, de 87 anos, que permaneceu durante três dias na UPA do Jardim Oropó à espera de um leito hospitalar, são simbólicas dentro de um contexto que pouco vem a público, e nos dá a oportunidade de monitorar e entender melhor os dramáticos bastidores do atendimento na rede pública diante da alta de confirmações, internações e de mortes pela Covid-19. 

O Diário trouxe essa história em sua edição online de ontem.

Em meados deste mês, Iracy foi diagnosticada com a Covid-19. Mas, com o quadro de sintomas mais leves, voltou para casa, onde uma queda a levou novamente para a UPA. O desenrolar desse atendimento termina com a paciente sendo encaminhada para casa, mesmo após a queda, e retornando, alguns dias depois - ainda mais debilitada - ao serviço de saúde do Jardim Oropó, onde permaneceu três dias sem conseguir transferência para um hospital. Essa UPA não possui tomografia, o que exige o manejo do paciente para um hospital. Ela ainda estava se recuperando da Covid – ou seja, precisava de um leito específico. Depois de a reportagem ser acionada por familiares, a vaga apareceu.

Dona Iracy não é uma exceção. Nem todos os pacientes com o vírus precisam ser tratados nos serviços de referência, mesmo fazendo parte do grupo de alto risco, o dos idosos. Mas, a permanência deles, em uma UPA, é complexa pela exposição aos riscos naturais que se tem em uma unidade de saúde. Em especial, em uma pandemia. 

O caso revela ainda que mesmo com a margem de segurança alcançada nesses últimos dias em Mogi das Cruzes – com os índices de internação e de uso de UTI estabilizados, embora na faixa dos 70 a 75%, há dificuldade em se obter uma vaga específica nos hospitais públicos de referência para a Covid.

Impor três dias de espera a uma paciente de 87 anos indigna, com toda razão, seus familiares. A direção da UPA admitiu que há dificuldades em se conseguir um leito hospitalar. A situação de dona Iracy vem a público. Porém, quantos outros mogianos podem estar vivendo esse dilema?

Com a pandemia, os recursos da rede de saúde estão ainda mais disputados do que no passado, quando a demora por uma vaga em um hospital já penalizava o paciente do Sistema Único de Saúde. Melhorar e ampliar o dialogo entre hospitais, profissionais da saúde, prefeituras e a Central de Regulação da Oferta de Serviços de Saúde é o único meio para minimizar o sofrimento das famílias.