Fenômeno esperado, o aumento da parcela dos mogianos que não foram votar no primeiro turno é apenas mais um retalho a ser considerado na avaliação sobre o esfriamento da relação entre o eleitor e a eleição, não só a municipal, como os números revelam.

Neste ano, a pandemia da Covid-19 afastou das urnas o cidadão mais vulnerável à doença – as pessoas com mais de 60 anos e outras comorbidades.

Mas, a escala ascendente dos que decidem não votar segue em alta, independentemente da crise sanitária.

Apenas para ficar em Mogi das Cruzes,  alta é observada nas três últimas eleições. Em 2016, foram 56.263 abstenções; dois anos mais tarde, 63.714 e no domingo passado, 88.855, quase um quarto do total de votos válidos.

Na revisão dos dois últimos pleitos municipais, entre os votos brancos e nulos, houve um leve recuo – foram 73.707 em 2016 e, 70.501 neste 2020.

Um estudo internacional com 46 eleições realizadas em países onde o voto é obrigatório, ou não obrigatório, em 26 deles, ou seja, 63%, houve esse mesmo avanço. A pandemia tem boa carga de responsabilidade, mas não apenas ela.

O descontentamento com a política e os políticos volta a ser superalimentado pela polarização ideológica pelo mundo afora. E, muito embora, especialmente nas redes sociais, o debate fique muito restrito entre os mais fanáticos por um lado ou o outro, o processo eleitoral é contaminado pelo fogo cruzado entre essas duas partes.

Desse embate nasce a desconfiança popular com o processo eleitoral, algo muito sentido na noite de domingo, quando ataques e falhas no sistema do Tribunal Superior Eleitoral dispararam as comentários sobre a lisura da apuração. Isso, definitivamente, não é bom para a democracia, e muito menos para as cidades, que têm a oportunidade de escolher melhor seus representantes na Câmara e na Prefeitura, a cada quatro anos.

É neste contexto que o TSE precisa rápida e firmemente agir para estabelecer a confiança do eleitor neste segundo turno – em cidades como Mogi das Cruzes. É acertar o passo agora, ou perder ainda mais espaço para a má-fé de pessoas que usam esse momento para desqualificar a democracia e flertar com retrocessos, como o voto no papel. Algo que desestabiliza o país, em momento completamente inadequado