EM CENA

Documentário mostra que a escravidão não acabou

EM CENA Disponível gratuitamente na internet, filme mostra que alguns setores sustentam relações de trabalho precárias e injustas no meio urbano. (Foto: divulgação)
EM CENA Disponível gratuitamente na internet, filme mostra que alguns setores sustentam relações de trabalho precárias e injustas no meio urbano. (Foto: divulgação)

Em 1888 foi assinada a Lei Áurea e estava abolida a escravidão no Brasil, pelo menos na teoria. Na prática a história é outra, como mostra o documentário curta-metragem ‘Como se Fossem Máquinas’, produzido por jornalistas de Mogi das Cruzes, Suzano e Itaquaquecetuba. Lançada originalmente em 2018, a produção ganha novo fôlego ao integrar a 9º Mostra Ecofalante de Cinema, disponível gratuitamente online.

Trazer à tona a “realidade” e também “esclarecimentos” sobre o “trabalho análogo ou de escravidão” são os principais objetivos do filme, que mostra este tipo de prática acontecendo mais perto do que se imagina. Diferentemente de outros tempos, quando o campo era o local mais comum, o alvo hoje são canteiros de obra. Sim, a construção civil.

Para assistir os 28 minutos de depoimentos e imagens gravadas em São Paulo e Mogi das Cruzes basta fazer um cadastro rápido em ecofalante.org.br/filme/como-se-fossem-maquinas. No mesmo site é possível encontrar outros 97 filmes de 24 países, inclusive grandes produções, como ‘Acqua Movie’, estrelado por Alessandra Negrini (leia mais sobre a mostra nesta página).

Os idealizadores, hoje jornalistas formados, na época das filmagens eram estudantes de jornalismo na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). João de Mari, Leonardo Nascimento e Paula Ferraz pensaram um produto para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), e não imaginavam exibi-lo em mostras ou competições como a Ecofalante.

Tudo começou com uma observação de Paula. Enquanto retornava da praia, de madrugada, para evitar o trânsito, ela percebeu pessoas trabalhando em condições precárias na beira da estrada. Não havia equipamentos de proteção individual (EPIs) ou qualquer dispositivo que garantisse segurança maior do que a própria sorte dos trabalhadores.

“Essa história nos sensibilizou”, conta João, que junto dos dois colegas passou a pesquisar sobre a legalidade dessa situação. Além de vários outros casos que ferem os direitos humanos e trabalhistas o trio se deparou com as várias “flexibilizações e normativas criadas pelo governo Temer para facilitar relações mais fracas de trabalho”.

Jornadas intermitentes, acordos entre empregador e empregado, a contratação de mais “pessoas jurídicas” do que “físicas”. Tudo era novo e gerava reflexões. ‘Como se Fossem Máquinas’ é reflexo direto disso e mostra que “pela primeira vez o trabalho análogo a escravidão no meio urbano é maior do que no campo, muito por causa dos grandes investimentos e construções para receber a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016”.

Reflexão

“Quando você começa a ser desvalorizado, passa a desistir dos sonhos”, é o que diz o personagem principal do documentário, Avilson de Santana, trabalhador autônomo que atua em Suzano, em diferentes áreas da construção civil.

O filme mostra Avilson trabalhando e também refletindo a própria história e as oportunidades de trabalho que já teve. Em contrapartida falam especialistas como Vanderlei Lemos, professor de Direito Penal em Mogi, que reconhece que o “Estado é falho”.

A proposta de ‘Como se Fossem Máquinas’ vai de encontro com alguns dos temas da Mostra Ecofalante deste ano, em especial “trabalho digno” e “crescimento econômico”. E é por isso que o trio de jornalistas decidiu inscrevê-lo.

Há um possível prêmio em dinheiro, mas não é o foco, embora seja bem-vindo. O que importa, segundo João, é poder ser visto por diferentes pessoas, de diferentes lugares. “É muito gratificante e estamos felizes só de estarmos participando”, diz ele, que espera ajudar a audiência a criar “camadas” para debater o hoje e refletir o amanhã.

Evento audiovisual é referência

Considerado o mais importante evento audiovisual dedicado ao tema socioambiental da América do Sul, a 9ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental segue até o dia 20 com várias sessões por dia e longas-metragens que ficam disponíveis por 24 horas.

Já os curtas-metragens estão disponíveis em ecofalante.org.br a qualquer hora. É o caso de ‘Como se Fossem Máquinas’, que representa o Alto Tietê na programação e tem alcançado boa visibilidade.

“A repercussão tem sido muito boa e surpreendente. Estamos recebendo mensagens nas redes sociais, de pessoas que assistiram ao filme e que extrapolam nossa bolha de amigos, familiares e ex-professores”, comenta João de Mari, um dos idealizadores do projeto.

Além dos filmes, a programação conta com debates virtuais às quartas-feiras e sábados, com a presença digital de ativistas, cientistas e especialistas. Entre os temas estão ativismo, consumo, economia, emergência climática, povos e lugares, tecnologia e trabalho.


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